Uma andorinha só não faz verão. O bordão é antigo, batido, mas ainda tem seu valor, especialmente para as cooperativas agroindustriais da região Sul do Brasil. Já há algumas décadas elas compreenderam que a união de várias dessas organizações, em conjunto, pode resultar em maiores receitas e capacidade também mais elevada de investimentos.

Esse movimento foi mais intensificado no Paraná, onde grandes cooperativas como Frísia, Castrolanda e Capal se uniram para a Unium, em 2017 e, há mais décadas, em Santa Catarina, onde várias cooperativas se uniram em prol da Aurora Coop, hoje uma potência no setor de proteína animal, com um faturamento de R$ 26,9 bilhões no ano passado.

No Rio Grande do Sul, contudo, esse movimento ainda é mais restrito. É verdade que as cooperativas Cotrijal, Cotrisal e Cotripal se juntaram recentemente para a instalação de uma indústria de soja, a Soli3, mas as entidades associativas ainda não demonstram o ímpeto que suas congêneres do Paraná e Santa Catarina.

Ainda assim, há quem esteja de olho em expandir horizontes. É o caso da Cotrisul, cooperativa de Caçapava do Sul (RS), existente desde 1960 e que não descarta, mais adiante, entrar num modelo de intercooperação em conjunto com outras sete cooperativas regionais.

"Nossa intenção nos próximos anos é trabalhar regionalmente entre sete cooperativas que atuam perto de nós para melhorar negócios, para diminuir despesas e talvez, no futuro, desenvolver novos negócios", afirma Gilberto Dickes de Fontoura, presidente da Cotrisul, em entrevista ao AgFeed.

Fontoura prefere não dar detalhes sobre os planos futuros que envolvem esse modelo de intercooperação, que deve ter novos capítulos nos próximos meses. "A tendência é as cooperativas desenvolverem negócios em comum", diz o presidente da cooperativa de Caçapava do Sul.

E, dessa forma, dependerem menos da originação e comercialiação de grãos, uma atividade de margens menores e mais exposta a riscos climáticos do que a agroindústria de processamento.

Se esse passo for confirmado, representará mais um movimento relevante na história, marcada por várias viradas. Quando iniciou suas atividades, nos anos 1960, suas atividades eram basicamente focadas na recepção de trigo produzido pelos agricultores da região.

"Como as outras cooperativas do Rio Grande do Sul, a Cotrisul era voltada para atender os produtores de trigo, que tinham a necessidade de se organizar em cooperativas para vender o produto para o governo, que era o comprador na época", conta Fontoura.

Mas, seguindo as mudanças do mercado local, a cooperativa passou a se dedicar à recepção de arroz nos anos 1980.

Mais recentemente, já nos anos 2000, passou a focar na recepção de soja, acompanhando outra tendência dos produtores da região, que passaram a postar mais no cultivo do grão na região Centro-Sul do Rio Grande do Sul.

Hoje a soja é responsável pela maior parte do volume do faturamento da cooperativa, que alcançou receita recorde no ano passado, de R$ 2 bilhões.

O resultado, segundo Fontoura, está associado especialmente a um fator atípico de mercado no ano passado. Isso porque o volume de soja recebido no ano passado foi até inferior na comparação com 2024 - 9,9 milhões de sacas de 60 kg de soja contra 9,5 milhões de sacas no ano anterior, em função de perda das enchentes que arrasaram boa parte do Rio Grande do Sul

Mas, em contrapartida, Fontoura conta que, devido às enchentes, vários carregamentos de soja, costumeiramente feitos no fim de 2024, foram postergados para o começo de 2025, impactando positivamente o volume.

"Os embarques de navios de soja atrasaram muito. Normalmente terminam em novembro, mas nesse ano entrou em janeiro e fevereiro de 2025, momento em que houve carregamento grande de soja da safra anterior, aumentando a receita do ano", explica Fontoura.

A maior parte do faturamento da cooperativa - 77,8% do total - veio da comercialização de soja no ano passado, chegando a R$ 1,5 bilhão, ante R$ 1,3 bilhão em 2024.

Já no arroz, a relação entre oferta e preço acabou sendo desfavorável para os negócios da cooperativa.

Por mais que o recebimento de arroz tenha se expandido consideravelmente entre 2024 e 2025, passando de 787,9 mil sacos de 50 kg para 1,1 milhão de sacos no ano passado, os preços despencaram - chegando a uma marca negativa de R$ 53,06 para o arroz em casca em dezembro de 2025, segundo dados do Cepea-USP e Instituto Riograndense do Arroz (Irga).

Com isso, o beneficamento desse arroz recuou quase pela metade em 2024, chegando a 238,2 mil fardos de 30 kg, 40,8% a menos do que ano passado.

A vantagem, para a cooperativa, é que hoje o arroz representa apenas 3,9% do faturamento, de forma que os R$ 80 milhões registrados em receita advinda do grão não fragilizaram o desempenho da cooperativa como um todo.

No trigo, o recebimento da cooperativa ficou praticamente estável, passando de 707,8 mil sacos de 60 kg em 2024 para 696,5 mil sacos para 2025, mas o volume é pouco relevante na cooperativa em termos de faturamento, somando apenas R$ 60 milhões em 2025.

Para este ano, a Cotrisul não tem uma projeção fechada de faturamento previsto, mas a tendência é que continue crescente, ainda que com alguns desafios.

"Em função da circunstância dos preços dos grãos, acreditamos que deve crescer o faturamento, mas não em níveis muito significativos, chegando a, no máximo, 10%", estima Fontoura.

Ainda assim, as condições no campo estão mais favoráveis. O presidente da Cotrisul conta que a soja dos associados ainda está no início da colheita, mas que os primeiros resultados têm sido positivos, apesar de alguns desafios do ponto de vista climático.

“Vai ser uma safra muito melhor do que os anos anteriores, apesar de não ser ainda uma safra ideal porque o clima seco ainda prejudicou as lavouras de algumas localidades da região”, comenta.

A tendência de que haja uma melhora dos preços do arroz também devem ajudar o desempenho do cereal, segundo Fontoura.

“O preço estava muito ruim até 30, 40 dias atrás e, nesse momento, está melhorando a nível do produtor. Saiu de R$ 50 e já está a R$ 60. Ainda não é o ideal, ainda é muito baixo e também não cobre bem os custos, mas pelo menos, já está melhorando”, avalia o presidente da Cotrisul.

Resumo

  • Cotrisul avalia parceria com outras sete cooperativas para reduzir custos e desenvolver novos negócios no futuro
  • Receita recorde de R$ 2 bilhões da cooperativa gaúcha em 2025 foi puxada pela soja
  • Expectativa é de crescer até 10% em faturamento em 2026