O agronegócio brasileiro abriu 2026 retomando a tendência de alta nas recuperações judiciais. Foram 474 pedidos do recurso no primeiro trimestre, crescimento de 21,9% na comparação com as 389 solicitações do mesmo período de 2025, segundo dados inéditos do indicador da Serasa Experian divulgados nesta quarta-feira, 12 de agosto.
O avanço veio puxado, principalmente, pelos produtores que operam como pessoa jurídica. Esse grupo concentrou 196 pedidos entre janeiro e março, volume 73,5% superior às 113 solicitações do primeiro trimestre de 2025 — a maior alta anual entre os três perfis analisados.
No recorte por atividade, o cultivo de soja respondeu por 137 pedidos, seguido pela criação de bovinos, com 42. Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideraram a classificação por estados.
As empresas da cadeia agro também avançaram: foram 96 pedidos, alta de 18,5% ante as 81 do ano anterior. As agroindústrias de transformação primária lideraram, com 23 solicitações, seguidas pelas indústrias de processamento de agroderivados (19) e pelos serviços de apoio à agropecuária (15). Paraná, São Paulo e Mato Grosso ocuparam as primeiras posições nesse segmento.
Na contramão, os números relacionados a produtores pessoas físicas registraram retração. Foram 182 pedidos no trimestre, queda de 6,7% diante das 195 solicitações de 2025.
Por porte, os classificados como "sem propriedades" — grupo que pode incluir arrendatários ou integrantes de grupos familiares e econômicos ligados à atividade rural — concentraram 60 pedidos, seguidos por pequenos proprietários (44), grandes (41) e médios (37). Mato Grosso, Paraná e Goiás lideraram nesse perfil.
No total geral, Mato Grosso foi o estado com maior número de solicitações, com 135 registros, à frente de Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Para o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, os números do começo do ano refletem a continuidade de dificuldades que já pressionavam a saúde financeira de parte dos produtores e empresários do setor.
“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, analisou Marcelo Pimenta, Head de Agronegócio da Serasa.
Segundo ele, os pedidos voltaram a crescer no início de 2026, mas ainda não retomaram os patamares mais altos observados em meados do ano passado.
“Daqui para o meio e o fim do ano, a evolução do cenário dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos. Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”, afirmou.
Com o uso de Inteligência Artificial na análise dos dados, a Serasa também rodou modelos preditivos para atribuir o chamado Agro Score, indicador que identifica antecipadamente mudanças no perfil financeiro de produtores e empresas.
Segundo Pimenta, análises feitas com a ferramenta mostraram que o Agro Score médio dos produtores pessoas físicas que posteriormente solicitaram recuperação judicial já era significativamente inferior ao da população rural em geral três anos antes da formalização do pedido.
Pimenta ressaltou que, ao considerar as particularidades da atividade rural, é possível reconhecer sinais que uma análise genérica não capturaria. "A combinação de dados, inteligência artificial e modelos preditivos permite diferenciar os níveis de risco e tornar a concessão de crédito mais segura, sem restringir de maneira indiscriminada o acesso aos recursos necessários para o desenvolvimento do setor", explicou.
Resumo
- Pedidos de recuperação judicial no agro cresceram 22% no 1º trimestre, totalizando 474 casos, segundo a Serasa Experian
- Produtores rurais pessoa jurídica lideraram a alta, com avanço de 73,5%; Mato Grosso concentrou o maior número de pedidos
- Serasa destaca uso de IA e Agro Score para antecipar riscos de crédito e reduzir a necessidade de recuperações judiciais