Bebedouro (SP) - "Eu acho que não podia ter um momento mais importante para surgir uma empresa como a Tello". A frase de Carlos Pellicer, presidente do conselho de administração da fabricante de biofertilizantes, resume o argumento - e o momento - que a companhia está transformando em negócio.
Enquanto a volatilidade do mercado internacional volta a expor a dependência brasileira dos fertilizantes importados, a empresa criada em 2024 por Coopercitrus, Amaggi, Agropastoril Campanelli, além da Viola Participações, de Pellicer e da Souza e Lucas Participações, da mesma família que controla a empresa de fertilizantes AgroCP, entra em uma nova fase de operação.
Depois de iniciar a produção da linha farelada em setembro do ano passado, a companhia colocará em funcionamento, em setembro deste ano, a linha de fertilizantes granulados de sua unidade localizada próxima as cidades paulistas de Altair e Guaraci, etapa que conclui a primeira fase do projeto de R$ 180 milhões. A inauguração oficial da fábrica está prevista para novembro.
Com isso, a Tello deixa de ser apenas uma promessa de gigantes anunciada em 2024 para começar a provar, no campo, a tecnologia que seus acionistas apostam poder reduzir a dependência brasileira de fertilizantes minerais, aumentar a eficiência do uso de nutrientes e abrir espaço para uma expansão nacional.
A unidade paulista abastece, neste primeiro momento, produtores ligados à Coopercitrus em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, mercados localizados em um raio de cerca de 700 quilômetros da fábrica.
Com a entrada da linha de granulados, no entanto, a expectativa é ampliar esse alcance e iniciar as primeiras vendas para o Mato Grosso já no próximo ano. Além disso, já projeta, no futuro, atuar no norte do Paraná e em parte do Mato Grosso do Sul.
O modelo de crescimento da empresa também acompanha a origem da principal matéria-prima. Instalada ao lado do confinamento da Agropastoril Campanelli e da Tecnobeef, empresa de nutrição animal do grupo Victor Campanelli, a planta utiliza resíduos orgânicos que, combinados aos fertilizantes minerais, dão origem aos chamados "fertilizantes biointeligentes".
A lógica será replicada na segunda fábrica, prevista para Diamantino (MT), também ao lado de um confinamento da Amaggi, que assumirá a distribuição exclusiva dos produtos na região. Por lá, a produção será exclusiva para os produtos granulados.
O investimento na nova unidade deve repetir os cerca de R$ 180 milhões aplicados na primeira fábrica. A construção está prevista para começar em 2027, com operação estimada para a safra 2028/2029. Quando ambas estiverem operando em capacidade plena, cada planta poderá produzir até 300 mil toneladas por ano.
"A gente está fazendo o negócio com muita calma, com muito cuidado. A gente promete aquilo que consegue cumprir", afirmou Pellicer.
"As cinco empresas estão focadas na execução e o mais importante para nós é o agricultor, que é quem vai usar o produto. E todos nós somos agricultores: Amaggi é agricultor, eu sou agricultor, produzo café, eucalipto, soja, milho, o Campanelli é um grande produtor de cana, soja e milho, além de um grande confinador", citou.
Ao mencionar e reverenciar os outros dois sócios, relembrou que a AgroCP é a desenvolvedora da tecnologia e a Coopercitrus, nas palavras do sócio, "é a Coopercitrus", destacando a base de cooperados de 42 mil associados, a maior do País nesse quesito.
Segundo ele, a prioridade agora é consolidar a operação paulista antes de acelerar a expansão nacional. "Nós queremos terminar a fábrica aqui para começar a fábrica lá. Antes que a gente consiga estruturar tudo aqui, nós não vamos para o Mato Grosso", disse.
Quando atingir a capacidade máxima, cada uma das duas fábricas da Tello poderá gerar cerca de R$ 900 milhões em receita anual, segundo estimativas da companhia. A projeção de Pellicer considera a produção de 300 mil toneladas por unidade e um preço médio entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil por tonelada dos fertilizantes.
Passado novembro deste ano, o foco em Mato Grosso será "gerar demanda", segundo Pellicer. "Vamos provar e demonstrar o produto nas fazendas com ajuda da Amaggi e consultorias do estado e influenciadores de opinião", contou.
A aposta nos "fertilizantes biointeligentes"
De um lado, o plano de expansão explica onde a Tello quer chegar. Do outro, a tecnologia embarcada ajuda a entender por que seus acionistas acreditam que a empresa pode ocupar esse espaço.
A tese parte de um problema conhecido do agronegócio brasileiro: a dependência de fertilizantes importados, em especial o NPK, e da baixa eficiência com que parte desses nutrientes é aproveitada pelas plantas.
"Quando acontecem eventos, quer sejam climáticos ou geopolíticos, como estamos vivendo agora, a gente vê preços do NPK subindo tanto". É em cima desse diagnóstico que a Tello começa a crescer.
A empresa não substitui os fertilizantes minerais, mas os combina com matéria orgânica - proveniente, principalmente, dos resíduos dos confinamentos de seus próprios acionistas. Esse revestimento forma uma espécie de cápsula ao redor dos nutrientes, alterando a forma como eles interagem com o solo.
No caso do fósforo, por exemplo, Pellicer explica que o nutriente costuma ficar retido nas partículas de argila pouco tempo depois da aplicação, reduzindo sua disponibilidade para as plantas.
"Quando você pega esse fósforo e encapsula ele, você mistura ele com a matéria orgânica, que é o que nós fazemos, esse fósforo fica na mesma carga da argila, então a argila não absorve ele e ele fica ali na matéria orgânica disponível. Quando a raiz da planta encontra aquela matéria orgânica, dentro dela está o fósforo disponível para a planta", afirmou.
Segundo a empresa, esse processo permite aumentar em até 50% a eficiência do uso do fósforo. Para potássio e nitrogênio, cujas principais perdas ocorrem por lixiviação e volatilização, respectivamente, a redução de uso é estimada é de cerca de 30%.
"Quando você faz tudo isso somado, otimizando os nutrientes, nós diminuímos muito a dependência da importação".
Na avaliação de Pellicer, os benefícios vão além da redução do consumo de fertilizantes minerais. Como parte do NPK deixa de ser necessária, também diminuem a mineração de matérias-primas, a produção industrial desses insumos e o transporte internacional, fatores que contribuem para reduzir as emissões de carbono associadas à agricultura.
Outro argumento da empresa está na biologia do solo. Ao contrário dos fertilizantes minerais convencionais, a Tello sustenta que o revestimento orgânico favorece a atividade de bactérias e fungos responsáveis pela ciclagem de nutrientes.
"O nosso produto é amigo das bactérias e dos fungos. Quando você usa o Tello, você multiplica as bactérias e os fungos, que são fundamentais para a biota do solo", diz.
Segundo a companhia, esse conjunto de efeitos acaba aparecendo também na produtividade das lavouras. Em áreas acompanhadas pela empresa, os ganhos médios chegam a 12 toneladas por hectare na cana-de-açúcar, 3,2 caixas por hectare na laranja, 2,5 sacas por hectare no café e cinco sacas por hectare na soja.
Resumo
- Criada por Coopercitrus, Amaggi, Tecnobeef, AgroCP, Viola e Souza e Lucas, Tello entra em nova fase operacional
- Empresa mira Mato Grosso e calcula que cada unidade poderá alcançar faturamento anual de até R$ 900 milhões
- Fertilizante biointeligente busca otimizar uso de fósforo, potássio e nitrogênio e melhorar a saúde do solo