Um ano após ser apresentada formalmente ao mercado, a Supra Sementes começa a apresentar os primeiros resultados concretos da estratégia da GDM para transformar o milho em seu segundo grande negócio no País, depois da soja.

Com participação estimada em cerca de 8% do mercado nacional de sementes de milho, a empresa estabeleceu a meta de figurar entre as três principais marcas do segmento no Brasil nos próximos anos.

Para isso, aposta em novos híbridos, ampliação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e expansão em regiões onde ainda possui baixa participação, especialmente nas áreas de milho verão do País.

A presença nesse top 3, de acordo com Marcello Salles, líder de milho da Supra, depende da empresa atingir cerca de 13% do share, algo que ele cita querer que ocorra “o quanto antes”, mas projeta que deve ser alcançado em até quatro ciclos.

A intenção da GDM - gigante das sementes de soja - de ser também grande no milho já vem de alguns anos, mas ganhou mais tração após o anúncio da compra das operações da alemã KWS no Brasil em 2024. Poucos meses depois, em fevereiro do ano passado, a multinacional argentina apresentou a Supra como sua nova marca de sementes para Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Segundo Salles, o primeiro ciclo completo sob a nova identidade superou as expectativas, apesar dos desafios naturais de substituir uma marca já consolidada entre os produtores.

"Quando você troca uma marca que já está estabelecida no mercado sempre existe um desafio de assimilação. Mas não mudamos equipe, não mudamos a estrutura comercial e tivemos um ano de muitos avanços", disse Salles.

O avanço ocorreu em um momento de recuperação parcial do mercado de milho verão. Após os impactos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, a retomada da área plantada ajudou a impulsionar o setor na safra 2025/2026.

Dados da Conab divulgados nesta quinta-feira, 11 de junho, mostram esse avanço do cultivo do cereal na primeira safra. O órgão estatal informou que a área de milho de primeira safra cresceu de 3,7 milhões de hectares na safra 2024/2025 para 4,1 milhões de hectares na safra 2025/2026.

No milho segunda safra, a perspectiva é de uma alta mais singela em termos percentuais: de 17,4 milhões hectares na safra 2024/2025 para 17,7 milhões de hectares na temporada 2025/2026.

Foi justamente nesse ambiente que a Supra realizou dois de seus principais lançamentos para o mercado subtropical. Segundo a empresa, os materiais foram desenvolvidos especificamente para atender produtores do Sul que buscam ciclos mais curtos, permitindo colher o milho mais cedo e abrir espaço para a soja na sequência.

"O produtor do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina procura materiais superprecoces, mas que mantenham alto teto produtivo. Esses produtos entregaram produtividades entre 14 e 15 toneladas por hectare e nos permitiram entrar de vez nesse mercado", afirmou Salles.

No Sul, a empresa estima que cresceu 35% nas vendas de sementes para o cultivo de milho verão. A estratégia faz parte de um movimento mais amplo de expansão geográfica.

Historicamente mais forte em regiões de safrinha, especialmente Mato Grosso e Matopiba, a empresa busca agora ganhar relevância também nos mercados de verão, onde sua participação ainda era limitada.

Enquanto o Sul recebeu os novos híbridos para ambientes subtropicais, o Cerrado concentrou lançamentos voltados à segunda safra. Segundo o executivo, as primeiras colheitas da safrinha reportadas à Supra mostram resultados positivos em estados como Mato Grosso e Goiás, combinando potencial produtivo com características importantes para a safrinha, como tolerância ao estresse hídrico e maior estabilidade diante de doenças.

"Cada macroambiente exige características diferentes. No Cerrado você precisa de materiais com estabilidade, tolerância à seca e resistência às principais doenças. Já no Sul a discussão passa muito mais por ciclo e teto produtivo", explicou.

Apesar dos avanços comerciais, a próxima temporada deverá trazer desafios maiores para produtores e empresas do setor.

Na avaliação da Supra, a safra 2026/2027 é uma das mais difíceis dos últimos anos para fazer projeções. Além da possibilidade de retorno do fenômeno El Niño durante o ciclo da soja, o mercado acompanha com preocupação o encarecimento dos fertilizantes, especialmente nitrogenados e potássicos, componentes fundamentais para a produção de milho.

"Talvez esse seja hoje um dos fatores que mais estejam pesando na tomada de decisão do produtor", afirmou Salles. "Os preços recuaram um pouco recentemente, mas continuam elevados e isso pode impactar diretamente o nível de tecnologia que será utilizado na próxima safra."

No clima, as projeções mais recentes indicam a possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, fenômeno que historicamente altera o regime de chuvas no Brasil e pode afetar principalmente o calendário da soja - fator que acaba influenciando diretamente a janela de plantio do milho safrinha. Isso porque o milho segunda safra depende fortemente da velocidade de semeadura e colheita da soja.

Qualquer atraso reduz a janela considerada ideal para a implantação da cultura. "Hoje é muito difícil projetar a área de milho safrinha sem saber como será o comportamento da soja", disse Salles.

Nesse contexto, o sorgo, cultura que também desenvolve híbridos, aparece cada vez mais como uma alternativa para áreas que eventualmente fiquem fora da janela ideal do milho.

A avaliação é compartilhada por diferentes agentes do setor. Empresas produtoras como a SLC Agrícola e distribuidoras de insumos como a 3tentos já admitem a possibilidade de expansão da cultura em regiões onde o atraso da soja comprometa o calendário tradicional da safrinha.

Ainda assim, Salles acredita que milho e sorgo tendem a crescer juntos nos próximos anos, impulsionados pela expansão das usinas de etanol de grãos. "Não vemos uma competição direta. As novas usinas de etanol têm capacidade para processar os dois produtos e as janelas de oferta são diferentes.

Existe espaço para crescimento das duas culturas” Se os riscos climáticos e de custos exigem cautela para a próxima temporada, os fundamentos de demanda continuam relativamente favoráveis para o milho. Segundo o executivo, justamente a expansão da indústria de etanol ajudou a reduzir parte da volatilidade histórica observada em regiões produtoras do Centro-Oeste, criando uma demanda permanente pelo cereal.

"O caro para uma usina não é pagar um pouco mais pelo milho. O caro é ficar sem matéria-prima", afirmou. A percepção da empresa é de que os estoques globais deverão permanecer relativamente ajustados, o que também contribui para sustentar os preços em níveis considerados atrativos para o produtor.

Mesmo com margens mais apertadas do que aquelas observadas no período pós-pandemia, a rentabilidade do milho safrinha segue competitiva em comparação à soja em diversas regiões do País.

Para crescer nesse ambiente, a Supra ampliou significativamente seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento após a integração à GDM, afirmou o líder de milho. Segundo Salles, os aportes em P&D passaram de cerca de 5% para 12% da receita da operação, refletindo a filosofia da controladora argentina, conhecida globalmente pelos investimentos em genética vegetal.

Além do aumento proporcional dos recursos, a companhia também ampliou sua estrutura de pesquisa em Petrolina (PE), uma das principais bases para desenvolvimento de novos híbridos.

"A GDM tem a pesquisa no DNA. Já começamos a ver os resultados desses investimentos chegando ao mercado por meio dos lançamentos realizados nos últimos anos", afirmou. A aposta é que justamente essa nova geração de materiais seja responsável por acelerar o ganho de participação de mercado da empresa nos próximos ciclos.

Quando anunciou a criação da marca Supra, a GDM projetou ampliar para R$ 1 bilhão os investimentos em pesquisa nos próximos cinco anos, ante R$ 600 milhões no período equivalente anterior. O milho está no foco.

Resumo

  • Com cerca de 8% do mercado, Supra mira o top 3 de sementes de milho no Brasil e quer alcançar 13% de participação em até quatro ciclos
  • Marca da GDM cresceu 35% no milho verão do Sul após lançamentos de híbridos superprecoces voltados ao mercado subtropical
  • Empresa ampliou investimentos em P&D de 5% para 12% da receita e aposta em novos materiais para acelerar ganhos de mercado