Na dieta da companhia de alimentos Camil, os preços mais baixos do arroz e do açúcar caíram mal nos números consolidados da empresa em 2025, mesmo com aumento do volume de vendas. E não ajudou muito o fato de que as despesas gerais e administrativas subiram acima dos dois dígitos no ano.
Assim, a companhia registrou queda de 31,6% em seu lucro líquido em 2025, somando R$ 148,5 milhões, ante R$ 217 milhões em 2024.
O Ebitda (sigla para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), somou R$ 915,3 milhões, alta de 0,9% frente aos R$ 907,3 milhões de 2024.
“O período reforça a resiliência do nosso modelo de negócios e a consistência da nossa gestão operacional, mesmo diante desse cenário desafiador de preços de mercado”, resumiram Luciano Quartiero, diretor presidente da companhia, e Flavio Vargas, diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, em mensagem com os resultados.
A queda da receita líquida foi determinante para o resultado mais contido da Camil em 2025. O indicador passou de R$ 12,2 milhões em 2024 para R$ 11,1 milhões em 2025, queda de 9,4% em um ano.
Isso mesmo com um aumento geral do volume de vendas, que cresceu 6,7% no ano, somando 2,2 milhões de toneladas, crescimento que foi puxado principalmente pelo mercado externo, ainda que limitado pelas dificuldades da operação do mercado interno.
A companhia divide sua operação entre linha de alto giro, que reúne o arroz Camil e o açúcar União, linha de alto valor, que abrange categorias de arroz e açúcar premium, além das marcas Coqueiro, Mabel e Amália, e segmento internacional.
Dos três braços, o fraco desempenho da linha de alto giro, segmento de maior nível de vendas da empresa, foi determinante para o resultado enfraquecido da Camil no ano.
Os volumes de vendas do segmento recuaram 4,1% no período, encerrando o ano em 1,2 milhão de toneladas, refletindo principalmente a menor comercialização de açúcar, apesar da expansão nas vendas de grãos ter compensado parte dessa queda.
Os preços da área, por sua vez, tiveram desempenho também negativo: a cotação do arroz despencou 41% ao longo de 2025, encerrando o ano em R$ 64,51 por saca. Já o açúcar acumulou queda de 27,2%, fechando o período cotado a R$ 111,21 por saca.
Já na linha de produtos de alto valor agregado, o cenário foi mais favorável. Ainda assim, como a divisão tem participação menor em relação às demais operações, o desempenho positivo não foi suficiente para compensar os resultados mais fracos da linha de alto giro.
No ano, o volume de vendas da linha de alto valor cresceu 2,8%, totalizando 198,6 mil toneladas. O preço líquido também deu uma boa contribuição e subiu 12,5% no ano.
De acordo com a Camil, o crescimento foi impulsionado por pescados, café e biscoitos, ainda que parcialmente compensado por redução em massas.
No segmento internacional, apesar de uma queda de 5,3% na receita líquida, que somou R$ 3,1 bilhões no ano, o aumento do volume de vendas contribuiu para evitar queda maior.
Houve incremento de 30,6% no montante comercializado pela companhia no exterior, puxado impulsionado principalmente por maior volume no Uruguai, também com contribuição no Paraguai, ainda que parcialmente compensado por volumes menores em outros países onde a companhia mantém presença.
Despesas
No fechamento de 2025, a companhia somou dívida líquida de R$ 2,9 bilhões. A alavancagem da companhia ficou em 3,24 vezes o Ebitda, abaixo do covenant de 4 vezes.
Um sinal de alerta veio do aumento das despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A) da companhia, que subiram 7,5%, somando R$ 1,9 bilhão, equivalente a 17,4% da receita.
No detalhamento dos números, é possível verificar que as despesas com vendas cresceram 4,3% no ano, somando R$ 1,2 bilhão, puxadas principalmente por maiores despesas com vendas no Uruguai e no Peru, ainda que atenuadas por queda residual de 0,3% no Brasil, sob efeito de menor investimentos em propagandas.
Já as despesas gerais e administrativas tiveram alta maior, de 13,6% no ano, somando R$ 692,3 milhões, em função da elevação de despesas com pessoal, segundo a companhia, “em especial as relacionadas ao programa de participação nos resultados e salários, consultorias, manutenção de sistemas de TI e incremento nas despesas relacionadas a provisões jurídica.”
O aumento das despesas chamou a atenção do banco BTG Pactual, que demonstrou preocupação com a alta do indicador.
"Já esperávamos que as despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A) impactassem as margens até certo ponto, visto que a queda nos preços das commodities naturalmente leva à redução da alavancagem operacional", disse a instituição em relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
"No entanto, o aumento nominal nas despesas com pessoal ainda não está claro para nós. Em outras empresas, observamos movimentos semelhantes relacionados à remuneração variável após anos de forte desempenho", emendou o banco.
Ainda assim, o banco destacou que o nível de volume de vendas foi uma "surpresa positiva" tanto no Brasil quanto no exterior.
Para este ano, o banco projeta que a Camil tenha uma receita de R$ 11,3 bilhões, o que representaria, portanto, leve alta de 1,3% em relação ao resultado do ano passado.
A recomendação do BTG para a ação é de compra, com preço alvo de R$ 10.
Os investidores reagiram mal ao resultado no início do pregão desta sexta-feira, dia 8 de maio, na B3. Às 10h30, as ações apresentavam queda de 3,64%, cotadas a R$ 6,04 cada. No ano, no entanto, a Camil ainda apresenta alta de 10,36%.
Resumo
- Camil registrou queda de 31,6% em seu lucro líquido em 2025, somando R$ 148,5 milhões
- Resultado foi impactado negativamente por quedas de preços no Brasil e de volumes de vendas
- Despesas gerais subiram 7,5% e pressionaram margens