Cavalos e planos grandiosos convivem desde a primeira infância na trajetória de Fabricio Batista. Ainda pequeno, enquanto se divertia entre pôneis e alazões na fazenda da família na zona rural de Luziânia, na divisa do Distrito Federal com Goiás, ele acompanhou a transformação da JBS, empresa que tem as iniciais de seu avô, José Batista Sobrinho, na maior empresa de alimentos com base em proteína animal do mundo.
E na última década e meia, ajudou a construir o JBJ, grupo nomeado com o acrônimo do pai, José Batista Júnior, o Júnior Friboi, e que se tornou uma das maiores, se não a maior, operações pecuárias do Brasil.
Não é por acaso, portanto, que os cavalos estejam por trás do plano grandioso em execução pelo próprio Fabricio e que, segundo o empresário de 41 anos, não está muito longe de se tornar realidade: criar o maior empreendimento global dedicado ao melhoramento genético, à criação e à comercialização da raça Quarto de Milha.
Sua grande paixão desde criança, os equinos tornaram-se um negócio sério em 2021, em plena pandemia, com a criação do JBJ Ranch, hoje a grife por trás do maior leilão de animais da raça no Brasil.
O evento, cuja quinta edição acontece entre 15 e 17 de maio próximos, deve reunir mais de 1,5 mil pessoas por dia e até contar com show de estrelas do universo sertanejo como Hugo e Guilherme, Paula Fernandes, Jads e Jadson e Maiara e Maraisa, na sede do rancho, em Nazário, a 70 quilômetros de Goiânia.
Serão 150 lotes colocados à venda, o recorde na curta história da empresa. “Nossa expectativa é movimentar cerca de R$ 150 milhões”, afirma Fabrício, em entrevista ao AgFeed.
Seria um avanço importante em relação à edição de 2025, que registrou R$ 130 milhões em vendas. “Em termos de cifras, de faturamento, com certeza é o maior leilão do Brasil”, diz ele, referindo-se ao universo do Quarto de Milha.
Isso, segundo Fabrício, já o colocaria em uma dimensão pelo menos duas vezes e meia acima do segundo colocado no País. Mas aquela ambição global presente no DNA dos Batista já aponta mais longe.
“Tenho informações de que existe um leilão no Estados Unidos que é maior que o nosso. Um leilão que faturou 150 milhões de reais, trazendo dólar para real. Então, talvez se esse ano ultrapassarmos essa marca, sejamos até o maior do mundo”.
De paixão a negócio
Foram necessários apenas cerca de seis anos para chegar a esse estágio após o reencontro com os cavalos, em 2020. Antes disso, foram mais de duas décadas de uma espécie de separação forçada pelas circunstâncias.
Aos 12 anos, Fabrício teve de trocar Luziânia por Goiânia em função dos estudos. Então, fez seu primeiro negócio na área, liquidando o plantel equino que mantinha na fazenda do DF.
Depois de completar os estudos, ele seguiu o caminho natural de trabalhar na JBS, na época presidida por seu pai. Foram 10 anos na sede, em São Paulo.
Depois, correu o mundo como executivo da empresa, primeiro no Colorado, nos Estados Unidos, depois na Austrália, até ser chamado, em 2012, a voltar e trabalhar com o pai, que havia vendido sua participação na companhia aos irmãos Wesley e Joesley.
“Uma parte do pagamento, logicamente, foi em capital. A outra metade do pagamento foi em ativos. E esses ativos eram fazendas, que foram passadas a ele”, conta Fabrício.
“Então retornei da Austrália para, junto com meu pai, receber essas fazendas e fazer a fundação da JBJ Agropecuária”.
Naquela época, Júnior fez uma breve incursão pela política, com uma pré-campanha pra governo de Goiás. Assim, deixou a função empresarial nas mãos do filho.
De volta às fazendas, o jovem retomou o gosto pela criação e a relação com os cavalos. Nada profissional, no princípio. Até que, em meados de 2020, a pandemia mudou a história.
Ao invés de ficar isolado em Goiânia, Fabrício decidiu voltar a viver no campo, em uma das fazendas do grupo. E aí, “o lazer, a paixão e o prazer”, conforme ele mesmo define, começaram a ganhar forma de negócio.
E em um segmento de cifras bilionárias. De acordo com ele, o “PIB do Quarto de Milha” movimenta R$ 30 bilhões no Brasil. Mundialmente, chega US$ 170 bilhões, o suficiente para despertar a veia dos planos grandiosos dos Batista.
“É um mercado gigantesco, quase um trilhão de reais”, reforça.
Na fazenda, ele começou a colocar em prática a criação de cavalo de forma profissional. “E aí trazendo bastante gestão do mundo empresarial, trazendo bons profissionais do mercado, estudando bastante sobre a criação de cavalos de alta performance”. lembra.
Naquele mesmo ano, adquiriu os primeiros animais – “boas matrizes, boas doadoras” – em leilões virtuais. O foco já era na raça Quarto de Milha, buscando animais primeiro no Brasil e, mais tarde, nos principais centros de criação dos Estados Unidos.
A ordem era proporcionar bons acasalamentos, “de boas mães com bons pais, de éguas ganhadoras com os melhores garanhões que havia no mercado”.
Quando a pandemia cedeu, Fabrício ganhou a estrada. Visitou os grandes criatórios do Brasil, participou dos leilões, comprando e também já vendendo.
“Então o lado da produção começou a andar muito forte, juntamente com o lado comercial”, diz. Até que, em 2022, já com um relacionamento grande dentro do País, ele decidiu fazer o primeiro leilão do JBJ Ranch.
“A produção estava ali, aquilo não era mais só uma paixão. A produção tem despesa e eu queria conciliar a despesa com receita. E para ter receita, você precisa vender”.
Escalada a galope
Até então, de acordo com o empresário, ele já havia investido cerca de R$ 30 milhões no negócio. Cerca de 50% foram usados na estruturação do rancho na Fazenda Floresta, em Nazário, uma das 14 do grupo.
Ali, funciona uma espécie de vitrine dos negócios do grupo JBJ. Em um total de 3 mil hectares, o haras para os cavalos divide espaço com um confinamento de 20 mil bois estáticos, onde são terminadas 60 mil cabeças por ano, uma para para recria a pasto, com mais 15 mil animais, e as instalações da JBJ Genetics, núcleo de melhoramento genético para a raça de gado Nelore P.O..
A outra metade do investimento foi direcionada à aquisição da melhor genética Quarto de Milha disponível. É também no melhoramento da raça que está centrada a atuação do JBJ Ranch.
“Sempre acreditei muito no melhoramento genético, que é onde você tem boas margens no negócio, os animais de maior valor agregado”, diz Fabrício.
Assim, quando realizou seu primeiro leilão, Fabrício já começou a perceber o potencial de retorno desse investimento. Segundo ele, naquele momento o faturamento bruto dos leilões dos maiores criatórios da raça girava em torno de R$ 10 milhões.
Logo na estreia, o JBJ atingiu R$ 9,8 milhões, se colocando na primeira prateleira do segmento.
Se era necessário um impulso para o negócio, estava dado. A partir daí, as viagens aos Estados Unidos, principalmente ao Texas, tornaram-se mais frequentes.
Seu objetivo era “trazer para o Brasil o que tinha de fato de melhor e o que faltava aqui”. Foi preciso entender os trâmites de importação, documentação, quarentena sanitária desses animais e fretes, mas os resultados vieram em pouco tempo.
Com sangue novo, a segunda edição do leilão já teve resultado dobrado, para R$ 20 milhões. “Nos especializamos nessa importação, o que era uma coisa inédita. Todos os criatórios brasileiros são muito focados na produção aqui e a gente foi ao berço do negócio, que é o Texas”.
A partir de 2023, o JBJ começou a fazer acasalamentos ainda no Texas e a trazer em torno de 20 animais ao ano para serem comercializados no mercado brasileiro.
Com a receita dando resultado, no final de 2024, o grupo decidiu comprar uma propriedade nos Estados Unidos. Com 100 acres (cerca de 40 hectares), o Pilot Point Ranch fica a 40 quilômetros de Dallas e se tornou um hub estratégico para os planos da empresa.
Ali, o JBJ reúne matrizes, produz os embriões e os transfere para as receptoras. “Talvez sejamos os únicos brasileiros dentro dessa escala a ter essa propriedade nos Estados Unidos com produção própria. Isso foi um grande passo para nós”, diz. “Em 2025, a gente teve a nossa primeira produção, que vamos comercializar este ano”.
Se, a princípio, essa comercialização seja feita no Brasil, a sede americana abre as portas para o projeto global de Fabrício. “O cavalo quarto de milha não tem fronteiras”, pontua.
“A gente tem o Brasil, que é um grande produtor e consumidor de cavalos. A gente tem aqui toda a América do Sul, o Paraguai, tem a Argentina, Uruguai, Bolívia, que são grandes consumidores de cavalo também”.
“Os Estados Unidos são o berço e o maior mercado global. O México compra muito Quarto de Milha. O Canadá, também. E a gente tem a Europa, principalmente Alemanha, Bélgica e Itália, que são grandes consumidores dos cavalos produzidos nos Estados Unidos” continua.
“Então a nossa ideia é montar um negócio global, tendo o Brasil fornecendo para a América do Sul e os Estados Unidos, para a América do Norte e a Europa”.
O Texas no Brasil
Diferentemente dos grandes volumes do negócio bovino, em que a JBJ Agropecuária movimenta mais de 540 mil cabeças por ano em seus confinamentos, o negócio do JBJ Ranch se assemelha mais ao mercado de gado de elite, que cresceu cercado de glamour para atrair investidores que vão além da produção.
“O negócio de cavalo, eu tenho dito, nunca foi quantidade, mas sim qualidade”, afirma. “Então, tudo que a gente tem hoje, todo o nosso material genético disponível, é um grande diferencial, que ninguém tem no mercado, nem no Brasil e nem nos Estados Unidos”.
Se o produto é exclusivo, acredita, a venda precisa acontecer em um cenário que reflita essa singularidade. Assim, para Fabrício, outra vertente de seu negócio é oferecer uma experiência ao público comprador.
É o que ele tem buscado nos leilões do JBJ Ranch. “Você chega aqui, o ambiente é todo decorado como se fosse, de fato, o Texas”, resume.
“É um bufê totalmente diferente, o bar, são bebidas totalmente exclusivas. O público que está ali não são somente compradores de genética do cavalo quarto de milha. São formadores de opinião, são empresários, tem a classe política, os maiores artistas do Brasil”, detalha.
“A gente reúne ali uma comunidade para ter, de fato, essa experiência do cavalo, do mundo western aliado totalmente à qualidade que é ofertada”.
A receita tem dado resultados. No leilão do ano passado, por exemplo, um único animal, uma cota de 50% da égua Stop Little Sister foi comercializada por mais de R$ 11 mihões, levando seu valor de mercado a R$ 22,7 milhões, recorde da raça no Brasil.
O leilão deste ano vai oferecer 150 animais. Desses, 60% são do JBJ e os outros 40%, de convidados. A proposta de Fabrício Batista é subir a régua e mostrar o caminho.
“A evolução é visível. Para mudar o mercado, basta alguém puxar. A partir do momento que vem alguém puxando, todos os criadores e o mercado vêm evoluindo junto”, afirma. Fabrício montou no cavalo da liderança e dificilmente vai querer descer dali.
Resumo
- Fabrício Batista transformou o JBJ Ranch em referência no mercado de cavalos Quarto de Milha no Brasil em apenas cinco anos
- Leilão de 2026 deve movimentar R$ 150 milhões, consolidando a marca entre as maiores do mundo no segmento
- Estratégia global inclui importação genética dos EUA, operação no Texas e expansão para América Latina e Europa