A SLC Agrícola informou ao mercado na manhã desta quinta-feira, 18 de junho, que foi formalmente notificada pela Radar, empresa de propriedades agrícolas controlada pela Cosan, sobre a negociação de 41,2 mil hectares de terras com o Grupo Bom Futuro por um valor total de R$ 1,85 bilhão.

A companhia da família Logemann confirmou, no comunicado, que entre as fazendas envolvidas na transação, possui contrato vigente de arrendamento de 17,6 mil hectares e que, por conta disso, pode exercer seu direito de preferência e optar pela compra dos imóveis.

A notificação marca o início de um período crítico para a SLC Agrícola: a empresa agora tem um prazo determinado pelos instrumentos contratuais para tomar essa decisão. No comunicado, a companhia informou que está "avaliando as condições comerciais da oferta" e se manifestará "oportunamente, dentro do prazo aplicável".

A empresa não cita qual é esse prazo, mas uma fonte a par dos contratos confirmou ao AgFeed que, a partir da notificação, serão 30 dias até que esse a preferência expire.

Com a contagem regressiva iniciada, os conselheiros e executivos da SLC Agrícola terão de fazer uma importante avaliação estratégica. Nos últimos anos, a empresa havia adotado uma política de expansão em um modelo asset light, priorizando operações de arrendamento à imobilização de capital em aquisições.

Uma eventual decisão pela compra das propriedades, sobretudo em uma operação que não aparecia nos planos da companhia, significaria um percalço nessa trajetória. Além disso, traria impactos financeiros não previstos, com o possível aumento do endividamento.

Por outro lado, abrir mão da preferência significaria ter a primeira redução de área em muitos anos e, mais do que isso, ter de entregar propriedades maduras, em que, ao longo de anos, foram investidos milhões de reais para melhorar seu perfil produtivo, inclusive para a produção de algodão.

Em entrevista ao AgFeed no início da semana, antes portanto da informação sobre a negociação entre radar e Bom Futuro, o CEO da SLC, Aurélio Pavinato, chegou a comentar a disposição da SLC em aproveitar eventuais oportunidades de investimento.

Segundo ele, ainda haveria espaço para uma maior alavancagem financeira da empresa, “pensando nessa fase de oportunidades do momento que nós estamos vivendo, para depois surfar a onda do boom das commodities, que essa onda provavelmente virá como historicamente ela sempre vem".

Ele ressaltou que a maior parte da dívida da companhia é relativa ao custeio das lavouras e que 81% do endividamento é de longo prazo.

No mercado financeiro, que tem na SLC um dos poucos exemplos de operadora agrícola com ações listadas em bolsa, a primeira reação de analistas à notícia de que a venda da Radar envolvia terras arrendadas à empresa foi tentar avaliar o possível impacto sobre as suas operações.

Até o momento, as partes envolvidas não informaram quais são as propriedades negociadas. Assim, alguns especialistas passaram a buscar informações sobre os contratos de arrendamento firmados entre as duas empresas e, cruzando com o portifólio da SLC, fazer simulações para tentar desvendar esse “mistério”, como definiu um analista ao AgFeed.

Segundo reportagem do site The Agribiz, as fazendas incluídas na transação estariam no Mato Grosso, na região dos municípios de Diamantino e Campo Novo do Parecis.

Entre as fazendas que estariam nesse perfil, segundo o levantamento de um analista, a Pampeira, com mais de 19 mil hectares arrendados, e a Piracema, com 8,7 mil hectares.

Outra com esse perfil seria Fazenda Paiaguás, em Diamantino. Com mais de 63 mil hectares cultivados, a unidade combina áreas próprias e arrendadas pela SLC, inclusive da Radar, segundo o levantamento.

A estratégia da Cosan

Do lado da Cosan, a única questão, no momento, é a espera para saber quem será o comprador das terras. A estratégia da companhia de se desfazer de ativos foi avaliada como positiva em um relatório distribuído nesta quinta-feira pelo banco de investimentos BTG Pactual.

Segundo a instituição, a holding controlada por Rubens Ometto está migrando de um modelo de expansão contínua para um modelo de monetização de ativos acumulados e tem na Radar uma “opção óbvia” nesse sentido.

O BTG Pactual destaca que a Radar carrega um peso estrutural negativo: as terras geram retorno de aproximadamente 3% ao ano, enquanto o custo da dívida que financia a holding é de cerca de 16%.17 de junho, Isso cria uma perda anual de 13 pontos percentuais — um incentivo econômico claro para vender.

O banco conduziu análise de sensibilidade mostrando que, para a empresa, vender blocos maiores de terras com desconto é economicamente mais racional do que vender pequenas parcelas sem desconto.

Especificamente, se a Cosan vender 40 mil hectares por ano com desconto de 15% sobre o valor de avaliação, o valor presente líquido (NPV) seria cerca de 15% superior ao cenário de vender apenas 10 mil hectares sem desconto.

No relatório, que analista também outras frentes possíveis para alienação de ativos pela Cosan, o BTG Pactual reitera recomendação de compra para as ações da companhia, com preço-alvo de R$ 8,00 por ação, implicando potencial de valorização de 145%, em doze meses, em relação ao preço de fechamento da quarta-feira, de R$ 3,27.

O banco argumenta que a "complexidade que Cosan acumulou ao longo dos anos ainda está sendo precificada pelo mercado, em vez do valor que poderia ser liberado conforme essa complexidade é desfeita".

A operação é, assim, o primeiro grande teste da estratégia de monetização da Cosan e sinaliza como a holding pretende desacelerar seu endividamento e simplificar sua estrutura nos próximos anos.

Resumo

  • SLC recebeu notificação da Radar e tem 30 dias para exercer preferência sobre 17,6 mil hectares arrendados
  • Decisão envolve escolher entre manter áreas estratégicas ou preservar a política de expansão com menor imobilização
  • Venda faz parte da estratégia da Cosan de monetizar ativos e reduzir o peso do endividamento