A safra agrícola cresce a cada ano e, na carona, aumenta a demanda por transporte e infraestrutura. É uma lógica que por muito tempo foi favorecendo as vendas de caminhões para levar a produção da fazenda até o destino, seja a indústria ou a exportação.

O problema é que nos últimos dois anos foi se agravando o endividamento do produtor rural, freando novos investimentos. Ao mesmo tempo os custos de produção e também o frete ficaram mais caros. Tudo isso respinga ao longo da cadeia e faz com que as transportadoras também reduzam o apetite para renovar a frota.

Em entrevista ao AgFeed, o diretor executivo da Volvo Caminhões, Alcides Cavalcanti, disse que a empresa é líder em caminhões acima de 16 toneladas desde 2022.

Com forte aptidão para o transporte de grãos, hoje calcula que 60% da sua receita tenha relação com o agronegócio. A montadora atende ainda uma boa parcela da demanda dos setores de proteína animal, insumos agrícolas, cana-de-açúcar e setor florestal.

Com as margens mais apertadas, o crédito restrito e os juros altos, o agro vem reduzindo investimento em máquinas e também em caminhões.

“O agro impactou o negócio de caminhões, o mercado tinha caído em torno de 15% e esse ano a gente também tem uma projeção de uma redução de até 10% em relação ao ano passado”, afirmou.

O tombo no primeiro semestre de 2026 foi até mais intenso, segundo ele, com queda de 25%.

Mas um certo alívio foi sentido em função do programa Move Brasil, do governo federal, com recursos do BNDES para incentivar a venda de veículos como ônibus e caminhões.

No chamado “Move 2”, disponibilizado em maio deste ano, a ideia era contemplar não só transportadoras, mas também caminhoneiros autônomos.

Dos R$ 21 bilhões, quase 75% foram tomados já no primeiro mês. Atualmente, o setor indica que os recursos já estão praticamente esgotados, mas alega que a informalidade do segmento de autônomos e a exigência de comprovação de renda, acabou dificultando o fechamento de negócios para este grupo.

Ainda assim, segundo o diretor da Volvo, houve uma melhora nas vendas de caminhões pesados em função do programa.

“O segmento de pesados como carreta, bitrem, rodotrem, é o mais utilizado no agro. Esse segmento caiu no ano passado em relação ao de semipesado. A proporção normalmente era pesados com 55%, 60% do mercado e semipesado 40% ou 45%”.

Cavalcanti diz que no ano passado houve uma inversão, com o semipesado passando a representar a maior parte das vendas.

“Agora a gente está vendo já uma tendência de retomada do pesado, muito provavelmente em função do Move 2, onde os transportadores precisam renovar seus caminhões pesados, então eles estão vindo e isso está acelerando e retomando o mix de pesados maior em relação ao semipesado”, disse.

Com a ajuda do programa, a queda mais expressiva do começo do ano deve ficar mais amena, por isso a projeção é de um recuo entre 5% e 10% no ano, mesmo patamar visto em 2025.

“A gente entende que o setor (agro) está endividado, hoje tem uma pressão muito forte de custos e ao mesmo tempo também de preços de frete para o transportador. E os preços das commodities também não estão com projeção positiva. De certa forma o transportador que está utilizando o caminhão vai pensar duas vezes antes de se renovar”, avalia.

O diretor da Volvo conta que em novembro, durante a Fenatran, a expectativa também é de aumento no volume de negócios em função de uma tradicional postura dos clientes de esperar pelo evento para aproveitar promoções e facilidades oferecidas pelas montadoras.

"Para esse segundo semestre, aqui a gente está vendo que esses recursos do Move 2, eles vão ser utilizados para faturamento de caminhões até agosto, setembro , tem dinheiro suficiente para sustentar o mercado em um patamar estável até setembro. E eu acho que a Fenatran vai movimentar o mercado, mas não para o ponto de crescer".

Um nicho que poderá crescer nos próximos anos é o caminhão movido a biodiesel. No fim de junho, a Volvo entregou mais um lote de caminhões B100 flex para a Potencial, agroindústria do Paraná que fabrica o biocombustível.

A Volvo alega que tem vantagem em relação aos concorrentes porque o caminhão pode funcionar tanto com o diesel comum das bombas (que atualmente leva 15% de biodiesel na mistura) quanto com o biodiesel puro, 100%, configurando essa flexibilidade como um diferencial.

Conforme mostrou o AgFeed, a previsão é aumentar em 40% as vendas de caminhões B100 na Volvo este ano, com planos de ultrapassar 1 mil unidades por ano, futuramente.

Na visão do executivo, há vantagens em relação ao caminhão movido a biometano, por exemplo, que além de ser mais caro depois fica restrito na hora de ser vendido para um segundo ou terceiro dono.

O desenvolvimento de novas tecnologias e produtos está dentro de um pacote de R$ 2,5 bilhões em investimentos anunciados pela Volvo para o período entre 2026 e 2029.

“São novos produtos, novas tecnologias mais sustentáveis, produtividade na fábrica, rede de concessionários, tudo isso está contemplado nesse pacote”, citou.

Resumo

  • A Volvo Caminhões avalia que o momento desafiador do agronegócio deve contribuir para mais um ano de queda no mercado, entre 5% e 10%
  • No primeiro trimestre, as vendas de caminhões acima de 16 toneladas tiveram recuo de 25%, mas o crédito do programa Move Brasil deve amenizar as perdas
  • Para o futuro, a Volvo aposta em maior demanda por caminhões B100 flex que podem funcionar tanto com diesel comum quanto com biodiesel puro

Volvo FH Rodotrem, um dos modelos vendidos ao agronegócio