Ilhpeus (BA) - O sobrenome Calmon de Sá foi, durante muitas décadas, sinônimo de poder econômico e político na Bahia. Com quase 90 anos, o empresário Ângelo Calmon de Sá chegou a liderar um dos maiores bancos do País, o Econômico, que sofreu intervenção do Banco Central nos anos 1990, e foi ministro de Indústria e Comércio durante o regime militar.

Também foi figura de proa na cacauicultura nacional. Não só investiu na produção de cacau, como também abriu as portas de suas fazendas para que pesquisadores da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) para estudos e testes de novas variedades que fossem resistentes à vassoura de bruxa, doença que praticamente devastou a atividade na Bahia no fim do século passado.

Ao longo dos anos, foram testadas ali mais de 800 variedades de cacau, das quais quatro foram selecionadas. O resultado desse trabalho teve e tem impacto ainda hoje na produção brasileira de cacau. A variedade PS1319, por exemplo, uma das mais cultivadas no país, nasceu dentro das porteiras da Fazenda Porto Seguro, pertencente à família.

"Meu pai, assim como outros produtores que investiram nessa busca por novas variedades nunca pensaram em registrar ou lucrar com isso. O objetivo era encontrar um caminho para sanar as perdas causadas pela vassoura na Bahia e recuperar a produção do estado", afirma a médica veterinária Claudia Calmon de Sá, filha de Ângelo.

É dela hoje o rosto que personifica a Agrícola Cantagalo, grupo que reúne 14 fazendas produtoras de cacau e somam 1800 hectares. Desse total, 900 hectares são cultivados com Sistema Agroflorestal (SAF) e o restante no sistema Cabruca, tradicional na Bahia.

Nos corredores da ExpoCacau, evento que aconteceu esta semana em Ilhéus, berço da cacauicultura brasileira, a baiana de fala tranquila e sorriso gentil era constantemente abordada por admiradores. Eram produtores, técnicos e profissionais do setor que pediam uma foto ou paravam para parabenizá-la pelo trabalho que desenvolve no cacau.

No mercado de grãos, a área cultivada seria considerada pequena, mas para o cacau, cuja média plantada por produtores é de 5 hectares, com 95% da produção feita por agricultores familiares, o negócio da Cantagalo é uma potência.

Tudo começou há cerca de 60 anos, quando o banqueiro adquiriu a primeira fazenda. Atualmente, a produtividade média das áreas da Cantagalo está em torno de 45 arrobas por hectare.

No entanto, em algumas áreas de cabruca, Claudia conta que a produtividade chega a 100 arrobas por hectare e, com os investimentos constantes em manejo e tecnologia, a meta é dobrar a produtividade em até 3 anos.

Do total produzido, 10% é destinado ao mercado de cacau fino, comercializado com pequenas e grandes marcas de chocolates do mercado Bean to Bar, cujo valor pago pode ser até três vezes superior ao chamado cacau bulk, comercializado em grandes volumes para as moageiras. O cacau produzido na Cantagalo também é rastreado desde o campo.

O investimento no segmento de cacau de qualidade teve início em 2018, quando Claudia assumiu definitivamente a gestão das propriedades. De lá para cá, a Cantagalo se tornou referência nessa categoria, a ponto de ficar entre as 10 melhores amêndoas do Brasil em todos os seis concursos nacionais de qualidade do cacau realizados até hoje, sendo campeã em 2021 e 2024.

“Esses resultados nos deixam muito felizes, mostram que nosso trabalho está no caminho certo", diz.

Na Cantagalo, uma pequena parte desse cacau de excelência já foi exportado no passado e aos poucos o plano é retomar os embarques por meio de um parceiro. O destino é o porto de Roterdã, na Holanda, de onde segue para as chocolateiras instaladas na Europa.

Cacau a pleno sol

"Quando a gente olha a produtividade do cacau a pleno sol, cultivado em áreas não tradicionais, de 200, 300 arrobas por hectares, nosso volume é bem baixo ainda. Mas agora também iremos testar nossa produtividade a pleno sol", conta Claudia.

Para isso, ela conta que adquiriu 110 hectares no município de Barra, no oeste do estado, onde pretende iniciar o cultivo de cacau a pleno sol, com irrigação por pivô central já em 2026, em parceria com um primo que já faz o cultivo há algum tempo. “Também queremos fazer parte dessa novidade".

A região oeste da Bahia é uma das que mais vem recebendo novos investimentos de produtores de cacau. Muitos deles, com experiência na produção de outras commodities, começaram a produzir cacau a pleno sol, método que até pouco tempo era visto com desconfiança pelos produtores tradicionais.

A região está fora das áreas consideradas convencionais e tem se mostrado um novo pólo cacaueiro. Segundo levantamento da Embrapa, enquanto a média de produtividade das lavouras de cacau está em torno de 491 quilos por hectare, as áreas a pleno sol irrigadas podem alcançar uma média de até 3 mil quilos por hectare.

Com a alta dos preços do cacau nos últimos meses, novos investimentos estão acontecendo no cacau, principalmente de produtores de outras culturas, que plantam áreas maiores, como é o caso de Moisés Schmidt.

Em parceria com a Cargill, ele iniciou um plantio de 400 hectares de cacau a pleno sol, mas pretende chegar a 2 mil hectares com a planta até o próximo ano, investindo R$ 270 milhões.

Claudia Calmon de Sá não revela dados sobre investimentos ou faturamento, mas afirma que, em 2024, 60% da receita da Cantagalo foi investida em tecnologia e inovação, o que inclui também a parte de assistência técnica, renovação das áreas, adensamento e mecanização.

Atualmente, por conta das dificuldades do terreno acidentado nas regiões onde estão as fazendas, ela conta que é bastante difícil mecanizar as áreas. Por isso, ela explica que menos de 10% das áreas estão mecanizadas, mas almeja chegar a 40% nos próximos anos. "Se eu conseguir chegar nesse percentual já será uma grande vitória".

A importância da mecanização para o aumento da produtividade e eficiência foi, inclusive, o tema de sua fala durante a ExpoCacau.

Em uma plateia composta majoritariamente por pequenos produtores, vindos de diversas regiões, além de engenheiros agrônomos, técnicos, estudantes e representantes de diversas empresas, ela falou sobre como os investimentos em tecnologia serão cruciais para que o Brasil possa voltar a produzir mais cacau e chegar às tão sonhadas 400 mil toneladas, que devolveriam ao país a autossuficiência.

Para ela, o atual momento da cacauicultura, com preços mais elevados e o aumento de eventos no setor, em prol dessa retomada, são excelentes para que os produtores possam se recuperar e voltar a investir.

"Quando a vassoura chegou, muita gente quebrou, se suicidou, migrou. Foi algo que deixou marcas profundas em todos. Ver essa retomada, a maior remuneração aos produtores, me deixa muito feliz. Espero que os preços se mantenham firmes para que os produtores possam pagar suas dívidas e voltar a investir".

A retomada do investimento, é, aliás, ponto central para que a produção brasileira volte aos patamares dos tempos áureos do cacau. Outro desafio do setor é a falta de mão de obra, já que muitos processos do cacau, como a quebra e a colheita, ainda são manuais.

“O cacau ainda é uma cultura muito atrasada, que ficou para trás em termos de inovação. Agora, aos poucos, com esse novo momento do mercado, começamos a ver uma retomada dos investimentos e interesse de algumas empresas em fomentar soluções e projetos para o setor, explica Leonardo Sorice, outro produtor de cacaus finos que tem se destacado na retomada da produção de qualidade no Sul da Bahia.

No entanto, ele chama a atenção para a importância da continuidade dos investimentos, para que os produtores possam manter a saúde do negócio, mesmo quando o preço esteja desfavorável. “E para isso acontecer, investimentos em tecnologia, em manejo e inovação quando o preço está bom, são fundamentais", avalia.

Legado para o setor

“Ele sempre foi um visionário e por isso que a fazenda já era reconhecida por produzir um cacau de qualidade superior antes mesmo de iniciarmos os investimentos em cacau fino", relembra Claudia, quando fala do pai.

Esses investimentos na produção de cacau fino só tiveram início quando Claudia assumiu a propriedade. Logo que tomou à frente dos negócios, em 2019, ela conta que a pergunta que mais se fazia era "Qual é a diferença que vou fazer na gestão?"

Ela conta que seu ingresso na cacauicultura se deu em um momento de necessidade. Recém-divorciada de seu primeiro marido em 2008 e com quatro filhos para criar, ela se viu em busca de novas fontes de renda.

Foi então que resolveu conversar com o pai, na tentativa de encontrar nos negócios da família uma oportunidade para aumentar a renda diante da nova realidade. Na ocasião, o pai sugeriu que ela passasse a trabalhar na área administrativa do negócio.

"Por oito sofridos anos eu fiz esse trabalho, que não tinha nada a ver comigo. Fiquei lá até terminar de criar meus filhos", relembra.

Ainda assim, ela conta que esses anos no escritório foram importantes para que ela entendesse melhor do negócio. “Muito da gestora que eu sou hoje, do meu entendimento do que é a empresa, eu devo a esse período”

Na primeira oportunidade, ela deixou a área administrativa para mergulhar a fundo na parte produtiva do negócio. Aos poucos, passou a auxiliar o pai no dia a dia das propriedades.

Ela conta que na época, com mais de 80 anos, já era difícil para ele percorrer algumas áreas das fazendas, cujo terreno acidentado impossibilita o acesso de veículos. “A gente só chega andando ou montando", explica.

Claudia só assumiu a frente dos negócios de vez tempos depois, em 2019, quando o pai sofreu um infarto. Na ocasião, ele ficou um ano sem poder visitar as propriedades e a filha iniciou sua gestão, o que incluía investir na produção de cacau fino.

“Aí acho que ele começou a acreditar mais no meu trabalho. É difícil para um pai ver que o filho cresceu e é capaz de fazer o que ele faz".

A essa altura, a Cantagalo já era bastante conhecida por produzir cacau de qualidade tipo 1. "Tanto que as moageiras sempre pagaram um prêmio pelo nosso cacau", relembra.

Assim, ela conta que sua preocupação primária foi com as pessoas que trabalhavam na fazenda. "Meu pai sempre foi muito cuidadoso com a gestão, especialmente no cuidado com as pessoas. Acho que eu ampliei isso, olhei primeiro para as famílias, para o bem estar e o que precisávamos fazer para dar continuidade ao nosso legado. Sem cuidar das pessoas, a gente não chega a lugar algum".

O “herdeiro” de Odebrecht

Foi nesse caminho da produção de cacau de alta qualidade que Claudia conheceu o engenheiro agrícola e produtor Leonardo Sorice. O mineiro com expertise na produção de café, mergulhou na cacauicultura em meados de 2005, "por acaso” quando foi trabalhar ao lado de outro expoente baiano do mundo dos negócios, Norberto Odebrecht, nas fazendas que cultivavam o fruto na Bahia.

“Eu trabalhava na Netafim e fui fazer um projeto de irrigação em uma das fazendas. Até que ele me convidou para trabalhar com ele na fazenda que, à época, era modelo na produção de cacau", relembra.

Depois de 12 anos trabalhando ao lado do empresário e após a sua morte em 2014, Sorice acabou por adquirir duas das fazendas do falecido chefe quando a família decidiu vender as propriedades. As propriedades já foram vendidas, mas marcam o início da trajetória do mineiro como produtor de cacau.

Foi com o fundador daquela que já foi a maior construtora do Brasil que Sorice aprendeu sobre o cacau fino. “Ele falava sobre isso e produzia cacau de qualidade em uma época em que só se produzia cacau bulk, não existia qualidade e ele não se conformava com isso”.

O produtor conta que o antigo chefe, que virou um grande amigo, defendia a produção de cacau fino dizendo "nós temos que produzir o pouco para poucos que valorizam esse pouco".

Nesse caminho, eles encontraram o primeiro parceiro disposto a comprar esse "pouco": a Chocolate Du Jour, que hoje é sócia de Sorice na Fazenda Santa Luzia, em Ibirapitanga (BA).

Já a Fazenda Vitória foi adquirida em sociedade com outro parceiro e cultiva cacau e banana. Juntas, as propriedades somam 780 hectares, sendo 90 deles com cacau. A maior parte das áreas restantes é composta pela Mata Atlântica preservada.

Ele conta que quando adquiriu a primeira das duas fazendas, a produtividade média era de 17 arrobas por hectare, volume que está em 123 arrobas por hectare. Para os próximos anos, a meta é chegar a 160 arrobas. Do volume total, entre 25% e 30% é o cacau fino que se transforma nas barras vendidas pela Du Jour, que paga duas, até três vezes mais pelo cacau de qualidade.

A marca fundada em 1987 em São Paulo, é uma das pioneiras no movimento bean to bar e hoje conta com 12 lojas em regiões nobres da capital paulista, além do hospital Albert Einstein e unidades em Salvador, Goiânia e Rio de Janeiro.

"Para mim, mais do que a paixão, o cacau precisa ser viável economicamente, pagar as contas, ser lucrativo. E para isso é preciso investir em tecnologia, melhorias, profissionalização", avalia.

Ele conta que a demanda por cacau fino ainda é pequena. "Para fazer 100% de cacau fino seria preciso ter mil Du Jour, mas o mercado ainda é novo. Conforme o consumidor tenha acesso a esses produtos, a tendência é de que haja um crescimento", avalia.

“Além disso, a produção de cacau fino é complexa, porque exige protocolos rígidos, muito estudo e pesquisa e testes sensoriais constantes", explica. Diante da baixa demanda pelo produto fino, o cacau commodity ainda é produzido em maior volume. “É o que paga as contas", afirma.

Parte da estratégia de Sorice para aumentar a produtividade está no investimento constante em inovação em tecnologia. Assim com as fazendas da Cantagalo, as do produtor estão em áreas onde o terreno é acidentado, dificultando muito a mecanização. Para driblar o terreno, ele passou a utilizar drones para a pulverização.

Ele conta que investiu em outras frentes que estão trazendo bons resultados como a fertirrigação e uso de fertilizantes biológicos. "Como na região chove muito, a irrigação para nós é um veículo para levar os nutrientes necessários para a planta de forma mais eficaz, para levar a proteção contra pragas e doenças que a planta precisa", explica.

O fato de o mercado brasileiro de cacau fino ainda demandar volumes pequenos fez com que ambos os produtores olhassem também para o mercado internacional.

Sorice conta que antes de adquirir as fazendas da Odebrecht, o antigo proprietário já tinha iniciado a exportação de pequenas quantidades para países como Japão, França e Estados Unidos. “Agora estamos retomando contatos com esses antigos clientes para voltarmos a exportar".

Resumo

  • Filha do ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá, Claudia assumiu a Agrícola Cantagalo e a transformou em referência na produção de cacau fino no Sul da Bahia
  • Grupo investe em tecnologia, sistemas agroflorestais e mecanização, com meta de dobrar produtividade em até 3 anos
  • Expansão inclui cultivo a pleno sol no Oeste baiano e exportações de cacau de qualidade para a Europa

Produção de cacau em fazenda da Cantagalo