Executivos das maiores produtoras de etanol do Brasil e de outros países se reuniram esta semana em São Paulo para discutir os desafios e as oportunidades do setor para seguir crescendo.
Um dos painéis do evento, considerado o mais tradicional do setor na América Latina, o Teco Novonesis, teve como tema “Futuro do etanol: eficiência, carbono e mercado”. Era a hora de compartilhar boas notícias - e outras nem tanto.
A melhor delas é a de que vêm por aí muitas oportunidades no mercado externo, como o uso do etanol no transporte marítimo, na produção de combustível para aviação e na geração de créditos de carbono.
A parte difícil é saber que, por enquanto, com a multiplicação de investimentos na produção, o mercado brasileiro enfrenta um cenário de “sobreoferta” de etanol.
“O que está acontecendo é um franco sucesso do etanol de milho como modelo de negócio e isso vem atraindo capital de uma série de investidores para botar de pé o etanol de milho”, afirmou Daniel Lopes, vice-presidente de Novos Negócios e Sustentabilidade da FS, em entrevista ao AgFeed, logo após sua apresentação no painel.
Ele lembra que quando a empresa iniciou o negócio no Brasil, em 2017, o etanol de milho era 1% do mercado.
“Hoje já está em 30% e a gente vê isso chegando a 40% ou mais em 2 ou 3 anos. São investidores buscando uma atratividade de investimento, retorno sobre o capital, mas isso também está gerando uma sobreoferta de etanol”, ponderou.
As políticas governamentais, como o aumento na mistura de etanol na gasolina este ano, têm ajudado o setor, porém os especialistas reunidos no evento concordam que é necessário mais que isso, para disseminar o uso do biocombustível em outros estados e também avançar nas exportações.
Apesar dos desafios, Lopes abriu sua participação no Teco falando de um “mercado endereçável” para o etanol, globalmente, de “um trilhão de litros”. Hoje a produção mundial está em cerca de 110 bilhões de litros.
“Hoje são 100 bilhões de litros. A gente tem um potencial de mais 400 bilhões de litros no aéreo, mais 400 bilhões no marítimo, e só aí já estamos em 900”, detalhou ele, na conversa com o AgFeed, sobre a previsão trilionária.
O patamar mencionado leva em conta ainda a transição de veículos e máquinas que funcionam a diesel e tendem a cada vez mais serem adaptados para o etanol.
“Temos no diesel, só no Brasil, 17 bilhões (de litros), mas um potencial ainda maior quando a gente começa a falar de outros mercados para acessar o diesel, como no caso de maquinário agrícola, de aviação agrícola, de colheitadeira, de plantio de milho e de soja, e o mercado elétrico também”, afirmou.
No mesmo painel, a gerente global de marketing da Novonesis, Kim Bertz, também trouxe uma mensagem de otimismo para o grupo de empresários. Mostrou que o etanol acrescentou US$ 50 bilhões à economia americana, evoluindo muito nas últimas décadas, apoiado por políticas de incentivo.
Ela ressaltou que também nos EUA o foco agora é seguir trabalhando as questões relacionadas à menor pegada de carbono e ao desenvolvimento de novos mercados, como o combustível marítimo.
“A queda de 6 pontos percentuais, de 88% para 82%, na percepção da rentabilidade da indústria nos faz pensar: o que mudou? O que aconteceu? Vemos que não foi o milho, que continua um pilar sólido. A gente também vê que não é a valorização dos coprodutos”.
Marcos Duda Schmitiz, gerente de desenvolvimento de negócios da Novonesis no Brasil, foi moderador do painel. Segundo ele, a tradicional pesquisa feita junto aos participantes do evento mostrou que 93% do público segue otimista em relação aos negócios.
“A gente vê que a relação de confiança da indústria em relação à oferta e demanda de etanol é que está pressionada, por isso buscamos trazer aqui alguns temas como o aprendizado do mercado americano, onde a indústria é bem mais madura”, disse.
A visão é que as tecnologias mais avançadas para aumentar o rendimento e a eficiência das plantas passa a ser ainda mais importante em cenários desafiadores.
O mercado de baixo carbono
Os empresários e executivos da indústria do etanol confiam que, ao longo do tempo, o biocombustível será compensando financeiramente pela importância para a descarbonização do planeta.
As oportunidades não estão apenas no potencial de crescimento de uso do produto, reduzindo emissões no setor de transportes.
A própria FS foi chamada ao evento para dar detalhes do seu projeto pioneiro de captura e estocagem de carbono no solo, o chamado BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage, na sigla em inglês).
O foco da empresa é ter o “primeiro etanol carbono negativo do mundo”, já que o CO2 gerado no processo de fermentação do milho para produzir o biocombustível, será comprimido, desidratado e depois injetado a cerca de 1.200 metros de profundidade no subsolo, na unidade de Lucas do Rio Verde (MT).
“Nosso projeto de BECCS está 99% pronto, todas as instalações de compressão, de injeção concluídas. A gente está trabalhando muito próximo agora, tanto com a ANP, quanto com a SEMA (Secretaria Estadual do Meio Ambiente) de Mato Grosso, para ter a liberação de todas as licenças desse projeto, que está pronto para operar”, contou Lopes, na conversa com o AgFeed.
Segundo ele, por ser um projeto inédito no País, o processo de autorização, para os reguladores, também é mais desafiador. Estão faltando a licença de operação (LO), concedida pelo órgão estadual, e a autorização de operação (AO), a ser feita pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).
O investimento da FS no projeto deve totalizar R$ 560 milhões. Já foram aportados cerca de R$ 450 milhões. “Ainda faltam uns R$ 100 milhões a desembolsar, mas que já está contratado, então já estamos com bastante conforto que esse vai ser o capex do projeto”.
A companhia já fechou a comercialização de créditos de carbono em contratos com a SLB (empresa envolvida na perfuração dos poços), Pinheiro Neto Advogados, Rubicon Carbon e com a Freepoint Commodities Europe LLP.
“Então a gente já vendeu uma parte desses créditos, uma parte relevante. Ainda não é uma parte que monetiza integralmente o projeto. Estamos trabalhando nisso e a gente entende que, uma vez pronto, ter esse crédito no mercado spot disponível para vender vai ajudar a ter mais transações”.
Daniel Lopes lembra que o modelo de monetização do carbono passa pela emissão dos créditos com a venda no mercado spot.
“Isso a gente acha que vai acontecer lá por volta de março, abril do ano que vem, porque a gente precisa registrar esse crédito na Gold Standard para emitir”.
E passa também, frisou ele, pelo amadurecimento de alguns mercados de carbono que “estão evoluindo bem”.
Nas possibilidades futuras estão as regras que a IMO, Organização Marítima Internacional, na sigla em inglês, deverá votar em dezembro deste ano, para criar um mecanismo de precificação das emissões no transporte marítimo.
“Em aprovando um framework, a gente vê um valor muito grande, porque isso cria um preço para o carbono, cria um mercado para o carbono, cria um alinhamento entre todos os países da ONU para isso, o que vai ser muito bom para o etanol, vai ser muito bom para o BECCS, muito bom para o agricultor brasileiro e mundial, que vai dar liquidez para o milho e para a cana também”, analisou Lopes.
Até o momento já foram comercializados cerca de 50 mil créditos.
“A gente vai ter cerca de 450 mil créditos ao ano sendo gerados, então ainda é um volume relativamente pequeno, mais ou menos acima de 10%, mas a gente aposta muito na pós-emissão e vender isso ainda mais”, ressaltou.
Segundo a FS, os créditos tem sido vendidos com preço entre US$ 100 e US$ 150 por tonelada de carbono, o que seria um preço “bastante atrativo”.
“Se conseguir vender tudo a esse preço, estamos falando de 40 a 60 milhões de dólares ao ano para a empresa sendo gerados”.
O diretor da FS também vê apetite no mercado voluntário de carbono. Para isso, espera ter o projeto registrado “no próximo mês”.
A empresa se mostra otimista porque obteve um rating A junto à agência global BeZero Carbon.
“O nosso já partiu do (rating) A, ele tem alta adicionalidade, e isso significa que não só é um projeto com um apelo e uma adicionalidade muito boa, mas ele também foi labeled (classificado) como First of its kind pela Gold Standard, isso quer dizer que ele é um projeto inovador, pioneiro e que vai ter garantia de créditos por ao menos 45 anos. Estamos super animados com o registro e a emissão que está por vir nos próximos 4 a 6 meses”.
Resumo
- Etanol de milho enfrenta desafios trazidos pelo sucesso no Brasil, mas ganha novas oportunidades com exportações, combustível marítimo e créditos de carbono
- FS vê mercado endereçável global de 1 trilhão de litros para o biocombustível, ante uma produção atual de 110 bilhões
- Empres aposta em captura e armazenamento de carbono para produzir etanol carbono negativo e ampliar a receita com créditos.