O centenário grupo Votorantim foi diversificando atividades ao longo dos anos, dos tecidos à construção civil, passando pelo setor financeiro e hoje com destaque em diferentes segmentos empresariais do Brasil.

E se o País se destaca pelo agronegócio, as demandas do campo também viraram foco do grupo no decorrer dessa história. O agro veio quase como uma consequência de uma das fortalezas da empresa, a Votorantim Cimentos.

“Em 1977, percebe-se que a gente tinha um calcário em uma das unidades, que não era bom para fazer cimento, porque ele tinha um teor de magnésio mais alto. Mas o pessoal percebe que era um calcário com teor importante para a aplicação agrícola, para a questão agronômica de correção do solo”, contou Bruno Marin, executivo que atua há mais de 18 anos na Votorantim Cimentos, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Marin assumiu no início do ano um novo desafio na empresa: é o gerente-geral da Viter, unidade de negócios “agro” da companhia e que já ostenta a condição de líder no mercado de calcário agrícola.

A “descoberta” do final dos anos 70 virou mais um negócio para o grupo, que no começo era denominado apenas de “insumos agrícolas”. O solo brasileiro, na maioria, tem um nível alto de acidez, o que prejudica a absorção de nutrientes, como o nitrogênio, fósforo e potássio. Na época, a agricultura expandia para o Cerrado e a demanda pelo calcário para fazer essa correção, não parou de crescer.

O nome Viter foi criado só em 2020, quando a Votorantim viu oportunidades para ir além do calcário e passou a ter foco na “mistura”, ou seja, na combinação do produto com outros nutrientes que poderiam ser vendidos como fertilizantes.

Isso ocorre porque o calcário tem a função de correção de solo, mas também tem uma “segunda pegada”, como disse Marin, que é a nutrição, ao oferecer cálcio e magnésio, principalmente, macronutrientes importantes para a agricultura.

“Com a mistura a gente oferece cálcio, magnésio e enxofre. Então ali a gente tem um fertilizante mineral misto. O óxido (outra linha de produtos da empresa) tem uma pegada muito parecida com o calcário, que é, em primeiro lugar, correção e, em segundo lugar, nutrição”, explicou.

Nesta lógica, a empresa está anunciando um novo ajuste estratégico. “Agora, em 2026, já amadurecendo toda a nossa estratégia, entendendo onde a gente poderia chegar, a gente observou que uma das nossas fortalezas é o acesso ao cálcio e magnésio e enxofre, que são nutrientes super importantes para as plantas”, explicou.

O portfólio da empresa já vinha incluindo soluções que combinavam alguns produtos de nutrição, mas aplicados no solo.

Desde maio, porém, dois novos lançamentos passaram a ser comercializados para aplicação via foliar, chamados Adapte e Maximize. Houve também uma revisão das marcas, com nomes que buscam deixar mais claro a aplicação de cada produto. Apenas uma marca tradicional – criada em 1977, o calcário Itaú – foi mantida.

Crescimento nas vendas

Dados da Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola (Abracal) indicam que, em 2025, o volume comercializado ficou praticamente estável. Foram 61,3 milhões de toneladas, pouco mais que os 59,6 milhões de toneladas no ano anterior.

Na Viter, porém, as vendas cresceram 13% no ano passado, na comparação com 2024.

“A gente vem crescendo dentro do mercado. Hoje somos a única empresa de calcario presente praticamente no Brasil inteiro. Nossos concorrentes são majoritariamente locais. Pelos números que a gente apura, somos a maior empresa do setor, temos mais ou menos 10% do mercado”, ressaltou Marin.

A área tratada com os produtos da Viter seria o equivalente a 6 milhões de hectares, algo como o total de cultivo agrícola no estado do Paraná.

“A gente tem crescido por conta de aumento de presença, mas realmente, desde 2023 para cá, tem sido muito mais desafiador fazer os volumes, por conta da pressão de custos do produtor, muitas revisões do manejo que ele faz e, principalmente, a questão do crédito”, pontuou.

Na conversa com o AgFeed, Marin disse que os clientes, neste cenário, acabam buscando prazos mais longos para pagar, por exemplo.

Por outro lado, há uma vantagem para o segmento que, diferentemente dos fertilizantes tradicionais, não está tão vulnerável às variações de preços internacionais e à taxa de câmbio.

“O calcário é pouco correlacionado aos fertilizantes, porque ele não sofre toda essa questão de importação, essa dependência dos produtos que vêm de fora. Ele é 100% nacional, até porque ele não anda muito longe. O custo de frete acaba pesando muito e você tem muitas opções regionalizadas”.

Para 2026, ele não faz previsões em relação aos resultados da Viter, mas comenta que o mercado de calcário como um todo, a princípio, não deve crescer.

“A tendência é estável ou até cair por conta desse cenário. A gente tinha um mercado de cana, por exemplo, no ano passado ainda muito bom. Este ano você já vê com mais dificuldade, principalmente com a queda do preço do açúcar”, lembrou.

As vendas de calcário no País costumam aumentar a partir de abril, tendo seu pico em setembro, segundo ele. Este ano, nos últimos dois meses, Marin diz ter observado um produtor rural mais preocupado, porém, na média, os volumes estão se mantendo.

O executivo avalia que há uma demanda reprimida por calcário no Brasil, que deveria estar consumindo 80 milhões de toneladas.

“A gente sempre espera que o produtor acabe investindo um pouco mais em calcário, para que justamente ele tenha um maior aproveitamento possível do NPK, é por isso que mesmo na crise você não vê o volume (de vendas) caindo”.

Investimento de R$ 300 milhões

Como o crescimento vem se mantendo, apesar dos desafios do momento, a Viter foi investindo em expansão de capacidade produtiva e desenvolvimento de novos produtos.

O total dos aportes entre 2020 e 2026, segundo Marin, foi de R$ 300 milhões. Uma das ações foi a inauguração de um novo galpão em Nobres (MT), em dezembro do ano passado, como mostrou o AgFeed.  Houve um aumento de mais de 20% na produção anual de calcário agrícola, passando de 740 mil para 900 mil toneladas.

Na época, a empresa citou um investimento de R$ 330 milhões somente em Mato Grosso, mas a quantia se refere à Votorantim Cimentos como um todo, não restrita ao que envolve a Viter.

Em 2024, foi inaugurada uma fábrica na cidade de Itaperuçu (PR), dedicada exclusivamente às operações da Viter e da Verdera, negócio especializado em gestão e destinação sustentável de resíduos. A planta tem capacidade fabril de 600 mil toneladas de calcário agrícola.

Com a unidade em Itaperuçu e a já existente operação na cidade de Rio Branco do Sul (PR), a Viter totalizou uma capacidade instalada para produzir 1,5 milhão de toneladas por ano de calcário agrícola no estado do Paraná.

Ainda em 2024, a empresa ampliou a capacidade de produção da fábrica localizada no município de Itapeva (SP), adicionando mais 260 mil toneladas na produção de insumos agrícolas por ano. Na unidade, são produzidos não apenas o calcário, mas também os outros fertilizantes (mistura com outros nutrientes) mais elaborados.]

No cargo de gerente-geral desde fevereiro deste ano, Bruno Marin diz que também pretende continuar expandindo a atuação da empresa, geograficamente.

“A gente enxerga oportunidades em mercados onde a gente não está 100% presente, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás e a própria Bahia, a gente chega na borda por conta dos desafios logísticos, então são regiões com potencial de crescer”, avalia.

O grande “oceano para navegar”, segundo ele, está na entrada do mercado de plantas e nutrição foliar.

“Esse é o meu objetivo de longo prazo. Lançamos agora os dois produtos, mas quando olha para o que estamos investindo em pesquisa e desenvolvimento, tem mais uma série de produtos com potencial de lançamento para os próximos anos, para cravar a Viter como destaque também nesse mercado de foliares”.

Ele admite que, no começo, a representatividade da Viter no mercado de foliares, que é bastante pulverizado, ainda será baixa, mas enxerga “crescimento importante”, no prazo de de 5 anos, “com resultados mais consistentes e representativos dentro do negócio”.

“É o futuro que estamos enxergando. Participar desse mercado com produtos ligados a nutrição, mas também com biológicos”, adiantou, sem dar mais detalhes.

Resumo

  • A Viter, unidade de negócios agro da Votorantim Cimentos, entrou no mercado de fertilizantes foliares, enquanto mantém liderança no calcário agrícola
  • Empresa registrou aumento de 13% nas vendas de seus produtos em 2025, mas vê mercado estável em 2026
  • Investimentos da Viter entre 2020 e 2026 já totalizam R$ 300 milhões, com foco em expansão de capacidade produtiva e ampliação do portifólio