Daniel Dias, fundador e presidente do Conselho de Administração da AgriConnection, tem uma convicção de quem acompanha a indústria de agroquímicos desde dentro há mais de duas décadas: a presença chinesa no mercado brasileiro e global de defensivos está apenas no começo de uma trajetória que deve avançar do genérico para novas formulações, novas moléculas e novas patentes.]

"O chinês não vai ficar só no genérico", decretou ele, em entrevista ao SpeedCast Andav 2026, série produzida pelo AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso da Andav.

Na conversa, o executivo traçou um panorama histórico e analítico sobre como as companhias asiáticas se tornaram as grandes protagonistas da produção de agroquímicos — e por que esse movimento é irreversível.

Para Dias, o primeiro ponto a desfazer é a ideia de novidade. A presença chinesa no agro brasileiro, afirmou, remonta há mais de 30 anos, quando, segundo ele, era tratada como "um segredo das multinacionais, um segredo muito bem guardado".

"O agricultor, o revendedor e a cooperativa não tinham percepção de que aquele produto, no final, vinha da China", disse. "As multinacionais como um todo usavam desse artifício de comprar produtos da China, da Índia e vender como deles."

O que mudou, disse Dias, é que hoje está cada vez mais claro que, por trás da produção de agroquímicos, estavam empresas asiáticas que dominam, "com toda certeza, mais de 80% do mercado".

A história pessoal do executivo se confunde com essa cadeia. Depois de passar pela Dow, pela Manah e pela Bunge — de onde saiu após a fusão das empresas de fertilizantes —, Dias conta que decidiu ir atrás justamente da origem do famoso genérico.

"Eu queria entender o outro lado do mundo, de onde vinha o famoso genérico. Quem produzia genérico? Como funcionava a cadeia?", contou. Foi para a China pela primeira vez em 2002, com a intenção de ficar dez dias, e acabou ficando 45.

Na volta, tomou a decisão que moldou sua trajetória: abriria uma consultoria para aproximar o Brasil dos produtores asiáticos. De lá para cá, abriu cinco empresas no País, a mais recente delas a própria AgriConnection.

Sobre as críticas à qualidade dos produtos chineses, Dias foi categórico ao rebater o que considera uma tentativa de reserva de mercado. "Dizer que produto chinês tem problema de qualidade, isso é besteira", afirmou, recorrendo a analogias.

A primeira compara o movimento atual do mercado de insumos com o que ocorre na indústria automobilística.
"Os chineses estão tomando conta e por qualidade, qualidade e preço. Coisa que muitas vezes as multinacionais não nos davam. Nos davam preço caro e baixa qualidade. O chinês está botando alta qualidade e preço barato", afirmou

Para ilustrar o funcionamento dessa cadeia, o executivo contou uma história que costuma repetir: a de quem vai à China comprar canetas de brinde.

"Aí você fala, eu quero uma boa caneta. Quanto custa? E você acha que a caneta vai ser de graça. Aí ele te mostra a melhor caneta que ele tem e fala, essa caneta é um dólar. Aí você olha, mas é muito chique essa caneta. Você não tem uma caneta parecida com essa que custa mais barato?", narrou.

No desfecho, o comprador pede uma versão por dez centavos e, ao receber a mercadoria no Brasil, vê a mola da caneta pular para fora. "Aí sabe o que as pessoas falam? O produto chinês é vagabundo. Agora, quem é vagabundo? É quem vendeu ou quem comprou? Essa é a pergunta", provocou. "Na China, você tem o melhor e tem o pior. E aqui no Brasil, nós também temos o melhor e o pior."

O executivo assegurou que a AgriConnection busca justamente o melhor. "Os nossos fornecedores são os mesmos das multinacionais. Nós compramos os princípios ativos genéricos no mesmo lugar que as grandes multinacionais aqui no Brasil também compram", afirmou, antes de apontar o que realmente está por trás do movimento recente contra os produtos asiáticos.

"Eles (as multinacionais) estão perdendo o mercado. A AgriConnection, há 7 anos atrás, não existia. Hoje, nós já temos 2,5% do mercado. A Tecnomyl, que é mais velha que a gente, deve ter uns 3, 4% do mercado. Eles precisam fazer alguma coisa para segurar empresas como nós de crescer. E é, talvez, usar caminhos políticos para fazer reserva de mercado."

O potencial de crescimento dos chineses no Brasil, na visão de Dias, segue enorme — e a presença de executivos e empresas chinesas na Andav 2026 foi, para ele, a prova prática.

"Eles descobriram essa feira, você vai ver cada vez mais. Nós vamos ter mais chineses aqui", disse.

O executivo, porém, fez uma distinção importante: não se trata de um aumento do produto chinês em si, mas de uma transição de protagonismo. "O que vai haver, talvez, é uma transição das grandes multinacionais para empresas chinesas operando diretamente."

O exemplo é a fabricante de insumos chinesa Rainbow, que hoje tem presença na Europa e "assumiu a posição de uma multinacional de agroquímicos".

Dias reconhece, contudo, que muitos chineses ainda temem o mercado brasileiro. "Não é só saber vender, é saber receber também. A venda termina quando você recebe. Então, isso que segura muito ainda o chinês vir e arriscar", afirmou, ressaltando que a Rainbow está se arriscando, aprendendo "e vai se perpetuar no mercado".

Sobre a chegada de novas Rainbows, o executivo foi cauteloso. "Eu acho difícil. Nós estamos num momento de RJ, um momento de baixa rentabilidade para o agricultor. Eu acho que isso pode demorar um pouquinho mais", avaliou, apostando em outro caminho: as parcerias com empresas de acesso ao mercado.

Esse é o modelo da AgriConnection, cujo slogan é "The Market Access Company". "A gente percebeu que isso poderia ser um belo argumento, que é uma fraqueza dos chineses. Eles fazem síntese, fazem formulação, muitas vezes fazem registro, mas na hora de vender eles não conseguem. Então, a AgriConnection começou exatamente em cima da fraqueza deles", explicou.

"Empresas como a AgriConnection e outras que estão por aí ou poderão surgir poderão crescer exatamente nessa área de fazer uma parceria com o chinês, ou com o indiano, no sentido de dar espaço a eles a ocupar participação que as multinacionais estão perdendo."

Para explicar a próxima fase do avanço chinês — a migração do genérico para moléculas patenteadas —, Dias recorreu a outra analogia, desta vez doméstica, dos tempos em que vivia em uma república e não sabia sequer cozinhar.

"Como você está morando em república, você, por fome, frita o primeiro ovo. Depois você começa a fazer o macarrão. Daqui a pouco você está cozinhando até arroz. É a mesma coisa. O chinês vai pegando gosto", contou.

Foi o que ocorreu com a indústria química chinesa, que, segundo ele, começou fazendo um produto, passou a um segundo e "agora começa a se arriscar, e já são várias, a desenvolver novas moléculas".

E esse desfecho, na avaliação de Dias, foi em grande parte induzido pelas próprias multinacionais ocidentais. "As grandes corporações, por uma questão de proteção ambiental e por busca de maiores rentabilidades, acabaram buscando a Ásia, porque eles viram que a mão de obra era mais barata e que a legislação ambiental era mais frágil", disse.

"Como muitas vezes era difícil manter as operações nos seus próprios países, eles buscaram China e Índia e incentivaram esse pessoal a começar a produzir. Só que, por um lado, foi legal a estratégia, mas, por outro, você fez o quê? Você ensinou aquele republicano a fritar seu primeiro ovo, que depois fez o macarrão, depois fez o arroz."

O resultado, segundo ele, é que o chinês "pegou o gosto, começou a crescer, se desenvolver, produzir mais e mais barato, com mais qualidade, e isso tirou o mercado dessas moléculas da América, da Europa, e migrou totalmente para lá".

Dias não vê retorno nesse caminho. "O chinês é dedicado, é um trabalhador firme, não tem hora, não tem luz, enquanto a gente está dormindo, eles estão trabalhando ali", afirmou, para então resumir sua tese central: "Eu acho que o chinês não vai ficar só no genérico, não só em novas formulações, mas também em novas patentes, em novos mercados."

O executivo lembrou que a China já deposita mais patentes do que muitos países do primeiro mundo. As multinacionais, concluiu, seguirão tendo seu espaço, "sobretudo se elas voltarem a fazer aquilo que elas fizeram muito bem, que é desenvolver novas tecnologias, novos princípios ativos".

O recado, porém, foi direto: "A hora que eles param de desenvolver, o mercado vai em cima do genérico. Venceu a patente, o chinês está ali para fazer melhor e mais barato do que as próprias multinacionais um dia fizeram. As fábricas são de alta tecnologia, a capacidade de aprendizado do chinês é muito rápida, muito grande. Eles são craques. Enquanto o mercado não tiver novas soluções, novos produtos patenteados, o chinês vai crescer."