Palmas (PR) – "Vai plantar batatas" é um xingamento antigo que, hoje, pouca gente usa, mas que revela um pouco do passado e do futuro da agricultura.
Não é possível cravar a origem exata da expressão. Uma das versões mais difundidas remete ao rei prussiano Frederico II, que, em meados do século XVIII, decretou o plantio de batatas entre seus súditos como forma de enfrentar a escassez de alimentos na Europa. O incentivo foi tão marcante que, ainda hoje, há quem deixe batatas próximas ao túmulo do monarca como uma forma de homenageá-lo.
Outra linha aponta para Portugal, onde o cultivo de batatas era associado, há séculos atrás, a uma atividade de menor prestígio, dado que a economia local sempre teve sua força nas navegações e na pesca.
O tom jocoso, no entanto, ficou no passado. Hoje, o cultivo de batatas se consolidou como uma atividade rentável e estratégica. Além da demanda pelo consumo in natura, o avanço das grandes indústrias de alimentos – que utilizam o tubérculo em uma ampla gama de produtos – tem impulsionado o crescimento e a profissionalização do setor.
Essas empresas são, em muitos casos, multinacionais que precisam cumprir compromissos globais de sustentabilidade e boas práticas ambientais desde a originação de suas matérias-primas até o produto final.
Esse é o caso da PepsiCo, que começou a colher, ao longo dos primeiros meses de 2026, as primeiras batatas de baixo carbono dentro de um programa de agricultura regenerativa desenvolvido em parceria com a multinacional de fertilizantes norueguesa Yara.
No programa, os produtores de batata têm acesso a uma linha de fertilizantes de baixa pegada de carbono da Yara chamada ClimateChoice, produzido com amônia renovável e biometano e que tem valores mais altos que adubos comuns.
Esse custo adicional é pago pela PepsiCo. A Yara, por sua vez, além de fornecer o produto, presta assistência técnica e de manejo aos agricultores.
As companhias já tem parceria semelhante em outras partes do mundo. Na Europa, a Yara se comprometeu a fornecer até 165 mil toneladas de fertilizantes de baixo carbono à PepsiCo até 2030. Na América Latina, a parceria foi implementada inicialmente no México, Colômbia, Chile e Argentina.
Lançado no Brasil no fim do ano passado, o projeto contou, em sua safra inicial, com a participação de seis agricultores que fornecem para a PepsiCo.
As áreas produtivas desses produtores somam 130 hectares, espalhadas por diferentes partes do Paraná – estado onde a multinacional possui uma fábrica de snacks, em Curitiba. A previsão é obter uma produção entre 3,5 mil e 4 mil toneladas de batata de baixo carbono nesta safra.
A batata, usada na produção de chips como Lay’s e Ruffles, foi escolhida pela PepsiCo porque a companhia já trabalha de forma muito próxima com os agricultores nessa cultura em comparação com outras, facilitando a inserção de novas técnicas.
"Temos agricultores que estão conosco há praticamente 30 anos. Estrategicamente falando, era a melhor cultura para começarmos com o projeto onde eu já forneço assistência técnica, eu já forneço reuniões periódicas e faço acompanhamento direto com produção", explica Ismael Cordeiro, gerente agro de sustentabilidade e transformação da PepsiCo no Brasil, em entrevista ao AgFeed.
Hoje a PepsiCo compra batatas de 23 produtores dos estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Goiás e, apesar de o projeto ter iniciado no Paraná, a companhia não descarta a hipótese de desenvolver a produção de baixo carbono em outras partes do país. "Todas as regiões onde atuamos são potenciais para implementarmos o projeto também", diz Cordeiro.
A medição exata da redução da pegada de carbono que a produção de batatas deixou ainda será feita, mas testes iniciais indicam que a redução potencial é de até 40%, segundo Cordeiro.
Com bons resultados, a PepsiCo não descarta levar o produto para outras culturas agrícolas com as quais compra produtos, como coco, milho, cacau e aveia.
Essas commodities servem de matéria-prima para produtos como o salgadinho Fandangos, a água de coco KeroCoco, o achocolatado Toddynho e a aveia Quaker, entre outros.
"Todas essas outras culturas são potenciais participantes desse projeto também e podem agregar o mesmo valor que a batata hoje agrega", diz Cordeiro, ressaltando também que ainda não há um prazo para isso acontecer.
Por ora, a Pepsico subsidia a compra de fertilizante da Yara para os produtores que participam do projeto, mas Cordeiro não descarta a possibilidade também do pagamento de um prêmio - valor adicional - aos agricultores.
"Existe a possibilidade do prêmio, são discussões constantes da nossa gestão sobre a melhor forma de fazer", avalia o executivo. "Mas, no nosso modelo de negócio, entendemos que iria funcionar melhor no curto prazo se a Pepsico financiasse a diferença do custo de produto."
Em outro programa lançado também no ano passado, voltado ao milho, a Pepsico apostou no incentivo direto aos produtores. Em parceria com a Griffith Foods e a Milhão Ingredients, a companhia passou a remunerar agricultores de milho do Cerrado brasileiro que fizerem a implementação de técnicas sustentáveis de cultivo e, com isso, alcançarem bons resultados ambientais.
Ambas as iniciativas integram uma estratégia maior da companhia, que se chama PepsiCo Positive (pep+), que tem como meta até 2030, impactar 10 milhões de acres – cerca de 4 milhões de hectares – por meio de ações de agricultura regenerativa, restauração e proteção ambiental.
“Faz parte do compromisso da companhia não só garantir uma agricultura de baixo impacto, mas também cuidar do ecossistema como um todo”, resume Cordeiro.
Depois da parceria com a Pepsico e de acordos com outras companhias que vêm sendo bem sucedidos, a Yara tem a ambição de levar os fertilizantes da linha ClimateChoice para outras culturas, conta Francielle Bertotto, gerente de sustentabilidade e cadeia do alimento da Yara Brasil.
A multinacional de fertilizantes já mantém parcerias nas cadeias de café e cacau. No segmento cafeeiro, atua ao lado da Cooxupé, a maior cooperativa de cafeicultores do país, que passou a disponibilizar fertilizantes de baixo carbono da Yara aos cooperados em 2024.
Também no café, a empresa firmou acordo com JDE Peet’s e Ofi, que, no fim do ano passado, iniciaram a inserção desses insumos em mais de 20 fazendas no sul da Bahia e no Espírito Santo, em um projeto previsto para ocorrer entre 2025 e 2027.
No cacau, a Yara assinou, igualmente em 2024, uma parceria com a fabricante de chocolates Barry Callebaut para fornecer adubos com pegada de carbono até 90% menor aos produtores nos estados da Bahia, Ceará, Espírito Santo e Rondônia.
Agora, há a possibilidade de expansão para outras culturas como citricultura, cevada, hortifruti e silvicultura, conta Bertotto. "Devemos lançar várias outras parcerias ao longo do ano", se limitou a dizer a executiva, sem dar mais detalhes.
Os resultados da parceria com a Pepsico têm animado a companhia. "Dentro do que já foi colhido, a gente já observa aumento de produtividade e de qualidade. Estamos muito satisfeitos”, avalia Bertotto.
A percepção também é compartilhada pelo produtor rural Sérgio Soczek, de 67 anos, e que representa a quarta geração de uma família de agricultores que vieram da Polônia para o Paraná e se especializaram na produção de batatas. “Sou um apaixonado por batata”, resume o agricultor, que está há cerca de 40 anos produzindo batatas.
Atualmente, Soczek arrenda áreas para o cultivo do tubérculo no Paraná, onde soma 700 hectares, e também em Minas Gerais, com outros 500 hectares na região do Triângulo Mineiro.
Os contratos com a PepsiCo para fornecimento de batata destinada à indústria abrangem entre 180 e 240 hectares. O produtor também atende outras empresas do setor, como a McCain.
Na semana passada, o AgFeed visitou uma das propriedades arrendadas por Soczek, situada em Palmas (PR), na divisa com Santa Catarina. Embora a colheita ainda não tivesse começado, o agricultor demonstrava otimismo em relação aos resultados da safra.
“É interessante porque, com esse tipo de cultivo, você consegue reduzir custos, aumentar a produtividade e obter um produto de melhor qualidade. Houve melhora na qualidade e também aumento do teor de matéria seca”, afirma.
*O repórter viajou a convite de PepsiCo e Yara
Resumo
- Parceria entre PepsiCo e Yara está colhendo batatas de baixo carbono no Brasil, com fertilizantes mais sustentáveis e potencial de reduzir em até 40% as emissões de CO2
- Projeto ainda é inicial, mas com expansão no radar e multinacionais já avaliam levar modelo para outras regiões e culturas
- Companhias já tem parceria semelhante em outras partes do mundo como Europa e países da América Latina