Os altos e baixos da história do etanol no Brasil se confundem com a trajetória de um dos principais estudiosos do setor, que começou sua carreira acadêmica no interior de São Paulo.
Marcos Fava Neves é engenheiro agrônomo formado pela Esalq e professor titular da USP em Ribeirão Preto, com passagens por universidades de vários países, além de ser o fundador de empresas conhecidas do setor como a consultoria Markestrat e a escola de negócios Harven Agribusiness School.
Em meio ao boom do etanol de milho no País, o AgFeed foi ouvir a opinião de Fava Neves, também conhecido nas redes como “Doutor Agro”, sobre qual seria o limite para os investimentos neste biocombustível.
“Há décadas que a gente acompanha o etanol de cana, mas nos últimos dez anos estamos acompanhando o etanol de milho e o biodiesel. São revoluções que eles estão trazendo, que é o empoderamento do interior do Brasil com a chegada da bioenergia e isso fica muito evidente com as plantas de soja e de etanol de milho, principalmente”, afirmou.
Ele ressalta que a chegada do biocombustível nos lugares mais distantes do Brasil não apenas cria a oportunidade de abastecer o tanque com etanol em regiões que antes eram inviáveis, mas também leva a um fenômeno que ele chama de “carnificação do agro brasileiro”.
"Porque a partir do momento em que você tem essas fábricas, a carne chega por conta de todo o DDG e o farelo de soja (produzido pelas usinas de etanol e biodiesel). Com a carne chegando, você fecha o ciclo com o biogás, o biometano e o organomineral, o fertilizante”, diz.
Fava Neves viveu de perto a explosão de novas usinas de etanol de cana na segunda metade dos anos 2000, quando os governos do Brasil e EUA defendiam os biocombustíveis e havia a expectativa de que diferentes países do mundo migrariam para percentuais elevados de mistura.
O que ocorreu, porém, foi uma série de recuperações judiciais no setor. Será que o etanol de milho corre risco semelhante?
“Eu creio que não, porque você tem a demanda da proteína e você tem a demanda do consumo dos carros. A variável fundamental é o preço do petróleo”, ele respondeu.
Na entrevista a seguir, Marcos Fava Neves fala de outros temas que preocupam o agronegócio atualmente, como as dificuldades financeiras da Raízen, uma gigante do setor.
Sobre os grãos, acredita que não há um descompasso entre oferta e demanda e prevê, para o Brasil, um período de 10 a 20 anos de expansão na área plantada, apesar dos tempos de ajuste.
Confira a entrevista na íntegra.
Você sempre acompanhou de perto o crescimento da bioenergia no Brasil, principalmente nos projetos do setor sucroenergético. Como está vendo esta expansão do etanol de milho?
Sim, há décadas que a gente acompanha o etanol de cana, mas nos últimos dez anos estamos acompanhando o etanol de milho e o biodiesel. São duas revoluções que eu considero que eles estão trazendo, que é o empoderamento do interior do Brasil com a chegada da bioenergia e isso fica muito evidente com as plantas de soja e de etanol de milho, principalmente. A cana fez isso nos anos 1970 e 1980, depois de 2000 a 2010, quando houve aquela expansão grande de usinas para o Mato Grosso do Sul, para o sul de Goiás, no oeste de Minas, os projetos greenfield que foram feitos naquela época que o Bush e o Lula defendiam que essa seria a meca do etanol.
Mas esse cenário foi mudando...
Em 2008, com a eclosão da crise mundial, os projetos foram se arrastando para serem entregues, então você fica uns cinco a oito anos sem grandes investimentos. Mas aí a gente recebe esse tsunami de fábricas de etanol de milho e das unidades de biodiesel e o que eu acho legal é que elas empoderaram o interior do Brasil.
De dois em dois meses eu vou para Luís Eduardo Magalhães (BA) e eu vejo a Inpasa, que começa a funcionar agora em abril. A construção começou em fevereiro (de 2025). Olha que coisa incrível, você abriu uma unidade de um R$ 1,5 bilhão, 1,4 mil pessoas trabalhando, e você conseguiu fazer isso em 13, 14 meses. É um empoderamento bioenergético do interior porque você passa a ter etanol para consumir lá numa região em que praticamente o share da frota flex com etanol era muito baixo.
Há impacto em outras cadeias?
Você passa a ter também o segundo movimento. O empoderamento bioenergético leva para uma palavra que não existe, mas que eu chamo de carnificação do agro brasileiro. Porque, a partir do momento em que você tem essas fábricas, a carne chega por conta de todo o DDG, o farelo de soja. E aí, com a carne chegando, você fecha o ciclo com o biogás, o biometano e o organomineral, o fertilizante.
"O empoderamento bioenergético leva para uma palavra que não existe, mas que eu chamo de carnificação do agro brasileiro"
Esse circuito fechado, eu tenho falado no exterior, o pessoal fica encantado de ver quanto investimento está chegando e, de certa maneira, empoderando o interior do Brasil e impulsionando as carnes. O nosso resultado de exportação de carnes vem batendo recorde atrás de recorde, o nosso share no mercado mundial está se aproximando de um número muito alto, nas três proteínas. Podemos chegar no final da década em 40% do frango, 30% do boi, 20% do suíno e esse movimento veio para ficar.
A diferença para a cana é que as fábricas de etanol de milho, elas não são concentradas em uma única região, por exemplo, no centro-sul. Você vai vendo aparecer uma em cada cidade emergente do agro.
Você tem reforçado as projeções de crescimento do etanol de milho. Em apresentação recente, cita a previsão de que a produção subirá de 12,1 bilhões de litros (2025/2026) para 21,8 bilhões de litros (2034/2035). Não pode haver uma super oferta, especialmente em meio ao avanço dos carros híbridos?
As projeções do etanol no Brasil, feitas pela EPE para daqui 10 anos, são favoráveis para o aumento do consumo. A previsão é aumentar de 35 bilhões de litros para 46 bilhões de litros o consumo de etanol, alta de 31%. Continua no Brasil a venda de carros novos e a frota se aproximando de um índice cada vez mais próximo de 90% de carros flex.
Agora tem os híbridos com motores que ainda não são a flex, mas acho que a pressão vai fazer com que eles mudem em breve. Então a frota do Brasil continua crescendo.
Eu acho que o nosso investimento em transporte público é muito baixo. Nós ainda temos uns 5 a 8 anos de mobilidade individual crescente e nós temos um problema muito interessante que a variável preço do petróleo é que vai definir, que é o share.
Como assim?
Eu costumo falar nas palestras da cana que não tem o que você fazer no mercado mundial de açúcar, porque ele cresce 1% ao ano no mundo e o Brasil praticamente está pegando todo esse crescimento com as exportações. Agora, onde tem como crescer, onde tem coisa para fazer é no comportamento de consumo da frota flex. Hoje é 30% de hidratado, 33%, às vezes ela chega a 38%, dificilmente vai a 40, 45%. Então, se imaginar essa frota aí enorme e o que a gente produz de etanol, você de repente pode aumentar um terço, dois terços da produção que ela cabe nos carros atuais, basta você ter a equação funcionando.
O grande pulmão da continuidade do crescimento é algo que a gente já tem, que é uma estrutura de distribuição e uma frota flex gigante que consome só um terço do etanol hidratado. Se a equação de consumo for acertada, 95% dela é questão econômica mesmo. Alguns pensam só na parte ambiental e de emprego que a cana gera, mas eu, por exemplo, penso assim, mas é muito pouca gente. Então, se ele cair lá dos 75% (do preço da gasolina), que permita a decisão ser forçada mais para o etanol, o consumo aumenta.
É um volume muito grande. De tudo que a gente faz hoje de etanol é só um terço da frota que usa. Essa é uma variável importante. Ela é uma boca gigante que está ali aberta, mas que não acertou a mangueira nela.
Então o carro elétrico não é uma ameaça?
Eu acho que ainda não. Ainda temos 10 anos, pelo menos, de uma conversa com uma base enorme de carros populares, de carros que são a combustão, antes da chegada e da entrada efetiva dos elétricos, que no Brasil deveriam ter também um privilégio se eles forem híbridos flex. Esse é um ponto importante aí que em São Paulo já tem. Os dados da EPE indicam que a participação dos biocombustíveis (etanol, biodiesel, biometano, entre outros) que hoje é de 23% chegará a 43% em 2055.
Na sua visão, com todo o aumento de produção previsto, nenhum investidor chegou atrasado no etanol de milho?
Eu creio que não, porque você tem a demanda da proteína e a demanda do consumo dos carros. A variável fundamental para transformar a sua frase em totalmente aceita é o preço do petróleo. Se a gente tiver um petróleo que vem para baixo de 50 dólares o barril, o que eu acho difícil também porque essa turma da produção não vai querer destruir o orçamento deles, então eles vão reduzir para controlar, daí você coloca em xeque, porque mesmo que você coloque tributos adicionais na gasolina, tire da bioenergia, é muita diferença entre um e o outro.
As previsões mostram o petróleo ficará entre 60 a 80 (dólares) em média, tirando períodos extraordinários como esse que nós estamos vivendo. O renovável é competitivo a isso mesmo com o câmbio mais valorizado, que é o que eu acho que vai acontecer.
O câmbio preocupa?
Tirando a guerra que está aí agora, eu já venho alertando nas palestras aos produtores que o meu maior medo em 2026 era o câmbio, porque a gente estava perto dos R$ 5,10 (por dólar), com toda a questão interna, eleitoral e fiscal. Um cenário de uma vitória que - aparentemente vem crescendo de probabilidade - da centro-direita nas eleições traz o câmbio para menos de 5, na minha leitura. É lógico que isso também tira a competitividade, porque a gasolina fica mais barata e você também tem menor margem no açúcar para vender. Então, a conta das usinas fica mais complexa com o câmbio valorizado, porque ela está muito exposta ao que vem de fora.
Aquela onda RJs de usinas de cana, após o boom de investimentos que você citou, quando Lula e Bush defendiam o etanol, pode se repetir?
O risco sempre existe, mas o que aconteceu daquela vez foi diferente. Você teve uma avalanche de investimentos, o que aparentemente não é o caso do etanol de milho. Você não tem 30 unidades sendo construídas ao mesmo tempo, ele vem vindo num fluxo relativamente estável de agregação de novas unidades ou crescente, mas que aparentemente cabe. O que aconteceu naquele momento foi que o etanol ia virar commodity global e o mundo todo ia partir para o etanol e aí você teve uma série de investimentos que desorganizaram completamente a cadeia de suprimentos.
Eu sei porque eu estava até participando de um grupo empresarial naquele momento, eu estava com uma holding que controlava o segundo maior grupo e a gente teve uma inflação dos projetos. Então, uma usina ficou 30%, 50% mais cara porque todo mundo foi comprar. E houve aquela avalanche de fundos, gente sem noção do que é a cana, virou moda no mundo. Veio dinheiro de Bezos, toda essa turma aí internacional, multinacionais, o negócio vai ser a cana no Brasil. E ao entrar eles bagunçaram completamente, os greenfields ficaram muito caros e os projetos atrasaram horrores. Quem vendia os bens de capital para construir as usinas já não conseguia entregar. Muitas nem começaram a operar.
Teve também a crise financeira mundial...
Sim, depois o petróleo caiu de preço e foi uma tempestade perfeita. Em 2008 o dinheiro sumiu, com a crise financeira mundial, o caso do Lehman Brothers. Quer dizer, as taxas de renovação das dívidas das empresas foram para a casa do chapéu. Quem havia começando antes, em 2003/2004, foi bem porque pegou os ativos mais baratos e as usinas foram entregues antes da crise.
Portanto, não estou observando um excesso no etanol de milho. É uma velocidade acelerada, mas não é uma coisa que você vai ter um processo de inflacionamento e de desorganização dos projetos, até porque eles estão sendo entregues no prazo. E aí, tem uma grande vantagem das empresas como a FS, como a Inpasa, em relação a quem está fazendo uma única usina, como uma cooperativa, por exemplo. Elas têm equipes especializadas, usam o mesmo projeto e negociam com os fornecedores.
"Não observo um excesso no etanol de milho. É uma velocidade acelerada, mas não é uma coisa em que você vai ter desorganização dos projetos"
A distância que elas estão abrindo, a Inpasa e a FS, principalmente, em relação às demais, é porque a escala que elas têm, a velocidade de montar uma nova unidade, o custo dela é melhor do que as outras. Eu vejo elas bem financeiramente e acho que não se avizinha no etanol de milho uma crise como na cana era mais evidente pela vulnerabilidade que o pessoal estava em relação ao aspecto financeiro.
E os efeitos da guerra no Irã?
Pouca gente no Brasil sai ganhando com essa confusão, mas o biocombustível sofre um empurrão, porque você tem a necessidade ou a busca de aumento das misturas no mundo.
Os Estados Unidos, por exemplo, vão permitir o E15 nos períodos lá de maior calor, que tinha alguma restrição. A EPA, Environmental Protection Agency, soltou as metas de 2027 e o diesel renovável de soja teve um impulso grande. Então, o petróleo alto dá um empurrão nas misturas. E aqui no Brasil é praticamente certo que a gente vai para o E32.
Na Índia, tem a pressão para os carros flex, para que eles tenham hidratado nos postos. Para nós, é uma grande revolução. Se a Índia puder usar o hidratado e não depender do E20, que é a mistura de 20% na gasolina, para o nosso açúcar é uma beleza, porque se tiver competitividade lá, você imagina os carros da Índia, as motos entrando com hidratado, o consumo de cana que vai ter. Então, o Irã e o petróleo alto, ele dá um empurrão. E às vezes fica, às vezes esse empurrão permanece. Você aumenta a mistura e não diminui. Então cria-se um novo mercado.
O etanol de milho seguirá crescendo?
Eu acho que sim. É um bom investimento e ele vai possibilitar ganhos para os produtores de milho, também em regiões mais afastadas, porque ele vai fixar uma compra antecipada e uma base de preço. A gente lembra 8, 10 anos atrás da saca do milho a R$18, R$20, R$30. Eu acho que isso nunca mais acontece, porque você tem o etanol entrando e o DDG para a proteína. Ele é um hedge para o produtor de milho muito importante também, porque dá a ele mais previsibilidade nas regiões mais distantes. E um custo de produção bem mais baixo também. Então, ela é competitiva nessas regiões de fronteira e vai levar a carne lá para o interior do Brasil.
Onde o investimento é mais propício?
Tem que ser na região que tem milho abundante, que não tem competição por milho que possa dificultar um pouco o teu supply. Outra coisa muito importante para eles é ter proximidade da biomassa, porque precisa de calor na fábrica de etanol de milho. E isso também está gerando um mercado que a gente não tinha, que é o de floresta plantada para as caldeiras das fábricas de etanol. A produção de eucalipto está vindo agregada.
Não é mais só a questão do DDG, que tem o gado, que tem o biogás, o biometano. No supply também ela vem com eucalipto. Você está estimulando produtores a ter contratos de longo prazo com as empresas. Quer dizer, mais uma diversificação da renda do produtor.
Ainda sobre etanol, como você avalia a situação da Raízen?
Acho que a Raízen é um exemplo interessante de quem teve uma diversificação excessiva, entrando em setores não tão correlatos, que não deram resultado adequado. Entendo que um dos pontos de atenção é a área agrícola. Acho que uma das estratégias que seria interessante para a Raízen, para fazer gradualmente, não de uma vez, é seguir o que a Zilor fez no início dos anos 2000.
"A Raízen poderia passar toda a parte agrícola com contratos de longo prazo para produtores especializados suprirem a cana"
A Raízen poderia passar toda a parte agrícola com contratos de longo prazo para produtores especializados suprirem a cana. Acho que ela deveria passar por uma desmobilização muito intensa e trabalhar com produtores em contratos de longo prazo, de duas, três rodadas, 12, 18 anos. Asim ficaria mais leve, saindo desse peso do agrícola. Reduziria a diversificação, tirando tudo o que é periférico, com excelência operacional, e assim trabalhar com as usinas mais coesas ali, que podem entregar mais resultados. Ou seja, ela tem que ficar menor e melhor.
Há alguma preocupação em relação às outras empresas do setor?
Não, eu acho que todas estas que a gente acompanha, que têm capital em bolsa, têm resultados consistentes. Boa administração dá resultado em qualquer lugar. É o arroz com feijão, é o foco, é um setor de margem baixa. É um negócio de gente que veio do agrícola, que é austero, que cuida bem.
Essa safra foi muito ruim, em termos de resultados. Tudo que era para dar errado, deu errado, mas agora vem uma melhor. A cana, provavelmente, vai ter uns 20 milhões, 25 milhões, até 30 milhões de toneladas a mais sendo produzidas. Isso é praticamente com o mesmo custo. E você tem uma situação mais construtiva de valor de açúcar e de etanol. Então, eu acho que o ciclo 2026/2027, para elas, é melhor, porque não deve agravar a situação de quem está um pouco mais delicado com a questão do endividamento.
Sobre o tão comentado “ciclo de ajuste” dos grãos, com preços mais baixos e margens apertadas, qual a sua visão?
Historicamente, se você olhar o preço da soja e do milho, ele é um preço de médio para razoável. A perspectiva da soja nos próximos 10 anos é de US$ 10,50 por bushel. Hoje estamos com US$ 11,50. O que a gente tem que construir é lucro com esse preço. O meu medo nessa história toda é o que eu falei para você, que é o câmbio. Nós tivemos um grande amigo nos últimos 5 anos, que foi a taxa de câmbio desvalorizada e que está vindo mais para perto do R$ 4,70, que dizem ser o câmbio de equilíbrio.
O Irã segurou, mas está segurando, parece que com garras ali, porque ele era para ter voltado para R$ 5,60 e ele não voltou. Foi para R$ 5,25, em um cenário interno confuso e externo extremamente complicado. O elefante na loja de cristal é o câmbio, porque se ele vier para R$ 4,70, é aperto para todo mundo.
A demanda mundial por grãos, seguirá crescendo?
Na soja, se você pegar os últimos 10 anos, foram 11 milhões de toneladas por ano o que aumentou o consumo mundial de soja. Se considerar a média dos últimos 3 anos, o acréscimo foi de 19 milhões de toneladas por ano. Então, a gente tem uma aceleração do consumo, notadamente por proteína, urbanização, uso para biocombustível, você está com o consumo um pouco mais alto.
E o milho?
Nos últimos 3 anos, a demanda do planeta por milho cresceu 40 milhões de toneladas no ano. Ou seja, um terço do milho brasileiro é só o crescimento adicional da demanda. Então, se eu aumentar a produção brasileira em 10 ou 15 milhões de toneladas por ano, ele cabe no crescimento da demanda mundial. Nós não vamos interferir no preço. E se você olhar o milho, a gente tem pego uma parte importante do crescimento da demanda mundial. E na soja mais ainda.
Por que?
Boa parte do crescimento da demanda mundial é o Brasil que está pegando, porque, em média, nos últimos 6 anos, nós aumentamos 18 milhões de novos hectares de grãos por ano. Provavelmente disso deve ser uns 3 milhões de milho e uns 15 milhões de soja.
São cerca de 2,5 milhões de novos hectares plantados por ano de soja, ou seja, o Brasil está pondo 8 a 9 milhões de toneladas a mais no mercado, que cresce 11 milhões de toneladas por ano. Então, por isso que você vê o nosso share aumentando. Nós já estamos com 61% da compra mundial de soja.
E continuará assim?
Se você olhar o futuro, na minha leitura dos grãos, com toda a urbanização que ainda tem para acontecer, você fala, a China não está crescendo mais. Não está, mas está urbanizando e está ficando mais rica. E aí, se você olha os padrões de consumo per capita na China, todos estão aumentando. Então, não é porque a população não está aumentando que o consumo não vai continuar aumentando, porque você tem os outros drivers acontecendo.
"Temos, no mínimo, 10 ou até 20 anos ainda de avenida de crescimento para os grãos no Brasil"
Eu diria que nós temos, no mínimo, 10 ou até 20 anos ainda de avenida de crescimento para os grãos no Brasil. Dá para a gente tranquilamente colocar 20 milhões de hectares a mais, simplesmente usando a área de pasto, pedindo 2 milhões por ano nos próximos 10 anos, ou 1,5 milhão, que a pecuária já tem entregue mesmo, e aumentando a segunda safra, com irrigação, precocidade, biológicos, tudo isso. Mas eu tenho que ganhar dinheiro com esse preço. E quem é bom produtor faz. É esse produtor que está expandindo, é a formiguinha que soube guardar, que não se endividou. Então, não vai parar de crescer, vai trocar de mão.
Temos ouvido algumas opiniões divergentes, que apontam um crescimento na oferta maior do que o avanço da demanda...
Sim, a oferta está crescendo mais do que a demanda e isso explica o fato do preço estar mais achatado. Nós jogamos muita soja no mercado. Agora, se você olhar os drivers... Veja os Estados Unidos. Eles faziam 110 milhões de toneladas há 10 anos, foram para 116. A Argentina fez 58 milhões de toneladas, veio para 50. Então, é só o Brasil que está ocupando o crescimento do mercado mundial. E ele, de certa maneira, vem acompanhando a demanda. O Brasil foi de 96 milhões para 180 milhões de toneladas (projeção para a safra 2025/2026).
O pessoal fala que a China tem projeto de aumento de produtividade, de redução da dependência do Brasil. Há quantos anos existe essa conversa? Há uns 10, talvez, e todo ano aumentando a exportação. Mas a China está comprando terra na África, vai fazer uma revolução. Isso também estou ouvindo há 10, 15 anos. Não deu certo. Não tem ambiente institucional. Essa história está aí há 15 anos e a gente continua crescendo. E a minha hipótese é que vai continuar nos próximos 15.
Então o pior momento já passou?
Eu acho que o pior momento é agora, porque você tem a taxa de juros na casa do chapéu, por conta desse desequilíbrio fiscal do governo, que não sabe cortar gasto. A taxa de juros onera um setor com dívidas. É um setor com uma parcela de dívida elevada. E você tem um excesso de produção no mercado que de certa maneira trouxe para baixo o preço. Agora a questão da valorização cambial e da explosão do preço do diesel. E a questão dos fertilizantes. Então esse momento é extremamente complexo. Só que muita gente já vendeu. Já fixou o câmbio a R$ 5,60, R$ 5,70. Vendeu lá em setembro, agosto do ano passado, com preço mais alto e câmbio mais favorável. Outra vez eu digo que boa gestão é o diferencial. Tem gente que sabe a hora de comprar, a hora de vender, tem um endividamento baixo e está atento às oportunidades.
Para encerrar gostaria que você nos contasse um pouco sobre o projeto da Harven...
A Harven Agribusiness School é uma escola sem ideologia. Nosso negócio é empreendedorismo e mercado. Estamos com 350 alunos de graduação e 90% deles são filhos e filhas de produtores rurais. Virou um clube dessa turminha do agro. Um espaço bem nichado, por isso não é ameaça para outras escolas de negócios tradicionais. É uma estrutura para formar uma turma que volta para impulsionar os negócios da família. Sou um dos fundadores e hoje atuo como chanceler, que é a figura acadêmica da escola.
Estamos muito perto dos cases do setor privado. Estamos escrevendo e debatendo cases de várias empresas do agronegócio, como FS, Alvoar Lácteos e Global Eggs. Estamos nos especializando em escrever casos, algo que sempre marcou a minha carreira, com case studies. A gente quer liderar no mundo a produção de casos em agro. Agora, no Congresso Mundial de Agronegócio, vamos para a Irlanda e levaremos 10 casos do Brasil produzidos por professores e alunos da Harven.
Resumo
- O fundador da Harven Agribusiness School, Marcos Fava Neves, acredita que a produção e o consumo de etanol de milho seguirão crescendo nos próximos anos, "empoderando o interior do Brasil"
- Sobre as dificuldades da Raízen, o professor da USP sugere que a empresa siga um modelo já feito pela Zilor, que "terceirizou" a atividade agrícola
- Fava Neves prevê que a demanda por soja e milho seguirá crescendo por pelo menos 10 anos, apesar das mudanças recentes na China