Após mais de seis meses de crise e tentativas de renegociar um passivo de R$ 2,2 bilhões, o Grupo Safras protocolou hoje, na 4ª Vara Cível de Sinop (MT), pedido de recuperação judicial. A petição inclui as matrizes e filiais da Safras Armazéns Gerais, Safras Bioenergia e Safras Agroindústria.

A companhia pede a suspensão, pelo prazo de 180 dias, de todas as ações e execuções contra o grupo “em face dos requerentes até ulterior deliberação” e a concessão do prazo de 60 dias para apresentação do plano de recuperação judicial.

No documento de 62 páginas estão desde a história romanceada sobre fundadores da companhia, Dilceu Rossato e Pedro de Moraes, à divisão da série de empresas e personagens em dois núcleos - Safras e Rossato -, até a série de motivos que levou a companhia ao pedido.

Basicamente, o epicentro da crise da empresa ocorreu em 2023, com a queda nos preços da soja, os investimentos em uma usina de etanol e a compra da Copagri, da qual herdou uma dívida de R$ 500 milhões.

“Numa perspectiva macroeconômica, o problema se deu pela oscilação do preço da soja. Em especial a queda exponencial do preço no primeiro semestre/2023, que represou as ordens de venda do grão estocado nos armazéns”, justificaram os advogados da companhia no pedido.

O Grupo Safras sustenta que os “altos investimentos” na usina de etanol de milho e na esmagadora de soja sem a utilização do financiamento para projetos de grande porte “contribuíram para prejudicar a situação de caixa do grupo e sua capacidade de honrar integralmente com suas despesas financeiras de curto prazo”.

O aumento da alavancagem e a crise no setor agrícola contribuíram, de acordo com  o relatado no pedido, para a restrição e o encarecimento do crédito.

“Além disso, outro ponto contribuinte para o agravamento do cenário de crise foi a própria aquisição da Copagri, também em 2023. Isso porque, houve a absorção de um passivo (de mais de meio bilhão de reais) relevante, assim como tiveram de ser feitos diversos investimentos (...) o que pressionou diretamente o caixa do grupo”, informam.

Outro fator relevante que culminou no pedido de recuperação judicial foi o polêmico pedido de reintegração de posse da unidade de Cuiabá (MT). Como revelou o AgFeed, a unidade pertence à massa falida da Olvepar Indústria e Comércio, administrada pela Carbon Participações, a qual firmou contrato de arrendamento com a Allos Participações.

A Allos, por sua vez, repassou a posse da unidade para a Copagri, que foi adquirida e incorporada pelo Grupo Safras em 2023, o qual mantinha um contrato de prestação de serviços com a Engelhart, trading do BTG Pactual.

O pedido foi revertido no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Mas a polêmica negociação, no entanto, rendeu quase duas dezenas de páginas no pedido de recuperação judicial.

“Os “poucos” dias em que os representantes da Carbon importunaram indevidamente o funcionamento da planta já geraram prejuízos não só à operação do Safras Agroindústria, (antiga Copagri), mas ao Núcleo Safras como um todo, vez que o prejuízo sofrido numa ponta afeta inevitavelmente, por “efeito cascata”, todas as demais”, relatam os advogados no documento.

O Grupo Safras pede que o juízo reconheça e declare como essenciais 14 armazéns detidos pelo grupo que representam uma capacidade de armazenagem equivalente a mais de 700 mil toneladas. A companhia teme o arresto de produtos estocados nas unidades.

O conglomerado pede ainda que seja antecipado o stay period, com suspensão das dívidas, “tendo em vista os atos de constrição patrimonial que já se encontram em curso e na iminência de ocorrerem expropriações que dizem respeito a créditos concursais e, portanto, sujeitos aos efeitos deste processo insolvência”.

Em nota, a companhia informou que, com a suspensão das dívidas, “acredita que poderá viabilizar um ambiente jurídico seguro para recepcionar grãos de produtores, coisa que não era possível até então por conta das ameaças de protestos e penhoras”.

O grupo informou ter sido procurado por diversos produtores durante a safra de soja, mas ter optado por não receber grãos no período do ano para evitar colocar novos ativos dos produtores em risco. Outro pedido é que sejam declarados essenciais também a planta industrial de Cuiabá, “em especial do subarrendamento/cessão de posição contratual ali mantido”, armazéns e maquinários, e “quaisquer outros bens essenciais e estratégicos ao soerguimento das empresas e produtores rurais”.