A Nestlé investirá R$ 150 milhões entre 2025 e 2027 para fortalecer sua estratégia de relacionamento com produtores de leite no Brasil.

O investimento ocorre em meio à acelerada concentração da pecuária leiteira brasileira, marcada pela redução do número de propriedades e pelo crescimento da escala e da produtividade dos produtores que permanecem na atividade.

Segundo estimativas da Embrapa, o número de estabelecimentos que comercializavam leite caiu de aproximadamente 930 mil em 2006 para 600 mil em 2017. A tendência intensificou-se nos últimos anos, ainda que não haja dados oficiais atualizados.

Para Barbara Sollero, gerente-executiva de Compras de Leite da Nestlé, essa transformação reflete a necessidade de profissionalização de uma atividade que disputa capital e rentabilidade com outras culturas agrícolas.

“O que a gente vem vendo são produtores cada vez mais profissionais, olhando para a fazenda como uma empresa rural, com muito mais gestão dos custos e implementação de tecnologias”, afirma.

Na ponta da captação, as 17 empresas e cooperativas participantes do ranking da Abraleite captaram 40% do leite formalmente inspecionado no Brasil ou, aproximadamente, 11 bilhões de litros em 2025.

O volume representa alta de 6,5% sobre o ano anterior, enquanto o número de fornecedores dessas empresas recuou 3,2% no mesmo período.

Atualmente, a multinacional suíça adquire aproximadamente 1 bilhão de litros de leite fresco por ano, além de cerca de 100 milhões de litros de soro.

A companhia prevê ampliar em 15% a produção de soro de leite até 2029 com a retomada da operação em Carazinho (RS).

Este movimento também está relacionado ao aumento da demanda por lácteos proteicos produzidos a partir deste insumo no contexto das mudanças de hábitos motivadas pelas "canetas emagrecedoras".

Barbara afirma que a prioridade da empresa não é necessariamente ganhar participação no mercado, mas agregar valor à matéria-prima destinada a produtos como os da marca Ninho. Ainda assim, a Nestlé está entre as maiores compradoras de leite do país.

A executiva observa que a concentração favorece a logística das indústrias, mas torna ainda mais estratégico preservar o relacionamento com fornecedores competitivos.

Fidelização pela qualidade

A estratégia de relacionamento também procura garantir que os investimentos feitos nas propriedades tragam resultados duradouros para a companhia.

“Eu quero transformar esse produtor, mas quero que ele esteja comigo no longo prazo”, reforça.

Para isso, a remuneração dos fornecedores considera as condições de mercado e critérios de qualidade. Quem investe em melhorias pode obter condições comerciais mais favoráveis.

Diferentemente das cadeias de aves e suínos, a captação de leite não costuma funcionar por contratos de integração. Os produtores têm mais liberdade para negociar sua produção com diferentes compradores.

“A gente acredita muito que, trabalhando dessa forma transparente, com parceria, temos produtores fidelizados. O pequeno é o nosso futuro. O pequeno que quer crescer”, projeta.

Parte dos recursos anunciados será destinada, além da assistência técnica, a práticas de agricultura regenerativa.  Essas iniciativas ganharam força a partir de 2021, quando a empresa intensificou a implementação de seus compromissos globais de descarbonização.

O trabalho envolve adoção de tecnologias, melhoria da gestão e redução das emissões de carbono, buscando conciliar desempenho ambiental e rentabilidade.

Brasil exportador?

A concentração também avança entre as indústrias. Segundo estimativas citadas por Barbara, as cinco maiores compradoras de leite do Brasil, que respondiam por aproximadamente 25% da captação há uma década, hoje se aproximam de 30%.

O movimento acompanha a expansão de grandes grupos e as aquisições de empresas menores, embora o mercado brasileiro permaneça fragmentado.

Para a executiva, essa reorganização pode ajudar o país a desenvolver uma cadeia leiteira mais competitiva internacionalmente.

O Brasil ainda depende de importações de lácteos para atender parte do consumo doméstico, diferentemente de outras cadeias agropecuárias nacionais com forte presença nas exportações.

Barbara avalia que a evolução da produtividade, dos padrões de qualidade e da sustentabilidade será determinante para mudar esse cenário.

“A gente ainda tem uma série de questões para superar, de qualidade e eventualmente de sustentabilidade, emissões de carbono. Isso vai ser consequência dessa maior profissionalização”, analisa.

Resumo

  • Nestlé compra 1 bilhão de litros de leite ao ano e prevê ampliar em 15% a produção de soro até 2029
  • As 17 maiores empresas e cooperativas concentraram 40% das compras de leite inspecionado em 2025
  • Executiva da Nestlé vê o setor no caminho para o Brasil se tornar exportador de lácteos