A ideia nasceu de uma mistura pouco comum: entomologia, inteligência artificial e um olhar quase obsessivo sobre o comportamento dos insetos no campo. Agora, alguns anos depois, a ideia começa a dar seus primeiros passos fora do laboratório.

A Fox Agritech, startup criada em Sinop (MT), desenvolveu uma armadilha que utiliza ondas eletromagnéticas para monitorar pragas agrícolas, com foco principal no combate do bicudo-do-algodoeiro, uma das principais dores da cotonicultura brasileira, responsável por prejuízos bilionários roda safra.

Ainda em fase de validação, a tecnologia começa a sair do papel com testes em campo e a perspectiva de que sejam investidos cerca de R$ 1,2 milhão até de fato chegar ao mercado de forma comercial, algo previsto para daqui menos de dois anos.

Por trás da iniciativa está o técnico agrícola Kennedy Gnoatto, de apenas 25 anos. Depois de uma infância difícil, chegando a morar em colégios internos durante a adolescência, Gnoatto se formou como técnico agrícola e foi para o mercado.

Foi quando ele trabalhava na Solinftec, com desenvolvimento agronômico e aplicações de machine learning no campo, que o conceito da Fox surgiu.

“Comecei a estudar padrões comportamentais de insetos, como eles enxergam, como identificam uma cultura, e entender porque atacam soja e não algodão, por exemplo”, disse ao AgFeed.

A partir dessa base, o projeto evoluiu para uma frente mais específica: entender como ondas eletromagnéticas poderiam ser usadas para atrair - e, ao mesmo tempo, filtrar - determinados insetos.

“Nosso desafio foi ajustar a tecnologia para atrair a praga sem impactar inimigos naturais, como abelhas e joaninhas”, explicou.

A solução combina LEDs com frequências específicas, ajustadas automaticamente com base em dados ambientais, e um sistema de visão computacional embarcado.

Ao capturar o inseto, a armadilha identifica a espécie, registra condições como temperatura e umidade e envia as informações para um aplicativo, que organiza os dados para o produtor.

A proposta é simples na teoria: transformar a armadilha em uma espécie de “sensor” distribuído pela fazenda, reduzindo a necessidade de monitoramento manual e antecipando decisões de controle.

A empresa possui uma solução para mariposas, chamada de Fox Vision, e para o bicudo, batizada de Weevil Hault.

“Hoje, um técnico pode levar semanas para voltar ao mesmo talhão. Quando retorna, muitas vezes a infestação já explodiu. A ideia é que a armadilha seja o olho do produtor no campo”, disse Gnoatto.

Na prática, porém, a startup ainda está num estágio inicial. Os testes realizados até agora foram majoritariamente em ambiente controlado e 2026 marcou o início das validações em campo.

A Fox já instalou uma área piloto em Sinop, com cerca de 40 hectares, e prepara novas frentes de teste na Bahia, com 140 hectares em Luís Eduardo Magalhães, além de negociações em andamento no Mato Grosso do Sul. Um acordo recente com a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) também deve ajudar a ampliar a base de dados da solução.

Mesmo assim, o caminho até o mercado ainda exige mais capital. Desde a fundação, entre 2021 e 2022, a startup consumiu cerca de R$ 600 mil em recursos próprios do fundador e de um investidor-anjo, um produtor rural de Sinop. Além disso, a agtech foi acelerada pela Cyklo, aceleradora de startups com foco no Matopiba.

Agora, busca dobrar esse montante para sair da fase de prova de conceito e estruturar a operação comercial. “Hoje temos recurso para validar, mas não para escalar. Esse investimento é para transformar o que temos em produto”, afirmou.

A meta é iniciar as vendas apenas nos próximos anos, com foco inicial no Mato Grosso e no oeste da Bahia, regiões onde a cotonicultura é mais intensiva e, segundo Gnoatto, aberta à adoção de novas tecnologias.

Os cálculos da própria empresa mostram que a solução tem potencial de reduzir até 15% as aplicações de inseticidas e, além disso, diminuir significativamente a necessidade de visitas técnicas ao campo.

Ao mesmo tempo, a Fox tenta se posicionar em um espaço já ocupado por empresas maiores, que trabalham com armadilhas inteligentes com outras tecnologias, como feromônios, e monitoramento remoto, ainda que com abordagens tecnológicas diferentes.

A ambição, no entanto, é maior: a startup quer atuar não apenas no monitoramento, mas também na previsão de surtos de pragas, ampliando o uso de dados dentro da fazenda.

Resumo

  • Startup de Sinop criou armadilha com ondas eletromagnéticas para monitorar e identificar pragas no campo
  • Solução mira o bicudo do algodão e combina LEDs, IA e visão computacional para antecipar surtos
  • Em fase de testes, Fox Agritech estima investimentos de R$ 1,2 milhão para escalar tecnologia e chegar ao mercado até 2027