Preparação concluída na Boa Safra. A empresa da família Colpo encerrou seu primeiro semestre e entrou na parte mais importante do seu ciclo comercial com uma combinação que pode sustentar resultados mais fortes em 2026: uma carteira de pedidos recorde de R$ 1,8 bilhão e R$ 622 milhões em estoques de sementes de soja.

A companhia terminou junho com a maior carteira de sua história, mesmo com os pedidos de soja 12% abaixo do registrado um ano antes.

A explicação para o recorde está na diversificação. Enquanto a carteira de soja recuou de R$ 1,66 bilhão para R$ 1,47 bilhão, os demais negócios (outras sementes como milho e forrageira) saltaram de R$ 52 milhões para R$ 337 milhões. Com isso, essas atividades passaram a representar quase 19% da carteira, contra apenas 3% no segundo trimestre de 2025.

O segundo e o primeiro trimestres têm peso costumeiramente menor no resultado anual da Boa Safra, pois apesar de entrar em novos mercados nos últimos anos, a soja - grão que dá nome ao ticker da listagem na B3 - é ainda o grande determinante dos resultados da empresa.

Segundo Marino Colpo, CEO da empresa, a maior parte do faturamento ocorre a partir de agosto, quando começa a entrega das sementes para o plantio da oleaginosa.

“Os trimestres mais importantes são o terceiro e o quarto. O primeiro e o segundo são coadjuvantes no filme que termina no quarto trimestre”, afirmou Colpo em conversa com jornalistas para comentar o resultado do segundo trimestre, divulgado na noite desta sexta-feira, 14 de agosto.

Além da carteira, a empresa chegou ao segundo semestre com R$ 479 milhões em sementes de soja já prontas para comercialização e outros R$ 143 milhões em processo de beneficiamento.

A preparação ganhou importância diante de um ciclo de produção marcado pelo excesso de chuvas nas principais regiões produtoras de sementes. A Boa Safra ampliou a originação no campo para 320 mil hectares, ante 274 mil no ciclo anterior, numa tentativa de reduzir a exposição ao risco climático e garantir matéria-prima para o beneficiamento.

Mesmo com os descartes necessários para manter os padrões de qualidade, a companhia utilizou cerca de 90% de sua capacidade produtiva. Segundo Colpo, as primeiras análises indicam que a qualidade das sementes está entre as melhores dos últimos ciclos.

“É uma oportunidade para a Boa Safra. Tivemos um evento climático que atrapalhou o mercado todo, incluindo nós, diminuiu a oferta, e conseguimos menores preços quando comparados ao ano passado. Nunca tivemos uma carteira tão alta e a qualidade da semente está muito boa mesmo com a questão climática”, afirmou.

O cenário de menor oferta, contudo, não se traduziu em uma aceleração das compras de soja. A administração atribui a queda da carteira da cultura principalmente ao atraso na tomada de decisão do produtor, em um ano em que o crédito continuou mais escasso e os preços dos insumos permaneceram elevados.

Segundo o executivo, o atraso das compras está atrelado à postergação da aquisição dos fertilizantes, normalmente a primeira compra da cesta de insumos feita pelo agricultor, que seja por crédito escasso ou por guerra no Oriente Médio, "empurraram" ainda mais a hora de pagar pelas sementes.

Apesar disso, a percepção da Boa Safra é de que o produtor apenas postergou, e que a intenção de plantio segue a mesma. “Não acho que o produtor vai deixar de plantar. Estou vendo uma área similar à do ano passado”, disse Colpo, que ainda afirmou que a companhia segue com negócios mais aquecidos que dos concorrentes.

Mesmo com os olhares para a segunda metade do ano, a foto do segundo trimestre mostra resultados em avanço frente a 2025.

A receita operacional líquida cresceu 23%, para R$ 124,6 milhões, enquanto o lucro bruto avançou 83%, para R$ 70 milhões, com margem bruta de 56%. O Ebitda ajustado passou de R$ 4,5 milhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 27,6 milhões neste ano.

Felipe Marques, CFO da empresa, destacou ainda que a empresa geralmente opera com prejuízo neste trimestre, mas que em 2026 registrou lucro líquido de R$ 2,6 milhões. Ano passado o resultado líquido foi negativo em quase R$ 3 milhões.

O balanço ainda aponta que a Bestway, braço de beneficiamento e tratamento industrial de sementes, teve receita de aproximadamente R$ 20 milhões no primeiro semestre, quase o dobro do registrado um ano antes, e terminou junho com R$ 104 milhões em carteira.

A SBS Green Seeds, voltada a sementes de pastagem e cobertura, já acumula R$ 60 milhões em pedidos para a safra 2026/27. “Hoje sentimos que a diversificação já soma quase 20% do negócio. A perspectiva é de crescer muito rápido e deve ser um motor de crescimento nos próximos anos”, afirmou Colpo.

A melhora acontece depois de um 2025 em que a companhia priorizou ganho de participação de mercado, de acordo com os executivos. Segundo Colpo, a Boa Safra cresceu receita e ganhou cerca de 2,5 pontos porcentuais de market share, mas com impacto sobre as margens.

Para 2026, a estratégia é outra. A empresa pretende preservar a participação conquistada e recuperar rentabilidade, mesmo que isso signifique abrir mão de parte do crescimento de volume.

“Este ano estamos contando outra história e outra meta: tirar o foco de crescimento e recuperar margem, mantendo os números do ano passado”, afirmou.

Segundo Colpo, o cenário de RJs e falta de liquidez reduziram o tamanho de alguns concorrentes neste ano. Apesar disso, o risco de crédito continua, e a empresa aumentou a sua provisão para perdas esperadas de R$ 16 milhões para R$ 30 milhões.

A posição de caixa ajuda a completar a fotografia para o segundo semestre. A Boa Safra encerrou junho com R$ 1,31 bilhão em caixa e aplicações financeiras, além dos estoques que sustentam a entrega da carteira.

Resumo

  • Boa Safra encerra 1º semestre com carteira recorde de R$ 1,8 bi e R$ 622 milhões em estoques de sementes para entregar no 2º semestre
  • Negócios fora da soja saltam de R$ 52 milhões para R$ 337 milhões e já representam quase 20% da carteira da companhia
  • Empresa eleva lucro, EBITDA e margem no 2T26 e chega ao 2º semestre com R$ 1,31 bi em caixa