O queijo grana padano teria surgido há mais de mil anos no norte da Itália. Mas, até pouco tempo atrás, a maioria dos brasileiros sequer conhecia esse tipo de queijo, popularíssimo entre os italianos e que exige um longo e cuidadoso processo de maturação.
A complexidade da operação, porém, não intimidou o empresário gaúcho Raul Randon, falecido em 2018.
Conhecido pela visão empresarial de longo prazo – não à toa ele transformou uma pequena oficina mecânica no conglomerado metalmecânico Randoncorp – ele decidiu apostar, no fim dos anos 1990, na produção de grana padano no Brasil, confiante de que os consumidores locais acabariam se rendendo ao sabor marcante do queijo.
As dificuldades foram várias. Randon percebeu que o Brasil não tinha o leite no padrão de qualidade necessário para a produção e, assim, trouxe vacas leiteiras dos Estados Unidos para o interior do Rio Grande do Sul. Logo após, criou um laticínio, enviou sua equipe à Itália para aprender o processo de produção e iniciou as operações fabricando três formas de queijo por dia.
“Ele disse: ‘Agora é só vender’. Mas imagine vender esse queijo em 1997, quando praticamente ninguém no Brasil conhecia”, recorda Ângelo Sartor, CEO da RAR Agro & Indústria, com sede em Vacaria (RS), em entrevista ao AgFeed.
A aposta de “seu Raul” deu certo. Hoje, a RAR Agro & Indústria tem a maior fazenda de gado leiteiro do Rio Grande do Sul, extraindo aproximadamente 52 mil litros de leite por dia, e produz queijos tipo grana e parmesão, além de manteigas, creme de leite, maçãs, azeites, vinhos e outros produtos.
A companhia faturou R$ 510 milhões em 2025, espera ampliar o montante para R$ 558 milhões neste ano e projeta alcançar R$ 1 bilhão em receitas até 2034.
A empresa passou por uma reestruturação no ano passado, quando passou a adotar a marca RAR Agro & Indústria, após uma pesquisa quantitativa realizada pelo Instituto PHD com 1,3 mil consumidores das regiões Sudeste e Sul revelar que havia necessidade de melhorar a identificação da marca entre os consumidores.
“Foi para ficar mais fácil de o mercado nos identificar. Havia alguma confusão em função da atuação no setor metalmecânico”, explica Sartor.
Assim, a Rasip, que concentra a produção agrícola de maçãs e grãos, passou a se chamar Rasip Agro. Já a produção de queijos, lácteos, lácteos, charcutaria, azeites, vinagres e vinhos tornou-se ser responsabilidade da RAR Gastronomia.
O alicerce para o crescimento previsto nos próximos anos deve ser justamente a RAR Gastronomia, de acordo com Sartor. “Essa unidade vem crescendo significativamente e acreditamos que será a de maior faturamento até 2034”, projeta o executivo.
A operação enfrentou alguns percalços no ano passado, mas ainda assim encerrou o ano com um faturamento de R$ 189 milhões.
Os desafios vieram especialmente da produção de laticínios, segundo Sartor. Isso porque a rentabilidade foi pressionada no primeiro semestre pelo aumento do preço do leite, que chegou a superar R$ 2,80 por litro na média nacional, de acordo com dados do Cepea/USP. “O primeiro semestre foi muito difícil, com custo elevado do leite”, diz o executivo.
Mas, no segundo semestre, os preços recuaram bastante, ajudando a operação da RAR. “O resultado não foi excelente, mas teve uma performance boa. Começamos o primeiro semestre de 2025 mal e, no segundo semestre, a coisa foi melhorando”, recorda.
No ano passado, a unidade produziu 957 toneladas de queijo tipo grana, 545 toneladas de queijo tipo parmesão e cerca de 600 toneladas de creme de leite e manteiga.
O início de 2026 tem sido positivo, segundo Sartor. “Janeiro e fevereiro deste ano estão muito melhores em comparação com o ano passado”, diz o CEO, que estima que a receita da unidade de negócio suba a R$ 205 milhões neste ano, o que representaria uma alta de pouco mais de 8%.
Mais da metade do faturamento da unidade vem das vendas no varejo. O principal mercado dos produtos da RAR Gastronomia é São Paulo, onde itens como queijos e salames podem ser encontrados em redes de supermercados presentes na capital paulista como Pão de Açúcar, St. Marche, Oba Hortifruti, Casa Santa Luzia e Natural da Terra, entre outras.
Para algumas redes de supermercado, a empresa também atua fornecendo queijo ralado para marcas próprias das varejistas como Tutti Giorni, do grupo Zaffari & Bourbon, e Qualitá, do GPA.
O foco é o mercado interno. A companhia chegou a exportar volumes de queijo tipo grana para os Estados Unidos, com o envio de uma primeira remessa de 700 kg de produto para Miami, no estado da Flórida, no fim de 2024. Mas o plano foi interrompido temporariamente após a imposição de tarifas pelo governo americano sobre produtos brasileiros.
Com o recuo dessas medidas, as exportações já foram retomadas, segundo Sartor, e a ideia é que, em algum momento do futuro, a empresa tenha uma boa fatia de mercado na terra do Tio Sam. “Os Estados Unidos é um grande mercado consumidor de queijo prana gradano. Flórida e Califórnia são grandes consumidores de queijo, por exemplo. Acreditamos que tem potencial”, diz.
No Brasil, a RAR também aposta no crescimento do canal de food service. Atualmente, cerca de 45% das vendas da unidade são destinadas a restaurantes e outros estabelecimentos.
É também para esse canal que se direciona a operação de vinhos da empresa. Hoje, a RAR comercializa cerca de 150 mil garrafas da bebida por ano.
As uvas utilizadas na confecção do vinho são produzidas pela Rasip e enviadas para a vinícola Miolo, em Bento Gonçalves (RS), que elabora os vinhos exclusivamente com matéria-prima da companhia.
Dentro do plano estratégico, a meta é ampliar significativamente esse volume. “Queremos chegar a 220 mil garrafas já em 2030 e atingir 300 mil garrafas vendidas em 2034”, afirma Sartor.
Assim como ocorreu com os queijos, o negócio de vinhos também nasceu de forma quase despretensiosa.
Raul Randon plantou um vinhedo em uma propriedade sua, gostou do resultado e pediu ao amigo Adriano Miolo, CEO da vinícola gaúcha, que produzisse uma edição limitada para celebrar suas bodas de ouro de casamento. O projeto acabou se transformando em mais uma frente de negócios.
Hoje, os vinhos também contam com o apoio de outro braço da RAR Gastronomia: as franquias Spaccio RAR. Atualmente, a marca possui cinco unidades espalhadas pelo país: são quatro franquias em Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Gramado (RS) e São José dos Campos (SP), além de uma loja própria em Vacaria.
Os espaços combinam trattoria, wine bar italiano e empório, oferecendo pratos preparados com produtos da marca, além da venda de queijos, vinhos, salames, azeitonas e outros itens.
“É uma experiência completa”, resume Sartor. “As franquias também são um excelente canal para a venda de vinhos”, afirma.
Persiste a ideia de expandir essa operação de quatro para mais de 20 franquias no futuro, algo que é prometido pela RAR há anos, mas que ainda não realizou.
A RAR importa ainda itens de charcutaria, trazendo peças inteiras de presunto e salame da Itália e fatia os produtos por aqui. Ao todo, são 20 toneladas comercializadas por mês.
A unidade também produz azeite de oliva a partir de azeitonas plantadas no Chile e vindas de olivais próprios nos Campos de Cima da Serra Gaúcha - o azeite nacional foi batizado de Nossa Senhora da Oliveira, padroeira do município de Vacaria, onde está a sede da RAR.
Fruticultura e grãos
Apesar dos planos ambiciosos para a operação de queijos e vinhos no futuro, o carro-chefe da RAR continua sendo a fruticultura, com destaque para as maçãs, o negócio originário da empresa.
A produção de frutas começou na década de 1970, novamente a partir de uma iniciativa de Raul Randon.
Na época, o empresário passou a plantar macieiras em uma de suas propriedades para aproveitar uma isenção fiscal do governo, que incentivava os agricultores que faziam reflorestamento.
Mais do que o benefício tributário, porém, o empreendedor nato enxergou nas macieiras outra oportunidade de negócio. Na época, as maçãs que o Brasil consumia era predominantemente importadas da Argentina.
Com o passar das décadas, os pomares de seu Raul se multiplicaram e hoje ocupam cerca de 1,5 mil hectares em Vacaria, transformando a Rasip Agro – a unidade de negócios da RAR dedicada à fruticultura – em uma das maiores exportadoras de maçãs do Brasil.
Hoje, a empresa tem cerca de 8% do mercado de maçãs no País e produz frutas das variedades Gala, Fuji e Belgala – essa último é um tipo mais recente que foi desenvolvido pela própria Rasip, possui cor mais intensa e capacidade maior de resistência a doenças na lavoura.
Nos últimos anos, o negócio de maçãs teve boa rentabilidade mesmo com sucessivas safras ruins das macieiras.
“As safras dos últimos anos, principalmente as de 2024 e 2025, foram muito pequenas. Mas, para quem tem estrutura organizada para colher do fim de janeiro até o início de abril, consegue armazenar e vender o ano inteiro, conseguimos performar bem interessante”, explica Sartor.
Assim, no ano passado, dos R$ 510 milhões da RAR Agro & Indústria, R$ 221 milhões vieram da produção de fruticultura.
Depois das intempéries, na temporada atual, a expectativa é de recuperação também no campo.
A Rasip projeta que, na safra de 2026, colherá 55 mil toneladas da fruta, alta de 33% na comparação com a temporada anterior, quando haviam sido colhidas 44 mil toneladas. “E podemos superar um pouco esse volume previsto em função do bom desempenho da maçã gala”, diz Sartor.
Boa parte da produção de maçãs da Rasip fica no mercado nacional, mas cerca de 20% da produção é enviada para o exterior, com presença em mais de 10 países como Índia, Irlanda, Inglaterra, Portugal e Colômbia, entre outros.
Por aqui, as maçãs da Rasip são comercializadas em marcas como Rasip Agro, Rasip Kids, Sunny, Rasip Premium e Rasip Leve.
Além das maçãs, a Rasip Agro também produz grãos como milho, trigo e soja em 6 mil hectares de propriedades localizadas nos municípios de Antônio Prado (RS) e Vacaria.
O negócio representa uma pequena fração do faturamento da empresa e tem sofrido com a queda dos preços das commodities. Para 2026, a expectativa da empresa é de que o faturamento dessa operação recue cerca de 8,8%, passando de R$ 34 milhões para R$ 31 milhões.
“Os preços das commodities não tem ajudado. Estamos agora aguardando o mercado retomar os preços. Se a soja performasse a R$ 150, já nos traria bom resultado para empatar os custos de produção pelo menos”, diz o CEO, que atua há quase 45 anos nas empresas da família Randon – passou os últimos 19 anos na RAR/Rasip e, antes disso, atuou durante 25 anos nas companhias do setor metalmecânico do conglomerado gaúcho.
Ele avalia que, apesar das reformulações de marca, o legado de Raul Randon permanece, segundo o CEO da RAR: empreendedorismo, governança e visão estratégica de longo prazo.
“Governança está no DNA da família Randon. Eles administram um negócio metalmecânico de R$ 14 bilhões, imagine o nível de governança necessário”, afirma Sartor. “Esse mesmo modelo, adaptado ao nosso tamanho e à atividade do agro, funciona muito bem para nós.”
Resumo
- A RAR Agro & Indústria, empresa da família de Raul Randon, quer dobrar o faturamento e atingir R$ 1 bilhão até 2034, com crescimento puxado pela unidade RAR Gastronomia
- Companhia faturou R$ 510 milhões em 2025 e projeta R$ 558 milhões em 2026
- Embora a aposta esteja em “queijos e vinhos”, o principal negócio ainda é a fruticultura: a unidade Rasip Agro responde por cerca de 8% do mercado brasileiro de maçãs