O gaúcho Kassio Seefeld começou a carreira trabalhando como funcionário, em empresas que prestavam serviço para transportadoras, com maior ênfase na gestão de frota de veículos leves.
Lá ele conheceu Ivo Ilario Riedi Filho, sócio-diretor da Transvale, uma empresa de Cascavel (PR), especializada no transporte de grãos.
Percebendo a maior complexidade em fazer gestão de frota de caminhões, principalmente no agronegócio, com maiores volumes e rotas mais extensas, Seefeld propôs à Ivo a criação de uma empresa “do zero” para tentar atender a demanda da transportadora.
Em 2028, foi criada a TruckPag, com três sócios fundadores. Além de Kassio Seefeld, entraram também no negócio o próprio Ivo, da Transvale, e Marcos Carraro, um empresário que até então atuava no setor de seguros.
“Em 2019 fizemos nossa primeira transação. Começamos muito concentrados no agro, até em função da transportadora do meu sócio, por isso fui buscando clientes em outros setores, como a indústria, para reduzir o risco dos ciclos do agro”, contou o fundador e CEO da TruckPag, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
O principal negócio da empresa é a gestão e o pagamento de abastecimento dos caminhões, tendo como clientes as transportadoras. Porém, elas não pagam nenhum valor à TruckPag.
A monetização ocorre em função do uso do “cartão de crédito” de abastecimento, que cobra uma taxa dos postos.
A TruckPag conecta as transportadoras a uma rede de 4,6 mil postos de combustíveis, espalhados em todas as regiões do Brasil, principalmente nas rodovias. Desta forma, o contratante consegue controlar onde cada caminhão pode abastecer, definer limites de litros, preços e rotas, e a empresa fica mais segura em relação às transações.
O sistema acaba também gerando dados para gestão de custos de combustível. O abastecimento responde por 89% da receita da empresa, segundo o CEO.
A companhia foi crescendo ano a ano. Em 2025 movimentou R$ 2,2 bilhões, o que representou um aumento de 60% em relação ao ano anterior.
Embora nos últimos anos tenha havido maior presença de outros setores, o plano agora é ter, novamente, mais clientes do agronegócio.
Seefeld revelou ao AgFeed que acabou de fechar contrato, por exemplo, com a transportadora Vidal, que é gaúcha, mas tem operação importante em Mato Grosso, com foco no agro.
“Vamos movimentar esse ano mais de R$ 3 bilhões, um crescimento de mais de 40%. Essa é a nossa meta em 2026, só em abastecimento”, afirmou.
O crescimento, ele acredita, será baseado principalmente na chegada de novos clientes, inclusive do agro, que trazem mais volumes. Atualmente, a receita gerada por transportadoras do agro representa 7% do total, mas deve crescer, ele avalia, principalmente quando a produção aumenta e as empresas ampliam a frota.
A margem do negócio é de cerca de 2% sobre os valores transacionados, mas o empresário explica que toda a movimentação passa pelo fluxo de caixa da empresa, por isso, acaba havendo ganhos também em função das operações financeiras.
Nos últimos anos, a TruckPag foi ganhando concorrentes de peso, ligados a bancos, multinacionais e empresas especializadas em cartões e sistemas de pagamento.
O executivo avalia, no entanto, que sua empresa segue tendo bons diferenciais para se manter competitivo em relação a eles.
“São vários pontos, é o único que tem caminhão no nome, é a essência do transportador, temos um atendimento 100% humanizado. Parece pouco, mas é muito para o motorista e para o gestor da frota. E não tenho plataforma externa, temos os desenvolvedores próprios, consigo moldar como transportador quer”, ressaltou.
Seefeld admite que já foi procurado no passado por investidores interessados em comprar a empresa, mas isso nunca foi um plano de nenhum dos sócios. Não houve nem mesmo captação de recursos para a empresa, por decisão deles.
“Os clientes entenderam que o produto era bom. Então a gente conseguiu muitos clientes no início e isso nos deu muito caixa, não tendo a necessidade de captação”, pontuou.
Desde o início, foi estabelecido um sistema de governança, com conselho, principalmente com o objetivo de separar totalmente a operação dos outros negócios dos sócios. Por contrato, o sócio que é transportador não acessa dados da TruckPag que podem conter informações de concorrentes.
Agora, com a empresa maior e mais madura, ele admite que tem cogitado “olhar mais para isso”, quando perguntado sobre possíveis investidores.
"A gente está cada vez mais olhando para o mercado, porque podem ter oportunidades que a gente não está vendo. Como a gente ficou muito grande, no top 1, tem linhas de receita, talvez, que a gente consiga ter, produtos que a gente possa criar, agregar novos, que talvez alguém com um olhar de fora, seja com expertise ou seja com dinheiro, pode trazer pra gente", analisou ele.
"Mas a gente não pensa em perder a empresa. A gente pensa em perpetuar ela."
“Monitor de preço” do óleo diesel
A diversificação de serviços, além do abastecimento, já vem ocorrendo, inclusive com soluções financeiras.
“Hoje é um ecossistema. Hoje nós temos pedágio, temos manutenção, seguro. Nós temos uma empresa de rastreador. A gente também é o meio de pagamento de uma montadora de caminhões aqui no Brasil, a DAF. Então foi expandindo”, explicou.
Ele diz que a empresa preferiu não ser tão agressiva em outros serviços para não perder o foco no abastecimento, como principal negócio.
Ainda assim, foi criada uma outra empresa, chamada Solid Cash, que é uma fintech, que faz antecipação de recebíveis para postos de combustível, há 3 anos.
Recentemente, a TruckPag também ganhou espaço na mídia, nas semanas seguintes ao início dos bombardeios no Irã. Como a empresa tem milhares de postos cadastrados, com preços atualizados em tempo real, ela funcionou como um monitor da disparada na cotação do óleo diesel vista nos dias seguintes à escalada da guerra.
“Quando saiu a guerra, a oscilação era muito alta e eles (os clientes) não estavam conseguindo mais ver quanto era o preço em cada estado e nem a referência de preço no Brasil. Fizemos uma comunidade no WhatsApp que deu super certo para atualizar de hora e hora o preço do combustível”, lembrou.
À medida que o preço do petróleo desceu dos patamares recordes, as atualizações passaram a ser a cada 3 horas, mas ainda estão sendo feitas. A cotação é considerada fidedigna porque não se baseia em tabelas e sim em transações confirmadas, aprovadas.
Nos grupos que recebem os preços estão mais de mil transportadores. Eles conseguiram observar que o preço do diesel que estava em R$ 5,78 antes da guerra, subiu para um pico de R$ 7,43 por litro semanas depois. Até mesmo tradings multinacionais do setor de grãos pediram para receber os informes.
Resumo
- A TruckPag projeta movimentar mais de R$ 3 bilhões em 2026, impulsionada pela expansão no agronegócio e novos contratos com transportadoras
- Especializada em gestão de abastecimento de caminhões, a empresa cresceu 60% em 2025, alcançando R$ 2,2 bilhões em transações
- Companhia ampliou seu ecossistema com pedágio, manutenção, seguros, rastreamento e serviços financeiros