No coração do Mato Grosso, uma fazenda que começou enfrentando solos pobres no fim dos anos 1980 agora se torna o ponto de partida de um dos projetos mais ambiciosos de carbono no agro brasileiro.
A Morena Agro é a primeira propriedade a entrar oficialmente no programa Revitalis, iniciativa liderada pela MyCarbon (subsidiária da Minerva) em parceria com a Brandt, de insumos. O projeto tem como objetivo transformar práticas regenerativas em créditos de carbono comercializáveis.
Ao todo, 4.396 hectares da fazenda - mais de um terço do total produtivo - passam a integrar o projeto, com monitoramento técnico individualizado e acompanhamento contínuo do estoque de carbono no solo.
O movimento marca a transição de um projeto que até então estava na fase de prospecção para a execução prática no campo.
A entrada da Morena ocorre após um período de estruturação do Revitalis, no qual mais de 35 mil hectares foram analisados em diferentes regiões do Cerrado.
Desse total, cerca de 25,8 mil hectares apresentaram potencial para geração de créditos de carbono, considerando critérios técnicos, qualidade do solo, regularidade fundiária e viabilidade operacional. Nesse universo, a área da Morena foi a primeira a avançar para a formalização do projeto.
A expectativa é que o programa comece a gerar créditos a partir de 2028, com uma primeira emissão estimada em cerca de 16 mil VCUs (Verified Carbon Units), consolidando a proposta de transformar o solo em um ativo financeiro, mesmo que ainda secundário, dentro da lógica produtiva.
A lógica, segundo a CEO da MyCarbon, Marta Giannichi, é que o carbono não substitui a produção, mas se soma a ela.
“O produtor não vai virar um produtor de crédito de carbono. Ele continua produzindo soja, milho ou boi. O projeto entra como uma camada adicional, conectada a práticas que já melhoram produtividade e saúde do solo”, afirmou ao AgFeed.
No caso específico do Revitalis, um dos projetos que a MyCarbon possui, a estratégia passa por engajar produtores por meio de uma combinação de assistência técnica e parceria comercial, muitas vezes com apoio de empresas já inseridas no campo.
A Brandt, por exemplo, entra com sua base de clientes e expertise em fisiologia vegetal, facilitando o acesso aos produtores e a implementação das práticas.
Foi nesse modelo que a Morena Agro chegou ao projeto. Segundo Giannichi, o contato ocorreu tanto por meio da Brandt quanto por iniciativa da própria fazenda, que já vinha acompanhando projetos semelhantes.
“O caso da Morena é emblemático porque há um alinhamento muito claro de visão. Eles já enxergavam sustentabilidade como parte do negócio, não como algo paralelo”, disse.
Para a fazenda, a decisão de aderir ao Revitalis está menos ligada ao retorno financeiro direto, pelo menos no curto prazo, e mais à evolução dos processos internos.
Fundada em 1989, a Morena Agro construiu sua operação em uma região que, à época, exigia forte investimento em correção de solo e adaptação tecnológica. Ao longo dos anos, a empresa diversificou suas atividades e hoje opera com produção de grãos, pecuária, silvicultura e beneficiamento de sementes.
Desde sempre carregou um status de vitrine de sustentabilidade no agro. "Começamos em 1989, e naquela época, como qualquer agricultor da região, nos deparamos com um solo improdutivo. Ao longo do tempo fomos em busca das práticas sustentáveis, ou regenerativas, para nos manter na atividade, para ser lucrativo e produtivo", contou Dulce Ciochetta, diretora do grupo.
Essas adaptações podem ser vistas nos modelos produtivos adotados na propriedade, localizada em Campo Novo dos Parecis.
Nesta safra, são 11,5 mil hectares dedicados à agricultura, com cultivo de soja, milho e sementes, além de sistemas integrados que combinam lavoura, pecuária e floresta. Na pecuária, a operação inclui recria e engorda de bovinos, com capacidade de confinamento de 2,7 mil animais e áreas específicas para integração com lavouras e florestas.
"São mil hectares de integração lavoura-pecuária, sendo 800 hectares de pecuária fixa e 200 de floresta e pecuária. Fomos para o ILPF em áreas arenosas, e hoje a propriedade ficou tão bonita por essa diversificação", disse a diretora.
Para além de ILP e ILPF, a propriedade cultiva plantas de cobertura, faz rotação de culturas e tem utilizado insumos biológicos na produção. A expectativa para a temporada atual, 2025/2026, é novamente de uma produtividade acima da média do estado.
Segundo a consultoria Agroconsult, a produtividade da soja em Mato Grosso na temporada atual é de 66 sacas por hectare. "Vemos no histórico um estado que se colhia 35 sacas por hectare há algumas décadas e nossa produtividade sempre foi acima da média estadual. Isso nos deixa muito felizes e não tem como não, é dinheiro no bolso e longevidade da empresa", continuou Ciochetta.
Ao longo das décadas, a lógica evoluiu para uma visão mais ampla de sustentabilidade, que incorpora não apenas aspectos ambientais, mas também sociais e de governança.
“Entendemos que sustentabilidade não é só cumprir o que a legislação exige. É olhar o entorno, as pessoas, o ecossistema. Se não cuidar, não tem futuro”, disse.
Essa abordagem já levou a empresa a participar de outros projetos ligados a carbono e agricultura sustentável, em parceria com companhias como o PRO Carbono, da Bayer, ser uma parceira da Produzindo Certo e também em iniciativas junto ao Rabobank e Cargill. Em comum, segundo Ciochetta, está o fato de que os ganhos vão além do financeiro.
“Sempre que entramos em iniciativas assim, melhoramos processos, indicadores e cultura. O retorno financeiro é importante, mas não é o único ganho", acrescentou.
A adesão ao Revitalis ocorre em um momento em que o produtor rural enfrenta um cenário mais desafiador. Após anos de expansão, o setor de grãos tem lidado com margens mais apertadas, pressionadas por custos elevados e preços mais voláteis.
Nesse contexto, a possibilidade de gerar uma receita adicional a partir do carbono surge como uma alternativa para diversificação, ainda que dependa de uma série de fatores, incluindo validação metodológica, certificação e demanda no mercado de créditos.
Do lado da MyCarbon, o desafio agora é transformar esse potencial em escala. Além de buscar converter as outras áreas já mapeadas no Revitalis junto à Brandt, a companhia também quer crescer seus outros projetos.
No programa BRA-3C, voltado à geração de créditos em larga escala (e que conta com a SLC Agrícola dentre os parceiros), o estágio é mais avançado e já soma mais de 20 mil hectares.
O projeto já passou por auditoria na Verra, principal certificadora global do mercado voluntário de carbono, e deve avançar para a fase de registro.
Outro projeto da MyCarbon é feito em conjunto com a Yara, de fertilizantes. Nesse caso, a ideia é recuperar áreas degradadas e reduzir a pegada de carbono de pastagens
A expectativa da companhia é, em dez anos, gerar mais de 2,5 milhões de créditos de carbono e expandir seus projetos para 650 mil hectares no Cerrado.
O Revitalis entra como uma das principais avenidas para essa expansão, especialmente por sua capacidade de integrar diferentes elos da cadeia, desde fornecedores de insumos até produtores e compradores de crédito, explica Giannichi.
Resumo
- Morena Agro é a primeira fazenda a fazer parte do Revitalis, programa da MyCarbon e Brandt para gerar créditos de carbono
- Propriedade quer utilizar práticas regenerativas anotadas em 4,3 mil hectares da propriedade para fazer captura
- MyCarbon mira 650 mil hectares e 2,5 milhões de créditos em 10 anos com projetos no agro brasileiro