Nos últimos meses, o setor de insumos agrícolas – e, por consequência, o produtor rural – viveu uma verdadeira “montanha russa”. Com altos e baixos e, os preços dos produtos fundamentais para o manejo de solo e a proteção de cultivos oscilaram de forma vertiginosa, deixando atônitos os diferentes elos das cadeias produtivas.

Evaldo Carvalho, diretor comercial da AgriConnection, viveu intensamente esse cenário de incertezas, que ele considerou "atípico até demais". Agora, acredita que os frios na barriga podem estar perto do fim, com uma volta do preço dos defensivos a patamares mais razoáveis. Mas ainda com alguma emoção no ar.

"Na conta do produtor e do distribuidor, o fertilizante ainda é o grande gargalo", apontou, em entrevista à série SpeedCast Andav 2026, iniciativa do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso da Andav, em São Paulo.

"Este ano a gente passou de tudo. Do começo do ano até agora já foi uma escalada de emoções do começo ao fim", analisou.

"Nós começamos o ano de uma forma. Depois, com as escaladas das guerras e as tensões no Oriente Médio, a gente teve uma escalada gigantesca também no preço de frete marítimo. A gente acabou tendo problemas sérios também com a distribuição de enxofre, que encareceu fertilizantes", afirmou.

A escalada dos conflitos globais elevou os custos de logística e de matérias-primas, com impacto direto sobre defensivos e fertilizantes. No caso dos defensivos, o executivo citou aumentos que chegaram a 40% e 50% em alguns produtos no início da guerra, especialmente os mais impactados pelo brometo.

Já o frete marítimo, apontado por ele como "a bola da vez", quintuplicou: um contêiner de 40 pés, que custava US$ 1.200 no começo do ano, chegou a US$ 6 mil com as mudanças nas rotas marítimas.

Diante da escalada, a orientação da AgriConnection aos clientes foi antecipar compras. "Para os nossos clientes a gente falou, tomem posições, porque a gente acreditava de fato que os preços iam subir", contou Carvalho.

"Teve alguns produtores, alguns clientes distribuidores, que de fato acreditaram, apostaram junto conosco e, no final do dia, a gente acabou vendo que de fato a gente estava certo."

Segundo ele, quem tomou posição no começo acabou acertando, embora a tendência agora seja de arrefecimento dos custos.

Apesar da melhora recente, Carvalho vê o fertilizante como o elo mais frágil da cadeia, sobretudo por causa do enxofre. "O enxofre ainda continua, ele sextuplicou do que era algum tempo atrás na média histórica, ele está seis vezes mais caro", disse.

"E a gente não vê diminuição, porque são alguns players muito importantes que estão hoje alocados naquela região que ainda, infelizmente, está passando por problemas no estreito de Ormuz."

O executivo ponderou que, no curto prazo, o fertilizante não deve ter uma queda tão acentuada quanto a observada nos defensivos.

"Hoje, na conta do produtor, do distribuidor, nos pacotes, a gente vê que o fertilizante ainda é o grande gargalo. É o maior gargalo, ainda é fertilizante", reforçou.

Redução no uso de insumos

O aperto na conta deve se refletir nas próximas safras. Carvalho projetou uma redução de 10% a 15% no uso de fertilizantes no Brasil, tanto pela decisão do produtor quanto por questões logísticas.

"O pessoal que tem reserva no solo, que há muitos anos vem fazendo adubação e a correção necessária, falou: esse ano eu vou tentar usufruir do colchão, da gordura que eu criei ao longo dos anos", explicou.

Além da redução voluntária, o executivo apontou um risco logístico: "Como a tomada de decisão esse ano foi muito lenta e muito tardia, talvez o produtor até queira, ali na boca da safra, aplicar o fertilizante, mas não vai ter produto disponível no tempo necessário para ele poder fazer a aplicação. Então, a gente vai ver esse mercado enxugar bastante."

Já no caso dos defensivos, Carvalho avalia que os produtores fizeram pacotes de insumos "bem justinhos", deixando de comprar aplicações extras que antes serviam como margem de segurança.

Para a AgriConnection, o cenário de aperto abre oportunidades. Segundo Carvalho, para empresas que atuam no mercado de produtos pós-patente, "quando o ano está mais complicado, um pouco mais apertado em termos de margens e a conta do produtor começa a apertar, são anos bons". Isso porque, nesses momentos, o produtor passa a buscar alternativas para reduzir o custo de produção.

Segundo ele, a AgriConnection "nasceu dessa dor", de conectar quem produz a quem consome. "É pegar os chineses, os indianos, grandes fábricas, é de fato quem produz o produto e trazer aqui para os distribuidores, cooperativas, nossos clientes, produto de qualidade por um preço mais ajustado", disse.

Apesar de o mercado como um todo encolher neste ano, a companhia espera crescer de 10% a 12%, de acordo com o diretor.

Perspectivas para o próximo ano

Para 2026/2027, Carvalho se mostra cautelosamente otimista. "O agro tem ciclos de 3 a 5 anos. A gente está no quarto ano de um ciclo de baixa. Então, há tendência que comece a melhorar", afirmou, projetando melhora nos preços das commodities a partir de meados do próximo ano.

"O fertilizante, eu acho que deve se acomodar. O defensivo já está acomodado. Então eu não vejo o custo de produção aumentando, mas vejo sim uma melhora no preço das commodities agrícolas, que vai, de fato, melhorar bastante para o produtor na ponta."