Foi um dia de espera e de rumores. E somente no apagar das luzes da quinta-feira, 12 de fevereiro, quando se conheceu os aguardados números do balanço da Raízen referente ao terceiro trimestre do seu ano-safra, o equivalente ao período compreendido entre os meses de outubro e dezembro de 2025, e ao consolidado dos nove primeiros meses do ciclo.

Eram exatas 23h38, apenas 22 minutos antes de se encerrar a data prevista pela companhia para a divulgação – e aí o mercado já dormia –, quando surgiu no site da CVM a primeira planilha com as informações trimestrais. No trimestre, o prejuízo ficou em R$ 3,9 bilhões.

Nove minutos depois, saiu um relatório mais detalhado, de 135 páginas, com as anotações dos auditores da Ernst & Young, enfatizando um dado alarmante.

“Chamamos a atenção para a Nota 1.1 às informações contábeis intermediárias, que indica que a companhia incorreu no prejuízo de R$ 14.657.831 mil [ou R$ 14,65 bilhões] na controladora e R$ 14.679.239 mil [ou R$ 14,67 bilhões] no consolidado durante o período de nove meses findo em 31 de dezembro de 2025”, anotam os auditores.

“Esse evento ou condição, juntamente com outros assuntos descritos na Nota 1.1, indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da Companhia. Nossa conclusão não está ressalvada em relação a esse assunto”.

A nota citada pela EY aparece a partir da página 18 do documento. Nela, a direção da Raízen revisita a via crucis que vem enfrentando nos últimos meses, desde que iniciou, no final de 2024, um processo de reestruturação financeira.

O texto, mesmo escrito no jargão contábil, traz o prenúncio de decisões ainda mais difíceis nos próximos dias. Durante a própria quinta-feira, enquanto se esperava o balanço, muitos no mercado especulavam um pedido de proteção judicial diante da sangria do caixa, reconhecida pela própria companhia, e já precificado na comercialização de títulos da empresa. Um CRA com vencimento em agosto de 2023, por exemplo, estava sendo negociado com deságio de 63%.

Segundo o relatório com as informações trimestrais da Raízen, os prejuízos nos nove meses “refletem principalmente a provisão por redução ao valor recuperável de determinados ativos no montante adicional de R$ 5.797.703, na Controladora e Consolidado; o consumo de caixa livre no período corrente, e o aumento significativo dos índices de alavancagem financeira, conforme evidenciado nas demonstrações dos fluxos de caixa apresentadas nestas informações contábeis intermediárias”.

O documento prossegue, elencando eventos subsequentes ao fechamento das informações contábeis, lembrando que a empresa comunicou ao mercado que “seus acionistas controladores seguem avaliando, de forma prioritária, alternativas para a redução da alavancagem e o equacionamento da estrutura de capital da Companhia, não havendo, até o momento, decisão ou compromisso vinculante firmado relacionado a eventuais estruturas”.

A referência, aqui, é ao comunicado de 6 de fevereiro passado, em que a Raízen informou ao mercado a contratação de assessorias jurídica e legal “para apoiar na avaliação de alternativas econômico-financeiras preliminares e de caráter exploratório”.

No dia 9, ela comunicou que os escolhidos no processo de contratação foram a Rothschild & Co, na área financeira, e os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, no campo legal.

Em seguida, cita ainda o rebaixamento dos ratings corporativos da Raízen pelas principais agências nacionais e internacionais, em um processo iniciado em novembro passado pela Moody’s e reiterado nos últimos dias por Fitche e S&P.

A Raízen aponta que essas reclassificações, que colocaram os títulos da empresa dentro do grau especulativo de crédito, são “resultado em deterioração da percepção de crédito da Companhia”.

A Raízen ressaltou no documento o “plano de transformação” que vem executando desde novembro de 2024, e que já inclui venda de ativos como as usinas Continental, Leme, Passatempo, Rio Brilhante e Santa Elisa , além da comercializadora de energia e de usinas de geração distribuída.

“Houve avanços estruturais na simplificação da organização, reforço do foco no core business, evolução na implementação uma nova cultura organizacional e venda de ativos com a saída de operações que melhoraram o perfil do novo portfólio. Em paralelo, foram capturados ganhos pela otimização das estruturas operacionais e corporativas e da redução significativa do nível de investimentos, cujos efeitos já se refletem nos resultados”.

Entretanto, apesar dos ganhos “dentro dos fatores sob seu controle”, a Raízen diz entender que “no contexto atual em que se encontra inserida, a execução operacional, por si só, já não é suficiente para mitigar o desequilíbrio existente da estrutura de capital”.

A contratação das assessorias legal e financeira viriam, justamente, para buscar soluções mais amplas e determinantes nesse sentido. Os próximos dias devem indicar quais são.

Resumo

  • A Raízen registrou prejuízo consolidado de R$ 14,7 bilhões nos nove primeiros meses da safra 2025/2026; no 3º trimestre, a perda foi de R$ 3,9 bilhões.
  • A empresa apontou “dúvida significativa” sobre a continuidade operacional, citando prejuízos, consumo de caixa e alta alavancagem
  • Empresa avalia alternativas para reduzir dívida, após rebaixamento de rating e venda de ativos, mas admite que ajustes operacionais não bastam