A ICL Group, gigante global de fertilizantes, encerrou 2025 com um dado que, à primeira vista, parece positivo: as vendas cresceram 5%, alcançando US$ 7,15 bilhões (algo próximo a R$ 37 bilhões, levando em consideração a cotação atual do dólar).

O desempenho operacional também mostrou resiliência, com Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado levemente superior ao do ano anterior e somando US$ 1,49 bilhão. Ainda assim, por trás da expansão da receita, o lucro contou outra história.

De acordo com o balanço da empresa, divulgado ao mercado nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, o resultado líquido da companhia caiu de US$ 407 milhões em 2024 para US$ 226 milhões em 2025, uma retração de 44,5%. O lucro por ação recuou de US$ 0,32 para US$ 0,18.

A aparente contradição - vender mais e lucrar menos - tem explicação. E ela passa menos pela operação do dia a dia e mais por decisões estratégicas e efeitos não recorrentes, que pesaram no resultado final.

Ao longo de 2025, a companhia registrou US$ 293 milhões em encargos extraordinários, que incluíram baixas contábeis relacionadas ao encerramento de projetos de materiais para baterias LFP nos Estados Unidos e na Espanha, desvalorização de ativos no Reino Unido, programas de eficiência e aposentadoria antecipada, além de uma provisão de US$ 80 milhões após decisão da Suprema Corte israelense sobre taxas de extração de água na região do Mar Morto.

Tanto que, observando o lucro ajustado que exclui esses impactos, o resultado líquido final ficaria em US$ 465 milhões, bem próximo do visto em 2024.

Os números operacionais ajudam a sustentar essa leitura. No segmento de potássio, a companhia produziu 4,37 milhões de toneladas em 2025, uma pequena baixa ante os 4,50 milhões no ano anterior. No acumulado do ano para o segmento, a ICL vendeu 4,32 milhões de toneladas do produto também abaixo das 4,55 milhões de toneladas de 2024.

Apesar da queda no volume, o preço médio do potássio subiu de US$ 299 para US$ 316 por tonelada no acumulado do ano, o que compensou parte da retração e sustentou a receita do segmento, que avançou para US$ 1,71 bilhão, ante US$ 1,65 bilhão no exercício anterior. O Ebitda do segmento de potássio também cresceu, passando de US$ 492 milhões para US$ 552 milhões.

Nas soluções de fosfato, as vendas chegaram a US$ 2,33 bilhões, leve alta frente aos US$ 2,21 bilhões em 2024. Apesar disso, o Ebtida do segmento recuou de US$ 549 milhões para US$ 528 milhões, refletindo pressão de custos, especialmente com enxofre.

O balanço ainda mostrou que no segmento de "Soluções para Cultivo", a receita subiu de US$ 1,95 bilhão para US$ 2,06 bilhões, com um Ebitda de US$ 213 milhões, indicando expansão em especialidades agrícolas. A empresa cita que essa vertical tem foco em mercados como o do Brasil, Índia e China.

No segmento de Produtos Industriais, as vendas também avançaram, de US$ 1,23 bilhão para US$ 1,25 bilhão, com Ebitda estável em torno de US$ 280 milhões.

O quarto trimestre reforça o contraste entre operação e resultado contábil. Entre outubro e dezembro, as vendas consolidadas atingiram US$ 1,7 bilhão, alta de 6% na comparação anual.

A ICL destacou que o Brasil foi um dos pontos de destaque do trimestre, com vendas aumentando em um ano, e com preços mais altos e flutuações cambais, trouxe um "forte lucro bruto". Do total das vendas, 19%, ou US$ 315 milhões, vieram para o País.

No último trimestre do ano, o preço do potássio no trimestre chegou a US$ 348 por tonelada, contra US$ 285 um ano antes, um salto de 22%. Nos envios para o Brasil, é dito que o valor por tonelada do potássio registrou alta de 23,3% em um ano, atingindo US$ 355 por tonelada, acima da média global. No acumulado do ano, o preço médio importado ao Brasil foi de US$ 360.

"No Brasil, os preços do fosfato recuaram no quarto trimestre, com o MAP importado caindo de US$ 760 por tonelada em julho para US$ 630 por tonelada em dezembro de 2025, devido aos altos preços e à baixa acessibilidade que afetaram o consumo", diz a ICL no balanço.

Ainda assim, o resultado operacional reportado foi negativo em US$ 16 milhões, devido justamente aos ajustes extraordinários, que somaram US$ 239 milhões e foram concentrados no final do ano.

Sem esses efeitos, o lucro operacional ajustado do trimestre teria sido de US$ 223 milhões, superior aos US$ 190 milhões ajustados do quarto trimestre do ano de 2024. Desse total, a ICL pontuou que US$ 122 milhões estão relacionados à execução de uma "nova estratégia", que não teve detalhes divulgados.

Olhando para 2026, o CEO, Elad Aharonson, projetou que fertilizantes de especialidades e a divisão de soluções em fosfato contribuam para melhorias por meio de fusões e aquisições - citando a a recente compra da Bartek Ingredients, de ingredientes alimentícios -, e também por expansão geográfica.

"Ao mesmo tempo, permaneceremos focados em nossa missão principal de impulsionar o crescimento lucrativo em todos os nossos negócios especializados, enquanto fortalecemos nossa liderança em todos os segmentos de negócios", disse, em nota que acompanha o balanço.

"Esse foco resultou em uma revisão de nossas prioridades de alocação de capital e em uma avaliação de atividades não sinérgicas e de baixo potencial, incluindo a descontinuação de nossa expansão para materiais ativos de cátodo para baterias LFP e uma revisão das vendas de nossas operações em Boulby, no Reino Unido, onde estamos explorando oportunidades de desinvestimento", prosseguiu.

Para 2026, a empresa projeta Ebitda ajustado consolidado entre US$ 1,4 bilhão e US$ 1,6 bilhão, praticamente em linha ou com uma leve alta frente ao visto em 2025. Nos volumes, a ICL destacou que projeta vender 4,5 milhões a 4,7 milhões de toneladas de potássio até dezembro, acima do vendido no último ano.

Resumo

  • A ICL elevou as vendas em 2025 para US$ 7,15 bilhões e manteve o Ebitda praticamente estável, mas viu o lucro cair 44,5% no ano
  • O resultado foi impactado por US$ 293 milhões em encargos não recorrentes ligados à reestruturação, encerramento de projetos de baterias e provisão judicial no Mar Morto
  • Operacionalmente, o avanço nos preços do potássio, de US$ 299 para US$ 316 por tonelada, compensou volumes menores, enquanto Brasil e especialidades agrícolas sustentaram parte do crescimento.