O Brasil ultrapassou os 10 milhões de hectares irrigados, com avanço significativo na adoção da tecnologia nos últimos anos, o que impulsionou a presença de empresas multinacionais do setor por aqui.

Além das tradicionais fabricantes de pivôs e outros tipos de irrigação, o mercado cresceu também para quem faz componentes importantes para essa indústria.

É o caso da israelense Bermad, que produz válvulas hidráulicas, com faturamento global acima de US$ 250 milhões

“Nós tivemos um crescimento bastante forte. A parte de pivô central, há quatro anos, teve um crescimento exponencial no Brasil. Depois, nos últimos dois anos, o gotejamento por causa da laranja e do café cresceu muito. Como a gente surfa todas essas diferentes tecnologias de irrigação, conseguimos crescer em todas elas. Então a gente literalmente mais do que dobrou o tamanho da empresa nesses últimos anos”, afirmou Bernhard Kiep, atual CEO da Bermad no Brasil, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

A empresa não divulga números detalhados, mas a estimativa é de que entre 10% e 12% venha dos clientes do Brasil. As válvulas não são vendidas apenas para a irrigação. Um mercado importante para a Bermad é também o saneamento, sendo a Sabesp um cliente relevante.

A história de Bernhard Kiep e da família dele é parte importante da evolução da irrigação no Brasil, por isso é considerado um dos principais especialistas no tema.

Após a segunda guerra mundial, o pai dele, Jürgen Kiep, veio da Alemanha para construir a vida no Brasil. Teria sido ele a primeira pessoa a importar um equipamento de irrigação por aspersão para testar em terras brasileiras, em 1953.

Em seguida, montou uma fábrica, a Asbrasil, que foi ganhando relevância no mercado, trazendo o primeiro pivô central na década de 1970.

“Eu, com 14 anos, já passei o verão montando o pivô central número 17 do Brasil, então desde pequeno me envolvi na área”, contou Bernhardt.

No final da década de 1990, a família vendeu uma parte da Asbrasil para a americana Valmont, que hoje é conhecida como Valley, uma das maiores do setor. Em 2018, venderam toda a participação que ainda tinham e Bernhardt chegou a ser executivo da multinacional.

A partir daí, ele ocupou funções em diversas empresas do setor de máquinas agrícolas, até que há 10 anos, ele aceitou o convite para cuidar dos negócios da Bermad na América Latina.

“A irrigação está no nosso sangue. A gente sempre gostou e hoje eu tenho um filho que trabalha em uma empresa de irrigação e eu estou tocando a Bermad, que é uma empresa com uma história muito bonita”, afirmou.

A companhia é conhecida pela produção de válvulas de controle inteligentes que tiveram papel fundamental para reduzir o risco em áreas de conflito.

“Quando o Estado de Israel começou a desbravar, especialmente a área norte e produzir lá, na época nos Golan Heights, já tinha os árabes atirando nos judeus e daí eles desenvolveram essas válvulas para poder automatizar o ligar e desligar da irrigação”, explicou Kiep.

Produção mantida em Israel em meio à guerra

“Experiente” com guerras, o conflito entre Israel, Irã e Estados Unidos não chega a impactar de forma significativa a produção da Bermad.

Segundo Kiep, são duas fábricas em Israel que, mesmo com o agravamento da guerra, até hoje não pararam de funcionar e seguem operando com 80% de sua capacidade. Em tempos de paz, as plantas estariam em pelo menos 90%, mas o percentual já é considerado muito bom, em função das dificuldades.

Uma parte dessa produção de válvulas israelense abastece o Brasil. Por aqui, a empresa tem uma sede em Leme (SP) e uma fábrica em Guarulhos (SP). Os contêineres previstos para o mês de março chegaram normalmente ao País, segundo Kiep.

“Isso mostra como a empresa é resiliente nesse sentido. Evidentemente, quando tem os alarmes, os colaboradores têm que descer, têm que ir para um bunker, nós temos um bunker de proteção. O pessoal do escritório fica em casa, mas na fábrica nós temos que ter as pessoas”, disse o executivo.

Ele diz ficar impressionado com a resiliência das pessoas, que parecem controlar a ansiedade e seguir com foco nas atividades, mantendo a saúde mental. “Aqui nos irritamos com o aumento do óleo diesel e nos preocupamos muitas vezes com coisas que são supérfluas, lá o pessoal está numa luta diária”.

Kiep conta que até as mulheres prestam dois anos de serviço militar, crescendo preocupadas com ameaças do Irã de “destruir Israel”, por isso, embora não concorde com a guerra, diz que acaba entendendo este sentimento da população.

Crescimento no longo prazo, com desafios em 2026

Os “donos” da Bermad são três kibutz de Israel – comunidades coletivas, de valores igualitários, tradicionais na região – o que na visão de Bernhard Kiep traz a vantagem de pensar no longo prazo e não somente em resultados de curto prazo. “Isso tem nos ajudado muito especialmente num mercado tão desafiador como o brasileiro”.

A maior parte dos clientes do agro são os fabricantes de equipamentos de irrigação. Uma parcela menor são os usuários, que muitas vezes renovam as válvulas para estender a vida útil dos pivôs, com economia de energia.

Em 2025, a empresa teve um crescimento de 10% na receita. Bernhardt Kiep faz parte da Câmara de Irrigação da Abimaq, diz que ainda há dificuldades em fechar estatísticas do setor, mas acredita que o mercado em geral tenha crescido no Brasil no ano passado.

“Foi um ano espetacular, a gente não esperava que fosse tão bom, o aumento ocorreu principalmente por causa dos grandes projetos de café e de laranja, que ainda têm uma carteira para esse ano razoável”, avaliou Kiep.

Já no caso dos pivôs centrais, com maior foco em grãos, “a queda foi forte”, segundo ele, tanto em 2025 quanto no ano anterior.

O destaque teria sido as empresas de gotejamento que, pela primeira vez, segundo ele, teriam vendido mais no Brasil do que nos Estados Unidos.

Para 2026, a previsão do especialista é de uma pequena queda nas vendas de irrigação, não somente no mercado em geral, mas na própria Bermad.

“Esse ano nós também estamos cientes que vai ser um ano mais difícil, que a gente vai ter que se adaptar e ajudar os nossos fabricantes, mas nós também sempre estamos muito envolvidos em atualizar equipamentos mais antigos”, pontuou.

Fatores como guerra (com encarecimento da logística), juros ainda altos e preços de commodities sem reação são os principais elementos que levam a essa previsão cautelosa para 2026.

No longo prazo, ele prevê um “crescimento considerável” para a irrigação, sendo que muitos produtores já vêm considerando essencial esse investimento, para lidar com as mudanças do clima.

“Nós vamos chegar muito mais rápido nos 12 milhões de hectares (irrigados) do que a gente imagina. Com certeza não esse ano, mas estamos indo em passos firmes para continuar crescendo e aumentando a área irrigada. Num cenário otimista, podemos chegar nesse patamar daqui a 2 ou 3 anos, já no pessimista, seriam 5 anos”, ressaltou.

A ocorrência de fenômenos climáticos como o El Niño – previsto para este ano – causando secas em algumas regiões, pode funcionar como um impulso para as vendas, ele diz.

No cenário global, o Brasil já figura entre os principais mercados de irrigação do mundo, atrás de players como China, Estados Unidos e países do Leste Europeu. Segundo Kiep, o investimento chinês chama atenção pela escala e capacidade de transformar áreas desérticas em regiões produtivas.

“Eles, literalmente, transformam áreas que são desérticas em áreas produtivas com irrigação”, afirmou.

Ao mesmo tempo, ele aponta que o Brasil ainda tem um gargalo importante na gestão de recursos hídricos. Ao comparar com a Austrália, destacou que o país tem até três vezes mais capacidade de armazenamento de água, mesmo com população muito menor.

“A gente parece uma carteira aberta onde o dinheiro está indo embora e a gente não está cuidando do nosso dinheiro”, disse. Ainda assim, o executivo reforça que o mercado brasileiro segue estratégico para as multinacionais do setor, com impacto relevante no faturamento de empresas globais.

Crédito restrito

Ao contrário da armazenagem, que vê suas linhas de crédito subsidiadas secarem rapidamente, no caso da irrigação, segundo Kiep, nem todos os recursos foram tomados.

O problema foi o excesso de exigência por parte dos bancos, que ficaram mais criteriosos com o avanço das recuperações judiciais.

A Abimaq estaria negociando com o governo para que, no próximo Plano Safra, se reduza o tempo do financiamento ao invés de ampliar, para diminuir a necessidade de recursos para fazer a equalização dos juros e possibilitando taxas mais acessíveis.

“Em vez de fazer financiamento de sete anos, com três anos de carência, e com isso necessitar de uma verba muito grande para fazer a equalização dos juros, nós estamos falando para reduzir esse financiamento em quatro anos, deixar um ano de carência e três para pagar”.

Resumo

  • Bermad cresce no Brasil com válvulas inteligentes e surfa expansão da irrigação, já acima de 10 milhões de hectares
  • Produção em Israel segue ativa mesmo com guerra, mostrando resiliência da cadeia global
  • Mercado deve desacelerar em 2026, mas perspectiva de longo prazo segue positiva com avanço da irrigação no agro