Nos últimos meses, Amaggi e FS tiveram seus flertes. O conglomerado da família Maggi chegou à porta do altar com outro parceiro, a Inpasa, encaminhou os proclamas para o enlace, mas, na hora do sim, as duas disseram não. Já a FS teve a Petrobras como pretendente, mas a conversa nem chegou a engatar.
Então, o destino e os interesses as uniram. Na tarde da quarta-feira, 13 de maio, as duas companhias assinaram, depois de um namoro tão breve quanto discreto, o termo de compromisso que pode levá-las a consumar um dos mais ambiciosos e promissores casamentos corporativos do agro brasileiro dos últimos anos.
Para que isso aconteça, FS e Amaggi aguardam agora a bênção das autoridades regulatórias. As duas empresas protocolaram na noite da quarta no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) os termos desse compromisso, que fará da gigante das commodities acionista, com 40% de participação no capital da companhia.
O acordo entre ambas tem muitos detalhes ainda reservados, como o valor da transação. O que tornaram público é que, além do valor desconhecido pago pelas ações, a Amaggi fará um aporte de US$ 100 milhões (cerca R$ 500 milhões, no câmbio atual) na FS.
Foi tudo muito rápido – apenas sete meses depois da separação de Amaggi e Inpasa, um prazo relativamente curto em processos de tamanha magnitude. Por isso, o anúncio surpreendeu o mercado.
A agilidade, entretanto, pode ser explicada pela conveniência da união. Segundo especialistas ouvidos pelo AgFeed, FS e Amaggi parecem ter sido feitas uma para a outra.
A primeira, precisa adquirir atualmente 6 milhões de toneladas de milho por ano para processar em suas usinas, transformando em 2,6 bilhões de litros de etanol e 2,2 milhões toneladas de DDG, composto proteico para nutrição bovina.
A segunda, produziu 287 mil toneladas na safra 2024/2025 e originou cerca de 3,84 milhões de toneladas de milho no ano passado e utiliza o DDG na dieta dos animais em sua operação de confinamento
Olhando nos detalhes e nos interesses de ambas, a complementaridade fica ainda mais clara. As tratativas frustradas com a Inpasa, por exemplo, deixaram evidente o interesse do clã Maggi em estender seus negócios agroindustriais, hoje concentrados no esmagamento de soja, também para a cadeia do milho e, particularmente, para o etanol.
A Amaggi cultiva mais de 350 mil hectares, tem negócios em diversas áreas e e faturou R$ 42 bilhões em 2025. Seria um movimento até natural para uma gigante com capacidade financeira e influência junto a produtores no Mato Grosso, construir suas próprias usinas, como chegou a cogitar quando desisitiu da joint venture de R$ 7,5 bilhões que formaria com a empresa fundada por José Odvar Lopes.
Esse plano, entretanto, adicionaria tempo e complexidade ao seu projeto de participar do mercado do biocombustível. “Ao conversar com a Inpasa, eles já entendiam que fazia mais sentido entrar nesse mercado através de um parceiro”, disse ao AgFeed um executivo do segmento, que preferiu se manter no anonimato por ter relações indiretas com uma das empresas envolvidas.
“O negócio de etanol de milho tem um perfil diferente do biodiesel, por exemplo, em que ela já atua”.
Assim, ao desfazer a JV, ela partiu em busca de outro “veículo” para embarcar nessa jornada. E a FS, com quem já mantinha relações comerciais como fornecedora de milho, surgiu como uma opção natural.
“Temos ampliado nossa atuação na cadeia de grãos, em diversas frentes, por meio de investimentos próprios e investimentos em parcerias, então acredito que esse investimento em etanol de milho trará também excelentes resultados”, destaca Judiney Carvalho, CEO da Amaggi no comunicado que tornou público o acordo com a FS.
Pioneira e também uma gigante do setor, com receita de R$ 12,8 bilhões em 2025, a FS buscava um comprador para uma fatia do negócio e tinha o porte desejado e um estilo de governança que agradava mais a Blairo Maggi e seus irmãos, controladores da Amaggi. O estilo mais centralizador de Lopes, fundador da Inpasa, foi uma das principais razões de o negócio entre eles não ter ido adiante.
Na FS, a interlocução com o Bruce Rastetter, fundador da Summit Agricultural, acionista majoritária da companhia, e seus principais executivos tem tudo para ser mais aberta, dando mais voz à Amaggi, que passa a ter três assentos no Conselho de Administração da companhia (a Summit fica com quatro e os minoritários, com um).
"Estou confiante no que estamos construindo juntos, especialmente no alinhamento de valores, na visão de longo prazo e na capacidade de execução que fundamentam este negócio. Que esta seja a primeira de muitas conquistas que ainda virão”, afirmou Blairo Maggi, acionista e um dos fundadores da Amaggi, no comunicado conjunto sobre o negócio.
“Com a entrada da Amaggi como parceira da FS, estamos unindo forças complementares e visão de negócios compartilhados”, completou Rastetter no mesmo documento.
A nova composição do quadro acionário da FS coloca Summit Agricultural e Amaggi quase em paridade. O grupo de Rastetter antes detinha 71% do negócio e passou a 43% de participação, apenas 3 pontos percentuais acima da companhia dos Maggi.
Os sócios minoritários, entre eles a Tapajós Participações , dos irmãos Marino e Miguel Franz, abriram mão de uma fatia maior de sua participação, baixando de 24,27% para 13,9%. Integrantes do corpo executivo da FS, que receberam papeis como parte de suas remunerações, também disponibilizaram parte de seu quinhão, passando de 4,72% para 2,92% de participação.
A cara da Amaggi
“A FS é mais a cara da Amaggi do que a Inpasa”, resume o especialista ouvido pelo AgFeed.
Na comparação entre as duas parceiras, a FS também atende a outro atrativo implícito nas negociações entre Amaggi e Inpasa. Quando alinharam a proposta da JV, elas haviam acordado em investir em três novas plantas em municípios do Mato Grosso – uma em Campo Novo dos Parecis, uma em Primavera do Leste e outra em Rondonópolis.
Todas elas estariam estrategicamente situadas em áreas de influência da Amaggi, próximas a fazendas onde a companhia colhe seu próprio milho, além de ter grande capacidade de originação de grãos.
Desfeito o acordo, ambas anunciaram projetos próprios no “quintal da Amaggi”, em Rondonópolis – a Inpasa confirmou um investimento de R$ 2,5 bilhões no município e a ex-futura sócia indicou que faria o mesmo em uma área que possui próxima ao ramal ferroviário local.
A transação firmada na quarta-feira estabelece que, a partir de agora, qualquer investimento da Amaggi em etanol de milho deve ser feito através da FS. O peso da opinião do novo sócio, entretanto, pode indicar caminhos para futuras expansões – e ela pode apontar mais para Oeste de Mato Grosso.
Das três localizações, a FS já está presente em duas – com uma planta já em operação em Primavera do Leste e outra em construção em Campo Novo dos Parecis, com capacidade de produção de 600 milhões de litros de etanol por ano e inauguração prevista para o fim de 2026 . Ou seja, cobriria, sem necessidade de investimento, dois terços das regiões consideradas estratégicas pela Amaggi.
De acordo com um ex-executivo da FS ouvido pelo AgFeed, implantar uma unidade em Rondonópolis não estava, até então, no radar da companhia. Isso, segundo ele, porque ali não teria como competir pelo milho produzido em um raio mais próximo – e trazer de outras regiões faria com que o insumo chegasse mais caro à sua usina.
A entrada da Amaggi poderia, no entanto, mudar essa equação, trazendo uma garantia de fornecimento e viabilizando uma planta na região. Da mesma forma, Rondônia, que está no mapa produtivo e frequenta os planos da Amaggi para o etanol de milho, poderia entrar na pauta da FS.
Ao anunciar a venda de participação na companhia, o CEO da FS, Rafael Abud, afirmou que os planos de expansão no etanol de milho se limitam ao projeto já em execução em Campo Novo dos Parecis.
Abud disse também que não há acordo prévio de compra e venda com a nova sócia. “Qualquer transação comercial que venha a ocorrer respeitará as condições de mercado”, afirmou.
De qualquer forma, as condições de mercado tornam-se mais convenientes com a presença forte da Amaggi na região de Rondonópolis ou em Rondônia. O mesmo acontece em Primavera do Leste e Campo Novo dos Parecis.
“A parceria com a Amaggi oferece um conforto estratégico. A FS deixa de ter um potencial concorrente e ganha um aliado institucional muito forte e também com possíveis sinergias logísticas, como na armazenagem de grãos, por exemplo”, apontou o executivo do setor ouvido pela reportagem.
Questionadas pelo AgFeed sobre potenciais sinergias com a transação, as duas companhias não responderam até a publicação da reportagem, que será atualizada quando isso ocorrer.
Resumo
- Sociedade entre FS e Amaggi surgiu como solução estratégica após negociações com outros potenciais parceiros
- Amaggi e Summit Agricultural, sócia majoritária da FS, passa a ter quase a mesma participação na companhia
- Complementaridade dos negócios e ganhos operacionais fortaleceram a decisão pela aliança