Já há algum tempo consumidores de todo o mundo têm preferido outras bebidas ao tradicional suco de laranja. E a desaceleração da demanda global atingiu em cheio as exportações brasileiras na safra 2025/2026 da citricultura, que acaba de se encerrar.
Embora o volume embarcado tenha permanecido praticamente estável ao longo do ciclo, a queda no consumo contribuiu para uma retração de cerca de 30% na receita obtida pelo setor.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), compilados pela CitrusBR, associação que representa as indústrias exportadoras do setor, as exportações brasileiras somaram 746,9 mil toneladas de FCOJ (siga em inglês para suco de laranja concentrado e congelado) equivalente na safra 2025/2026, alta de apenas 0,2% em relação às 745,7 mil toneladas registradas no ciclo anterior.
A receita, por sua vez, retraiu para US$ 2,38 bilhões, ante US$ 3,42 bilhões na safra 2024/25, queda de 30,5% no período
Para o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, o desempenho reflete uma combinação de fatores que afetou o consumo mundial.
“O resultado é reflexo dos altos preços das safras anteriores, que fizeram com que o consumidor procurasse opções mais baratas, além de problemas na qualidade do produto decorrentes dos efeitos do clima e do greening na temporada passada”, disse Netto, em nota.
No recorte por regiões do mundo, o desempenho das exportações foi heterogêneo. Enquanto a Europa reduziu suas compras significativamente ao longo da safra, Estados Unidos e China importaram mais suco de laranja do Brasil ao longo do ciclo.
Os embarques para o continente europeu, principal mercado do suco brasileiro, recuaram 10,9% ao longo da safra 2025/27, passando de 376,5 mil para 335,2 mil toneladas de FCOJ equivalente.
Em receita, a retração foi ainda mais intensa: o faturamento foi de US$ 1,11 bilhão, queda de cerca de 38% na comparação com US$ 1,78 bilhão registrados na safra anterior.
Com isso, a participação europeia nas exportações brasileiras recuou de aproximadamente 50% para cerca de 45% do volume total.
Já as exportações para o mercado norte-americano cresceram 16,3% em volume, passando de 305,8 mil para 355,8 mil toneladas de FCOJ equivalente.
Assim, o país passou a responder por quase 48% de todo o volume exportado pelo Brasil, ante cerca de 40% na safra anterior.
Apesar do avanço nos embarques, a receita também foi afetada pela queda das cotações internacionais, tendo recuado 20,6% no período, para US$ 1,08 bilhão, contra US$ 1,36 bilhão no ciclo 2024/25.
Entre os mercados asiáticos, a China apresentou expansão nas importações. O volume embarcado para o país avançou 26%, de 20,1 mil para 25,5 mil toneladas de FCOJ equivalente.
A receita, porém, teve crescimento modesto, de apenas 1%, passando de US$ 69,6 milhões para US$ 70,3 milhões.
Já o Japão, outro grande comprador de suco de laranja na Ásia, apresentou desempenho bastante enfraquecido.
As exportações caíram 28,6% em volume, para 14,3 mil toneladas, enquanto a receita despencou 45,9%, totalizando US$ 58,9 milhões.
Apesar da forte queda em relação ao recorde da safra 2024/25, o faturamento de US$ 2,38 bilhões permanece acima da média histórica da última década.
Já o volume exportado continua em um dos menores níveis da série iniciada em 2014/15, praticamente repetindo o desempenho da safra anterior e bem distante do pico de 1,15 milhão de toneladas registrado em 2017/18.
Demanda deve continuar em baixa
A demanda global por suco de laranja deve continuar em baixa à frente, na avaliação do Rabobank e do Itaú BBA, especialmente em função de preços ainda altos no varejo.
Em relatório recente, o Rabobank ressaltou que, apesar de os preços do suco terem recuado cerca de 60% desde o pico registrado em 2024 tanto no mercado físico quanto no futuro, os valores do varejo seguem elevados, limitando a recuperação do consumo.
O banco estimou que o preço médio pago pelo consumidor norte-americano subiu de US$ 2,50 por litro em 2023/24 para cerca de US$ 3,10 por litro em 2025/26, mesmo diante da forte queda das cotações nos mercados futuros no período.
O descompasso, segundo o Rabobank, é explicado, em parte, pelos estoques adquiridos comprados a preços altos e, mais recentemente, pela estratégia de varejistas e engarrafadores de preservar margens por litro, em vez de estimular o aumento do volume vendido, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Assim, com preços altos e a perspectiva de queda de demanda, um novo acúmulo de estoque no fim da safra 2026/2027 é provável, avaliou o banco.
“Como resultado, os preços globais de FCOJ tendem a permanecer pressionados e terão dificuldade para se recuperar de forma consistente, a menos que haja uma queda inesperada na produção ou uma retomada da demanda”, concluiu o banco.
Nas contas do Itaú BBA, a lata de suco concentrado de 473 ml já acumula alta de cerca de 12%, para US$ 4,97, recorde de toda a série histórica, o que evidencia que a queda das cotações na bolsa de Nova York ainda não chegou ao consumidor final.
“O descolamento entre varejo e bolsa indica que indústria e varejo ainda preservam margens, o que tende a limitar um alívio de preços no curto prazo e a manter a demanda mais fraca”, disse o banco no relatório Visão Agro, divulgado na semana passada.
Dados do Economic Research Service (USDA) e da Nielsen compilados pelo banco também indicam que o consumo de suco de laranja no varejo norte-americano segue em retração.
Nas 52 semanas encerradas no início do mês passado, o volume havia retraído 9,1%, para 275,8 milhões de galões de suco. Ainda assim, a receita cresceu 1,9%, sustentada pelo avanço do preço médio, que atingiu USD 11,81 o galão.
A leitura por segmento revela comportamentos distintos, diz o Itaú. De um lado, o NFC (suco não concentrado) mostra maior resiliência, com queda de 6,3% no volume e alta de 6,4% na receita, ganhando participação relativa.
Já o suco reconstituído, associado ao FCOJ, concentra o ajuste mais intenso, com recuo de 12,4% no volume e queda de 6,9% na receita, sinal de uma demanda que segue sensível ao preço.
Para 2026/27, o Itaú BBA projeta que o consumo continue pressionado em função dos preços elevados no varejo, já que os estoques de suco estão mais confortáveis e a demanda permanece enfraquecida, reduzindo o potencial de valorização.
Nesse contexto, a indústria, na avaliação do banco de investimentos, tende a priorizar qualidade para recuperar consumo em tempos de preços mais altos.
"A indústria tem buscado elevar a qualidade do suco comercializado, de modo a entregar um produto melhor ao consumidor final e ampliar o mix de NFC, o que exige frutas com ratio elevado e qualidade superior", afirma o banco.
Segundo o Itaú BBA, porém, o atraso na maturação das frutas tem limitado essa estratégia no início da safra.
“Com isso, o FCOJ segue mais pressionado por estoques elevados, queda de preços e espaço adicional de ajuste, enquanto o NFC mostra maior sustentação, apoiado em demanda relativamente mais firme, menor disponibilidade de produto e oferta restrita de matéria-prima adequada”, diz,.
Ainda assim, o Itaú BBA avalia que o cenário abre algum espaço de recuperação para a indústria ao longo da safra 2026/27.
“Um verão europeu mais quente e o eventual repasse da queda da matéria-prima aos preços internacionais podem melhorar o ambiente para o FCOJ, enquanto o NFC tende a seguir como principal vetor nos Estados Unidos, com menor retração de demanda e preços ainda elevados.”
Há também, no horizonte, a perspectiva de menor produção de laranja na safra 2026/27, que já aparece nas estimativas do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus).
Em levantamento divulgado em 8 de maio, a entidade projetou, para o ciclo 2026/2027, uma safra de 255,2 milhões de caixas de 40,8 quilos no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro, volume 12,9% inferior às 292,9 milhões de caixas da temporada anterior e 14,7% abaixo da média dos últimos dez anos.
A expectativa de uma safra menor se deve principalmente ao menor número de frutos por árvore e ao aumento da queda prematura, fatores que superam os efeitos positivos do maior peso dos frutos e do aumento de árvores produtivas.
O desenvolvimento da temporada também foi afetado pela irregularidade das chuvas, pelas altas temperaturas e pela disponibilidade de irrigação, enquanto a estiagem de maio de 2025 provocou estresse hídrico nas plantas.
A projeção, contudo, ainda não considera impactos negativos do El Niño, que devem ser sentidos com mais força apenas na safra 2027/2028, avaliam Rabobank e Itaú BBA.
“A chegada de um super El Niño no segundo semestre de 2026 poderia trazer impactos negativos sobre o período de florada inicial e formação da fruta para a safra 2027/28”, projeta o Rabobank.
O Itaú BBA lembra que a laranja tem pegamento floral naturalmente baixo, o que torna a florada entre setembro e novembro fica bastante sensível às alterações climáticas.
“Em anos de El Niño, a combinação de temperaturas elevadas e chuvas mal distribuídas no cinturão citrícola tende a aumentar o abortamento de flores e a queda de frutos jovens, além de limitar o ganho de peso no desenvolvimento posterior, diz o banco.
Nesse cenário, a oferta menor pressionaria estoques e preços, mas a melhora de preços não necessariamente se converteria em margem caso a queda de produção seja relevante, conclui o Itaú BBA.
Resumo
- Receita de exportações de suco de laranja recua 30% na safra 2025/26, afirma CitrusBR
- Queda está associada à demanda menor por bebida ao redor do mundo
- Tendência é de que consumo continue em baixa ao longo da próxima temporada