Depois de testar, medir e validar no campo, a SLC decidiu acelerar nos ares - numa aeronave elétrica e sem piloto. O que começou como piloto em uma fazenda no Mato Grosso agora vira estratégia de escala: mais aeronaves autônomas, mais área coberta e um novo desenho para a pulverização no campo.
A companhia ampliou o uso das aeronaves autônomas Pelican 2, da americana Pyka, após os resultados obtidos na Fazenda Paiaguás (MT), e oficializou um novo pedido para novos aviões.
A nova remessa, que não teve a quantidade revelada, fará a empresa utilizar a tecnologia em novas fazendas em novos estados, como em Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão, com expectativa de operação plena até o fim da safra 2025/2026.
A decisão marca a transição do projeto-piloto para uma fase de escala. Na safra 2024/2025, o equipamento operou em 10,4 mil hectares na Paiaguás. Já na temporada 2025/2026, a área na mesma unidade já ultrapassa 20 mil hectares. Considerando todas as fazendas que ganharão a tecnologia, a expectativa da companhia é atingir cerca de 145 mil hectares pulverizados até o fim do ciclo.
Segundo Ronei Sana, gerente de Agricultura Digital da SLC, o drone tem atuado não como um substituto das estruturas já existentes , mas como um reforço estratégico.
“A gente trata o Pelican como uma ferramenta complementar. Ele não substitui o pulverizador terrestre nem o avião agrícola, mas permite fazer aplicações em momentos em que esses equipamentos não conseguem operar, especialmente à noite ou em períodos de excesso de chuva”, afirma.
A possibilidade de operar no período noturno foi determinante para a expansão da frota. Enquanto aviões agrícolas convencionais não voam à noite, o Pelican 2 atua em janelas com menor vento e menor evaporação, o que favorece especialmente inseticidas e bioinseticidas.
“O que mais nos chamou atenção foi a capacidade de aplicar à noite com a mesma qualidade dos demais equipamentos. Isso abre uma janela mais adequada para determinados alvos, principalmente insetos e produtos biológicos”, diz Sana.
Em períodos de chuva intensa, como os registrados neste início de ano em Mato Grosso, o drone permite à empresa amplia a flexibilidade operacional ao evitar o risco de atolamento dos pulverizadores terrestres.
Segundo Sana, o foco agora é torná-lo competitivo em custo por hectare frente às alternativas tradicionais.
“No primeiro momento, precisávamos comprovar que funcionava tecnicamente. Agora o desafio é colocá-lo em condição de competir economicamente com o avião agrícola e com o pulverizador terrestre. A escala está permitindo chegar nesses números”, afirma o executivo.
O Pelican 2 é um equipamento elétrico e autônomo, sem piloto embarcado. Segundo a empresa, isso reduz riscos operacionais e elimina o uso direto de combustíveis fósseis na aplicação. A aeronave utiliza baterias recarregadas por energia da rede elétrica, predominantemente de matriz hidrelétrica no Brasil.
Na safra 2024/2025, a operação na Paiaguás reduziu o consumo de 9,37 mil litros de combustível e evitou a emissão de 23,8 toneladas de CO₂ (dióxido de carbono) equivalente, nos cálculos da própria SLC.
Na safra atual, a economia acumulada supera 18 mil litros de querosene e 45,6 toneladas de CO₂e. A redução média estimada é de 2,28 kg de CO₂ equivalente por hectare.
Considerando a área prevista de operação para 2025/2026, a SLC projeta evitar cerca de 330 toneladas de CO₂e no período, um número que pode variar conforme o manejo agronômico ao longo da safra.
Uma reportagem recente do site Capital Reset citou que a Pyka já vendeu 68 aeronaves no país, garantindo nove clientes novos. A projeção do diretor comercial da empresa, Volker Fabian, é operar numa faixa entre 200 e 300 drones por ano no Brasil a partir de 2030.
O AgFeed foi o primeiro veículo de cobertura do agronegócio no Brasil a destrinchar a estratégia da Pyka por aqui, ainda em 2023, antes do contrato com a SLC e antes mesmo de vender seu primeiro produto no País.
De lá para cá, além da parceria com a maior operadora de terras do Brasil, captou US$ 40 milhões lá fora e fechou uma parceria com a Synerjet para estreitar a relação com o mercado nacional.
Dados que não saem voando
Além da aplicação em si, a SLC vem estruturando uma camada de gestão sobre as operações aéreas. O sistema do Pelican combina planejamento prévio dos obstáculos físicos com definição de rotas otimizadas para cada talhão. Durante o voo, sensores permitem identificar objetos não mapeados previamente.
Internamente, a SLC desenvolveu um sistema próprio para cruzar dados de clima, rota e parâmetros operacionais, avaliando se a aplicação ocorreu dentro das condições ideais.
“Hoje conseguimos decodificar as informações do drone e comparar com dados ambientais. Se houver oportunidade de melhoria, conseguimos ajustar o processo. Isso transforma a pulverização em uma ferramenta de gestão, não apenas de aplicação”, afirma Sana.
Em termos de capacidade, cada equipamento pode operar acima de 80 mil hectares por ano em regime de dois turnos (dia e noite). A companhia, por enquanto, optou por manter um turno por questões operacionais.
“A tecnologia já mostrou que entrega qualidade de aplicação similar à dos aviões tradicionais. O ganho está na otimização da operação e na flexibilidade que ela nos dá”, diz o gerente.
Na prática, o Pelican tem sido usado prioritariamente para aplicação de inseticidas, químicos ou biológicos, mas já foi validado também para fungicidas, fertilizantes foliares e reguladores de crescimento, no caso do algodão.
A única restrição é para herbicidas, pelas mesmas limitações regulatórias da aviação agrícola convencional, além de produtos de alta densidade que comprometam o peso na cauda da aeronave. Hoje, o equipamento opera nas três principais culturas da SLC: soja (primeira safra), algodão (primeira e segunda safra) e milho segunda safra.
Resumo
- A SLC Agrícola ampliou o uso do Pelican 2, da Pyka, e planeja pulverizar cerca de 145 mil hectares na safra 2025/26, expandindo a tecnologia para novas fazendas em MT, MS, BA e MA
- Após operar 10,4 mil hectares em 2024/25 e mais de 20 mil na safra atual na Fazenda Paiaguás, a companhia migra do piloto para a escala, usando o drone como complemento ao pulverizador terrestre e ao avião agrícola, com destaque para aplicações noturnas
- Além do ganho operacional, a SLC estima reduzir até 330 toneladas de CO₂e na safra, com economia de combustível fóssil e uso de aeronaves elétricas, reforçando a agenda de eficiência e sustentabilidade no campo