A mudança foi discreta, mas repleta de significados. Sem que muitos percebessem, desde novembro passado o AL5 Bank incorporou, nos documentos e em sua marca, um sobrenome que antes vinha como um aposto, uma explicação.

“Antes a gente tinha que falar assim: ‘somos o AL5 Bank, o banco da Amaggi’. Hoje, o nosso nome comercial já é a AL5 Amaggi”, diz Rafael Alessi, CEO do banco controlado por um dos maiores grupos do agro brasileiro.

“Então, a gente já traz o nome da companhia. É uma associação super relevante”.

Mais que uma mudança de nome, trata-se de um movimento estratégico. Com apetite de crescer – e uma meta de atingir R$ 10 bilhões na carteira de crédito até 2030 –, a instituição entendeu que deixar mais explícita a relação com a família Maggi abre portas e cofres.

Alessi acredita que o novo nome facilita, por exemplo, no trabalho de captar recursos junto a investidores privados, uma parte relevante do trabalho da direção do banco. Ao associar o nome do banco a uma das maiores companhias agrícolas do País, ele espera estar gerando mais confiança a esses investidores de que os recursos serão bem aplicados no financiamento do setor.

“Quando a gente distribui uma LCA nossa, por exemplo, e ela está diretamente relacionada à nossa aplicação no agro, o investidor sabe que está aportando em um título do banco da Amaggi, uma operação feita de acordo com o Manual do Crédito Rural”, diz.

“Para o mercado, isso dá uma sinalização bastante grande de que o banco tem lastro”.

O movimento coincide com a evolução da estratégia de crescimento do banco. Há pouco mais de um ano, em entrevista ao AgFeed no final de 2024, Alessi comemorava ter atingido a marca de R$ 1 bilhão em desembolsos para crédito no agro.

Sua meta, então, era dobrar esse número em dois anos, seguindo em busca dos R$ 10 bilhões ainda nesta década. No ano de 2025, o AL5 Amaggi cresceu, segundo o executivo cerca de 34%, “mesmo vindo de um período de maior desafio”, ou seja, de taxas altas e de restrição de crédito.

E precisaria manter esse ritmo para alcançar os objetivos estabelecidos no plano de negócios.

A associação com a Amaggi e seus diversos ramos de negócios, que somam mais de R$ 40 bilhões em receita, é fundamental na estratégia de crescimento. A expansão geográfica da instituição, por exemplo, é feita aproveitando as estruturas existentes das filiais da empresa pelo País.

Assim, o que eram 11 escritórios do banco em 2024 agora são 16. Além do Mato Grosso, berço do grupo, o AL5 já tem atuação em Goiás, Minas Gerais, Rondônia e Paraná. No Pará, já há operações, mas ainda sem estrutura física. E agora mira para o entorno de Brasília, onde a Amaggi já está instalada.

“A gente utiliza muito a expertise da companhia que está em campo. Tem um exército que entrega insumos pra muitos produtores, milhares de produtores”, diz.

Mas além da rota física, o plano de crescimento também passa pelo aumento de oferta de serviços e de modalidades de operação de crédito.

Nesse momento, Alessi e equipe estão fazendo, por exemplo, as primeiras operações de emissões de CPR em dólar, que já estavam no road map desenhado por ele há um ano.

Por enquanto, são operações que têm servido para ajustar as estruturas do banco, inclusive tecnológicas, para que a solução passe a ocupar um lugar na prateleira da instituição dentro de alguns meses, quando se iniciarem os pedidos de crédito para a safra 2026/2027.

Segundo Alessi, a meta do AL5 Amaggi é desembolsar R$ 300 milhões através dessa modalidade na primeira safra.

O primeiro passo para viabilizá-las foi a redução dos custos de captação, em que até a mudança de nome contribuiu. “Fizemos a lição de casa”, afirma.

E continuam fazendo. Este ano o banco da família Maggi pretende buscar autorização para operar com funding do BNDES para linhas de investimento mais longas. “O apetite para o crescimento da carteira e todo o aprimoramento nos dão segurança para acessar esses recursos do BNDES para financiar investimento como agente financeiro”.

Mas era preciso também dar agilidade ao processo. Para isso, de acordo com o executivo, foi necessário conjugar duas estruturas. Primeiro, o banco lançou o que chama de CPR-Teto (e que outros bancos denominam CPR Guarda-chuva), através do qual se formaliza uma garantia.

“Essa garantia, para nós, pode ser um imóvel. Ou, como a gente é uma instituição financeira de trade, conseguimos mitigar muito o risco em estruturas onde a gente enxerga a riqueza do produtor rural, que é a capacidade produtiva dele de gerar commodity, que tem valor e liquidez”, afirma.

Com essa garantia formalizada, o banco “pendura” a CPR, que pode ou não ser em dólar. “A gente tem que equalizar toda a necessidade que ele tem, entender onde nós vamos participar do custeio, com qual proporção, formalizar as garantias”.

Alessi acredita no sucesso da operação em moeda estrangeira porque boa parte do negócio e do próprio cotidiano do produtor já está dolarizado, seja na aquisição dos insumos, seja na negociação da sua produção.

Entretanto, segundo ele, são poucos os que equacionam sua estrutura financeira de olho nisso, gerando, muitas vezes, um descasamento cambial, com o passivo em reais.

“A ideia aqui é que a gente possa trazer essa complexidade para nós, para a instituição, de forma que a gente possa entregar, então, uma solução que gere principalmente proteção, porque também se ele trava o custo e a venda também, ele já está basicamente equalizado o financiamento. E a taxa de juros aí fica bem menor em relação à taxa em real”.

Traduzindo em números, Alessi diz que atualmente o mercado pratica taxas médias, para recursos livres, entre 23% e 25%, conforme o perfil do produtor.

Para as operações em dólar, as taxas ficariam em 10% a 13%, mais a variação do dólar, que seria “hedgeada” pela estrutura financeira de custos e receita também dolarizados.

“Assim, do ponto de vista financeiro, tendo presente o hedge natural, a estrutura em dólar pode ser bastante vantajosa, considerando que a receita do produtor também caminha nessa dinâmica de variação do dólar”, analisa.

O desafio agora é transmitir essa mensagem ao produtor. E mesmo nisso o sobrenome Amaggi pode ser um trunfo do AL5.

“Pelo nosso perfil e complementando o que uma grande trade faz, a gente entende que a gente pode ajudar a democratizar esse tipo de estrutura”, afirma Alessi.

Segundo ele, ao discutir internamente as possíveis soluções para o banco, a experiência da empresa como produtora rural ajuda a identificar as dores e as necessidades dos agricultores.

Nesse sentido, uma das percepções que se tornou diretriz na atuação do banco foi a de que o processo de crédito precisava ser mais digital, mais ágil e menos burocratizado, buscando utilizar ao máximo dados não estruturados e demandando menos o produtor rural em relação a papel.

Assim, o AL5 nasceu com o objetivo de ser uma instituição apoiada em uma plataforma tecnológica, conectada aos sistemas do grupo Amaggi, de forma a se apoiar no relacionamento do grupo com os produtores não apenas para prospectar clientes, mas para fazer análises de crédito e risco mais precisas.

“A gente tem muito cuidado com o capital, não só dos acionistas, mas dos investidores também”, diz Alessi. “Tem que ser um modelo efetivamente viável, então a gente trabalhou muito para melhorar os processos e, agora, para avançar nossas soluções”.

O CEO do AL5 Amaggi busca ser visto como um banco com características únicas em um ambiente dominado por grandes instituições. Hoje, segundo ele, os principais bancos provados nacionais têm procurado ampliar seu espaço no agro através da captura de mais clientes, mas sem amentar sua exposição aos clientes que já possuem.

Alessi afirma que há “uma seletividade natural de um ambiente que vem estressado, com margens mais apertadas, com mais risco climático, um ambiente que ficou mais hostil para aquele que veio a passeio”.

Já o AL5, nascido dentro do agronegócio, consegue, na sua visão, ser “mais consistente nas suas análises para poder apoiar o produtor na medida que você tem capacidade de apoiar, mas recuperar os capitais e poder apoiar de novo”.

Resumo

  • Banco da família Maggi adota marca AL5 Amaggi, reforça lastro e cresce 34% em 2025
  • Instituição Inicia operações de CPR em dólar, com juros que devem variar entre 10% a 13%, além da variação cambial, mirando R$ 300 mi na safra 2026/2027
  • Meta é alcançar R$ 10 bilhões em carteira até 2030, buscando funding mais barato, inclusive acesso a recursos de bancos de fomento como o BNDES