Paulo Mesquita, sócio-fundador da Riza Asset e gestor de agronegócios da maior gestora independente do setor, tem uma convicção sobre o financiamento ao agro brasileiro, mesmo em um momento de crédito restrito: o mercado de capitais segue aberto ao setor e, para quem quer operar no Brasil, não há como ignorar o peso do agronegócio.
"O agro é 30% do PIB do país", afirmou, em entrevista ao SpeedCast Andav 2026, iniciativa do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso da Andav.
"Quem não quiser emprestar para o agro, não adianta estar no Brasil para emprestar dinheiro".
Com aproximadamente R$ 26 bilhões sob gestão, sendo cerca de R$ 5,5 bilhões dedicados ao agronegócio, a Riza Asset atua em 17 fundos, dos quais dois são abertos ao público de varejo — o Riza Terrax e o Riza Fiagro —, somando cerca de R$ 2,5 bilhões em ativos.
As especialidades da casa são o crédito direto ao produtor rural e a atuação em terras agrícolas, nicho em que a gestora foi pioneira.
Para Mesquita, o diagnóstico do momento atual não está nas margens do setor, e sim em fatores estruturais. "Na minha visão, são outros fatores que trazem o setor do agro para um momento mais difícil: a alavancagem do produtor, juros muito altos, insegurança jurídica", enumerou.
Ele argumenta que, olhando custos e preços de soja e milho em dólar, "nós não estamos falando de uma margem tão ruim". Assim, argumenta, o que pesa de fato é o ambiente de crédito.
A insegurança jurídica, em particular, aparece como um entrave que afeta todos os financiadores do setor. "Na hora que você faz um empréstimo, não recebe, não consegue executar uma garantia que, em teoria, seria uma garantia extrajudicial ou qualquer coisa do tipo, isso traz uma insegurança para o investidor, para o acionista do banco, para quem investe no setor", explicou.
O resultado, segundo ele, é um sentimento generalizado de maior conservadorismo na concessão de crédito, com reflexo direto na liquidez. "Eu vejo um mercado com pouca liquidez. Poucos players dispostos a fazer grandes cheques, a fazer operações mais longas, a fazer operações com garantias menos robustas."
Apesar do cenário adverso, o gestor olha para a frente com otimismo. "O pior, na minha visão, já passou. A gente ainda está na cauda do cometa de um momento mais estressado, mas eu vejo um cenário bem mais positivo para 2027, não só nos Fiagros, como no financiamento ao setor como um todo", afirmou.
Para ele, o ciclo de seca de crédito iniciado no segundo semestre de 2023 vem perdurando, mas já se observa uma reorganização do setor, com a saída de players excessivamente alavancados e uma conscientização maior do produtor.
"Não é hora de se alavancar tanto. Precisamos reorganizar as finanças para que a gente passe por esse ciclo de baixa", disse, concluindo que "é uma questão de ciclo" e que a expectativa para o próximo ano é "bem mais positiva".
Mesmo em meio às adversidades, a Riza conseguiu manter a expansão. A estratégia central do Terrax, principal fundo de agronegócio da casa, é o sales and leaseback — a gestora compra a terra do produtor e a arrenda de volta, com opção de recompra em oito a dez anos.
"Em um cenário em que você tem a falta do crédito tradicional, essa é uma opção que para o produtor faz muito sentido", destacou.
O modelo, segundo ele, ganhou tração justamente pela escassez de crédito. Nos últimos três anos, a gestora quase dobrou os ativos sob gestão e em 2026 a expansão deve ficar entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões — mais de 20% —, com o segundo semestre "muito acelerado".
Aos produtores e revendas que se veem encurralados pela restrição de crédito, Mesquita aconselha buscar alternativas no mercado de capitais. "Existem alternativas. Para o setor de distribuição, você tem estratégias através de Fiagros e Fidcs que são bastante acessíveis", afirmou, citando fundos estruturados com cotas subordinadas, mezanino e sênior, em que o investidor da cota sênior conta com um colchão de perdas iniciais e rentabilidade confortável — e os próprios bancos, em muitos casos, figuram como investidores dessas cotas.
Para o produtor, aponta, há ainda estratégias via recebíveis de comercialização e via ativo da terra. "O mercado está aberto para o agro", resumiu.
A AgriConnection, parceira do AgFeed na série e palco da entrevista, é citada pelo gestor como exemplo dessa via: a empresa opera Fiagros estruturados como Fidcs, inclusive com versão em dólar, a exemplo de grandes indústrias do setor.
"Cada um com seu parceiro, cada um numa estratégia de subordinação, de como levanta esse capital. O mercado de capitais dá opção para o setor para poder financiar o agro", concluiu.