Uberaba (MG) - Júnior Friboi olha para o telão posicionado acima do palco, de costas para a plateia. Ao se virar, com os olhos úmidos, o líder da JBJ Investimentos já não conseguia conter as lágrimas diante de mais de 1 mil espectadores que aguardavam o início da terceira edição do Leilão JBJ Genetics e Amigos, realizado na noite de sexta-feira, dia 14 de agosto, durante a Expogenética 2026, em Uberaba (MG).

As lágrimas vieram após a exibição de um breve vídeo de seu pai, José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro. Na tela, o patriarca da família Batista saudava Júnior e a JBJ pela realização de mais um leilão e também resgatava a trajetória do filho mais velho, ex-presidente e ex-acionista da JBS e um dos personagens centrais da construção da gigante global de carnes.

Irmão mais velho de Joesley e Wesley Batista, que ainda hoje controlam a J&F, holding dona da JBS, o primogênito dos Batista assumiu a operação do então frigorífico Friboi aos 20 anos, em 1980.

A relação com o negócio, porém, começou ainda antes. Na juventude, Júnior acordava de madrugada para abater o gado que seria vendido no dia seguinte e ajudava o pai a transportar carne para a então incipiente Brasília. Desde cedo, demonstrava tino para os negócios, apesar de ter deixado os estudos ainda jovem.

No mercado, construiu a reputação de bom negociador, característica que pôde ser observada de perto durante o leilão da JBJ Genetics em Uberaba.

Em poucas horas, Júnior se dividiu entre dezenas de conversas e centenas de cumprimentos. Em um intervalo de apenas 20 minutos, por exemplo, reportagem do AgFeed contou 19 apertos de mão.

Agora, aos 66 anos, Júnior Friboi vive novamente uma fase de construção empresarial, desta vez à frente da JBJ Investimentos, companhia que fundou no início da década passada, após deixar a JBS.

No começo, o negócio de Júnior Friboi tinha uma atuação mais discreta no mercado, incorporando, aos poucos, uma dezena de fazendas. Hoje são 14 propriedades, nas quais a JBJ atua com a pecuária em ciclo completo, cria, recria e engorda.

Em paralelo, a JBJ também adquiriu, em 2014, o frigorífico Mataboi Alimentos, logo rebatizado como Prima Foods, com sede em Uberlândia (MG).

Nos últimos anos, porém, a JBJ ganhou protagonismo com uma estratégia cada vez mais agressiva de expansão, marcada pela compra frequente de fazendas e frigoríficos.

Os movimentos deixaram claro que a companhia entrou em uma nova fase e que o apetite de crescimento está longe de ter diminuído.

Primeiro, em março do ano passado, adquiriu a histórica Fazenda Ressaca, em Cáceres (MT), construída entre a virada do século 19 para o século 20 pela família espanhola Vilanova Torres e que, desde 1983, pertencia aos irmãos Pedro e Alexandre Grendene.

Líder de uma potência da indústria calçadista, os irmãos Grendene também deixaram sua marca na pecuária a partir da operação na Ressaca, formando a Nelore Grendene, com um plantel de primeira linha para comercialização de genética da raça dominante na pecuária de corte no País.

Depois, já no início deste ano, a JBJ anunciou a aquisição do megaconfinaemnto da Fazenda Conforto, em Nova Crixás (GO), de 12 mil hectares, com capacidade estática para receber 76 mil animais e giro anual estimado em 180 mil cabeças, num negócio estimado pelo mercado em R$ 1 bilhão.

A Conforto foi criada pelo empresário Alexandre Negrão, fundador e presidente da farmacêutica Medley, que morreu em 2023. Desde o início, recebeu investimentos para se tornar uma operação moderna e totalmente metrificada para garantir forte produtividade, hoje produtividade de 150 arrobas por hectare, 30 vezes superior à média brasileira, que é de cinco arrobas por hectare

A compra da propriedade, no entanto, acabou não se concretizando em função de deliberações do Cade em junho passado. O órgão de defesa da concorrência negou a possibilidade de que o processo se desse em rito sumário, como queriam ambas as partes, para que o processo fosse mais célere.

O Cade determinou que, para avaliar o negócio, fosse utilizado o rito ordinário, o que poderia estender o processo a pelo menos seis meses, podendo chegar a um ano. As partes desistiram, então, da transaçãom, como antecipou, na ocasião, o AgFeed.

Mas a fome de Júnior Friboi não saciou. Em paralelo, a JBJ fez negócios na parte de genética: de um lado, vendeu parte do material genético da Ressaca para a Casa Branca Agropastoril e também para outros pecuaristas, de outro também adquiriu o projeto Nelore JMP, uma das maiores iniciativas seleção e produção de touros e matrizes melhoradoras da raça Nelore no Brasil, localizado no Mato Grosso do Sul.

A partir de agora, melhorias nas unidades que foram compradas e também novos deals devem acontecer.

Para a Fazenda Ressaca, em Cáceres (MT), o empresário disse preparar um confinamento com capacidade estática de receber 100 mil bois. “E aí você perguntar: é muito? É não!”, afirmou o Júnior Friboi em entrevista ao AgFeed nos bastidores da abertura do leilão na sexta-feira.

Nesse sentido, segundo ele, a JBJ estuda ainda a aquisição de outros confinamentos em diferentes estados de diversas regiões do Brasil, como Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

“A quantidade de rebanho nesses estados é muito grande”, disse Júnior, despistando, no entanto, quais negócios tem em seu pipeline neste momento.

A compra da Conforto foi de fato descartada após o Cade não ter aceitado o rito em função do ritmo acelerado que Júnior resolveu tocar seus negócios. “Não me convém esperar.”

Em paralelo, as compras da Prima Foods, que vai assumir, em setembro, o frigorífico que comprou da Frialto em Ji-Paraná (RO), e que tem capacidade de abate de 1 mil animais por dias, também não devem parar na unidade rondonienese.

Além da planta recém adqurida, o Prima Foods tem outros três frigoríficos em Araguari (MG), Santa Fé de Goiás (GO) e Cassilândia (MS), somando entre 2 mil a 3 mil cabeças abatidas diariamente.

O objetivo, no entanto, é ampliar esse plantel de unidades em algum momento. “Nós vamos adquirir mais algumas plantas. Estamos em processo de expansão, estamos olhando outros negócios, outras oportunidades”, adiantou o empresário, econômico nos detalhes.

A estratégia está baseada em uma certeza que Júnior Friboi carrega para a Prima Foods: o frigorífico não tem limites para sua expansão.

“A Prima Foods vai crescer no industrializado, vai crescer no processado, vai crescer na commodity, na exportação, no produto de valor agregado”, diz.

Ele afirmou não descartar, inclusive, que um dia a Prima Foods tenha uma unidade nos Estados Unidos, a exemplo do que fez a JBS, que comprou suas primeiras plantas no país nos anos 2000, a partir da aquisição da Swift & Company por US$ 1,4 bilhão em 2007, e hoje é também um grande player do mercado americano.

"É oportunidade, momento, mas o sonho sempre existiu", disse. "É por isso que internacionalizamos a JBS. Mas tem que ser um passo de cada vez.”

A vantagem para a JBJ, emendou Júnior Friboi, é justamente ter o apoio da operação internacional da JBS.

"Já internacionalizei a JBJ, pois tudo que eu tenho para internacionalizar a JBJ, tenho a JBS para dar suporte", disse o empresário.

Nova geração

Na emocionada fala que abriu o leilão da JBJ em Uberaba, na sexta-feira, Júnior fez questão de estar rodeado pela família – o filho Fabrício, a nora Geórgia e os netos – e chamou a atenção para a ideia de unidade.

Por mais que ainda seja o grande nome da JBJ – inclusive são as suas iniciais que dão nome à empresa –, Júnior Friboi fez questão de frisar que não é o único a dar as cartas na operação.

"O eu não pode existir na palavra de uma pessoa. É nós. O eu é destrutivo, O nós sobra tudo e é muito construtivo. Nós. Nós construímos o Brasil, não é meu filho?", disse Júnior na abertura do evento, chamando por Fabrício, que hoje é o CEO da JBJ Agropecuária.

Aos poucos, a JBJ também passa a ser cada vez mais Fabrício Batista.

Aos 41 anos, ele está à frente da JBJ Agropecuária e acompanha de perto o dia a dia das diferentes frentes do grupo, das fazendas ao frigorífico Prima Foods.

O AgFeed teve a oportunidade de conversar com Fabricio Batista. Assim como o pai, ele é carismático e sorridente, do tipo que conquista o interlocutor logo nos primeiros minutos.

O curioso é que, há não muito tempo, o empresário era um pouco mais avesso ao contato com a imprensa, contou uma fonte ao AgFeed, mas, no período recente, a esposa Geórgia foi o habituando a conversar com os jornalistas.

Enquanto Júnior traz a visão estratégica – e o conhecimento prático acumulado em décadas de negócios – sobre os caminhos que a companhia deve seguir, Fabrício está mais diretamente ligado à execução da operação, à implementação de inovações e aos números atuais do grupo.

O empresário estima que a JBJ fature R$ 10 bilhões até o ano que vem. E parte desse crescimento virá da expansão da operação da Prima Foods.

Com a incorporação da unidade de Ji-Paraná, a expectativa é de que o faturamento do frigorífico avance dos R$ 3,6 bilhões registrados no balanço ao fim de 2025 para cerca de R$ 5 bilhões em 2027.

Neste ano, porém, o desempenho do negócio deve continuar na faixa que vai entre R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões, segundo Fabrício Batista, impactado pela restrição às remessas para a China.

O mercado chinês é relevante para a Prima Foods, que tem 70% de suas receitas provenientes das exportações.

“A gente perdeu um mercado, que é o de maior volume e maior preço. Entramos numa fase, que considera julho, agosto e setembro, no qual as cotas já foram encerradas e os abates diminuíram um pouco”, contou Fabrício Batista.

“Mas a gente acredita que, a partir de outubro, já retoma os abates, que é a produção para ser entregue em janeiro de 2027, para cumprir a cota de 2027.”

Já o faturamento da JBJ Agropecuária, isoladamente, deve girar em torno de R$ 4 bilhões neste ano.

Considerando a expansão prevista para a Prima Foods e a evolução dos demais negócios, a expectativa de Fabrício Batista é de que a holding JBJ como um todo alcance R$ 10 bilhões em faturamento em 2027.

Por ora, porém, o momento é de consolidação.

Os planos de expansão de Júnior Friboi continuam no horizonte, mas, segundo Fabrício Batista, a prioridade agora é extrair o máximo dos ativos que já foram incorporados ao grupo.

“Agora é um momento de consolidar, de começar a operar essa planta nova que compramos. E lógico, olharmos para o futuro. Mas a prioridade, no momento, é começar a operar o que a gente já adquiriu”, afirmou.

Nesse contexto, a compra da Conforto foi definitivamente descartada, segundo Fabrício. “Acho que as empresas não podem ficar paradas um ano esperando uma análise. A gente encerrou, e aí é olhar para o futuro”, afirmou.

Hoje, a JBJ possui quatro confinamentos, sendo dois em Mato Grosso e dois em Goiás, com capacidade para produzir até 600 mil animais, considerando um ciclo de três giros.

“Vamos fechar o ano de 2026 com mais ou menos 400 mil animais. Mas, logicamente, a gente busca uma maior eficiência dentro das nossas próprias plantas. E a gente tem margem para crescer internamente”, projetou Fabrício Batista.

No negócio de genética, que representa entre 5% e 10% do faturamento total da JBJ, Batista explica que a venda de parte do material genético que a Nelore Grendene mantinha na Fazenda Ressaca foi consequência natural do processo de seleção do plantel.

“Nós adquirimos 27 mil animais PO registrados. Naturalmente, desses 27 mil, nós selecionamos o que tinha aquela base, principalmente das fêmeas doadoras, no qual a gente vai multiplicar essa genética através da reprodução delas e a gente foi quase que obrigado a vender um pouco para o mercado e ofertar isso”, explica Fabrício.

“Quando você compra um plantel, você seleciona de novo. Não que você vai vender o que é ruim, mas você tem quase que a obrigação de ir dividindo isso. É para evitar a duplicidade também. Dentro desse mercado, volume contra volume joga contra você mesmo."

Já a compra da Nelore JMP era um objetivo antigo da JBJ, perseguida desde o início da operação de genética, há aproximadamente cinco anos.

“A JMP sempre foi uma referência para nós dentro desse universo do gado PO de prova. E aí tivemos a oportunidade de adquirir o plantel”, disse.

Nos últimos tempos, porém, a grande paixão de Batista tem sido outra frente do grupo: a JBJ Ranch, como o AgFeed mostrou recentemente.

Os cavalos fazem parte da vida de Fabrício Batista desde a infância e se transformaram em um negócio de fato em 2021, em plena pandemia, com a criação da JBJ Ranch. Hoje, a marca está por trás de um dos principais leilões de animais da raça no Brasil.

No evento mais recente, realizado em maio deste ano na sede do rancho, em Nazário (GO), a JBJ Ranch movimentou R$ 275 milhões, marca recorde que fez do leilão o maior de Quartos de Milha do mundo.

“Acreditamos muito nesse mercado. E o desempenho dos leilões só tem reforçado essa nossa crença”, afirma Fabrício Batista.

O futuro da proteína

Se o futuro da JBJ passa por Fabrício Batista e outros descendentes de José Batista Júnior, como o empresário vê o futuro da proteína animal como um todo?

Com a experiência de quem atravessou diferentes ciclos da pecuária brasileira, desde a época em que o País ainda era um grande importador de carne bovina, no início dos anos 1980, até se tornar líder global na produção e transformar frigoríficos em gigantes multinacionais de alimentos, Júnior Friboi carrega algumas convicções sobre o futuro das proteínas.

E fez questão de compartilhá-las na conversa com o AgFeed, fazendo várias conexões sobre problemas do presente.

Quando o assunto, por exemplo, são as restrições comerciais impostas pela União Europeia aos produtos brasileiros – seja o recente bloqueio à entrada de carne de frango sob a alegação de uso de antimicrobianos na produção nacional, seja a legislação antidesmatamento –, o empresário resume sua visão em uma frase:

“Os mercados se abrem e se fecham dependendo da necessidade. Faz só 50 anos que eu vejo isso”, brincou.

Para ele, o acordo entre União Europeia e Mercosul só vai valer, na prática, quando o mercado europeu precisar de produtos do mercado sul-americano.

“Eles têm reserva de mercado, eles assinaram o acordo, mas eles estão preocupados com os produtores deles. É a necessidade: na hora que faltar lá, aí vale o acordo, se não faltar lá, o acordo está assinado, mas não está válido, com certeza”, avaliou o executivo.

Júnior enfatizou que, hoje e no futuro, a principal preocupação do Brasil deve ser a qualidade do animal produzido, e não mais apenas a quantidade. Para ele, esse é um dos caminhos para conquistar mercados ainda mais exigentes.

O Brasil já exporta para mais de 150 países, mas continua em busca da abertura de mercados como o Japão, conhecido pela produção de carne Wagyu, reconhecida pelo padrão de qualidade que possui.

“Lá atrás, o Brasil não tinha uma preocupação com a genética, com a qualidade”, admitiu Júnior Friboi.

“Mas, hoje, nós abatemos animal de quatro, cinco anos, estamos estamos abatendo cada ano que passa animal mais novo, mais precoce e melhorando a qualidade de sabor, de textura, de coloração, de pH. Isso está fazendo com que nós consigamos abrir os mercados”, disse.

Mesmo diante da recente restrição às exportações brasileiras de carne bovina para a China, que impôs uma cota às remessas do país neste ano, Júnior Friboi mantém a confiança no mercado chinês.

Na avaliação do empresário, eventuais interrupções ou reduções nas compras podem ocorrer como forma de proteção ao produtor local, mas não devem alterar a tendência de longo prazo.

“A China começou a comprar carne para o Brasil e não vai parar mais. Pode diminuir um pouco em função de proteção de reserva de mercado, em função dos produtores chineses, mas nunca vai parar de consumir a carne bovina do Brasil”, avaliou.

No caso dos Estados Unidos, Júnior Friboi acredita que a importância do mercado americano vai além do volume exportado.

Hoje, ele lembra que boa parte da carne bovina brasileira enviada ao país é destinada à produção de hambúrgueres, mas, para o empresário, a habilitação para exportar aos EUA tem um peso simbólico e comercial maior.

“Até porque, se você está está habilitado para o Estados Unidos, o mundo inteiro acredita no Brasil”, resumiu o empresário.

Júnior cita ainda outros mercados nos quais enxerga potencial de crescimento, como os Emirados Árabes, o Oriente Médio, a Indonésia, o Vietnã e o Chile.

A internacionalização dos negócios, afirmou o executivo, é um dos caminhos para sustentar o crescimento das empresas, especialmente em um setor de margens estreitas como a pecuária, mas não apenas esse segmento.

“Procure internacionalizar o seu negócio, melhorar, renovar, aumentar a escala... a economia de escala é muito importante dentro do negócio, porque as margens são muito pequenas hoje. Mas você tem que ter economia de escala. E uma coisa importante que eu sempre tenho dito: invista em talentos, em pessoas, não invista em máquinas só, invista em gente”, recomendou aos empresários.

Júnior, então, apontou para o palco onde era realizado o leilão. "Isso aqui só dá certo se estivessem todos aqui. Se não tiver ninguém aqui, não adianta você ter tecnologia. A mensagem que eu deixo: valorize as pessoas. As pessoas são o maior ativo no planeta."

A aposta na internacionalização, porém, não significa deixar o Brasil em segundo plano. Para os empresários brasileiros, Júnior Friboi mantém uma visão otimista sobre o país.

“Acredite no Brasil. Acredite que vai dar certo. Acredite que o Brasil é o melhor país do mundo. Eu amo esse país”, disse.

E para a JBJ o que reserva o futuro? "Não tem limites para crescer!", projeta um eufórico Júnior Friboi. "Ninguém pode pôr limite na vida de nada."

O repórter viajou a convite da JBJ

Resumo

  • Ao AgFeed, megaempresário de proteína animal detalha planos de expansão para o futuro e consolidação de sua empresa, JBJ
  • Grupo adquiriu frigorífico recentemente, além de grande fazenda e negócio no setor de genética
  • Júnior Friboi foi presidente e acionista da JBS por décadas e é filho do fundador Zé Mineiro