A transição energética deixou de ser uma ambição distante para se tornar um vetor de competitividade, além de um imperativo climático. O mundo busca soluções limpas e escaláveis. O Brasil ocupa uma posição privilegiada com o etanol, um ativo industrial e diplomático ancorado em uma economia circular madura e testada em larga escala.

Produzido a partir da biomassa renovável, o biocombustível reúne atributos raros: alta densidade energética, baixa pegada de carbono e a capacidade de reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em relação aos combustíveis fósseis.

Falta, porém, o passo decisivo: uma estratégia nacional integrada e de longo prazo para converter vantagem em liderança global, via exportação, inovação e diplomacia energética.

Do Proálcool (1975) à Lei do Combustível do Futuro (2024), construímos bases institucionais e técnicas sólidas. Passamos de programa emergencial a um sistema energético confiável. O parque industrial brasileiro tem hoje 430 usinas, produz 37 bilhões de litros/ano de etanol, 18 mil GWh de bioeletricidade e potencial enorme para biometano. É circularidade plena: bagaço vira energia; vinhaça e torta de filtro, biofertilizantes – reduzindo a dependência de insumos importados.

Inclusive, a Lei do Combustível do Futuro dá ao Brasil uma oportunidade rara: usar a regulação para acelerar a descarbonização dos transportes e, ao mesmo tempo, criar previsibilidade de demanda para os novos combustíveis.

Um plano nacional urge, coordenando governo, instituições de fomento e setor privado. O etanol brasileiro precisa ser visto como solução rastreável de descarbonização, além de produto.

No mercado externo, as perspectivas são crescentes. Países com dificuldade de eletrificar suas frotas avançam na adoção do etanol como solução imediata. O Japão projeta demanda de 8,8 milhões de m³ e elevar a mistura na gasolina para 10% até 2030, com meta de 20% em 2040. Índia, Indonésia e Vietnã seguem um caminho semelhante.

É justamente nesses mercados, especialmente no Sudeste Asiático, que o Brasil precisa estar mais presente: na discussão de mandatos de mistura, na construção de padrões e na transferência da tecnologia que já dominamos, da integração campo-indústria à logística e ao arcabouço regulatório.

Sem essa atuação, corremos o risco de ver outros países definirem as regras, ocuparem o espaço e capturarem o valor da cadeia, enquanto o Brasil fica restrito ao papel de fornecedor de produto.

O etanol também se consolida como matéria-prima estratégica para o SAF e alternativa ao transporte marítimo, com a Maersk já testando misturas de até 50% de etanol em combustíveis navais.

Enquanto o Brasil já opera com misturas elevadas de etanol e possui autorização técnica para avançar ainda mais, grandes economias permanecem limitadas a patamares bem inferiores, o que amplia a janela para o país exportar não só combustível, mas um pacote completo: tecnologia, regulação e desenho de mercado capaz de garantir demanda para rotas de descarbonização hoje em disputa.

Converter esse potencial em liderança global exige enfrentar gargalos históricos: falta de regulação estável contra subsídios à fósseis; logística deficiente; diplomacia para acordos estratégicos e normas de carbono.

Temos a chance de fazer com os biocombustíveis o que a Embraer fez na aviação: transformar engenharia, escala e competência acumulada em liderança global baseada em tecnologia e não apenas em volume. Ser a “Embraer dos biocombustíveis” significa exportar a solução brasileira de descarbonização mais barata, junto com a inteligência industrial que integra agricultura, energia e manufatura.

O etanol é o “novo petróleo” porque pode sustentar a reindustrialização verde: limpa, competitiva e justa. O desafio é construir uma estratégia nacional que converta essa força produtiva em liderança geopolítica reconhecida.

Bruno Serapião, engenheiro pelo ITA com MBA pelo INSEAD, é CEO da Atvos.