Os projetos bilionários de biocombustíveis, principalmente de etanol de milho, que vem se multiplicando pelo Brasil, não beneficiam somente o investidor que aporta recursos nestas empresas ou os produtores rurais que passam a fornecer matéria-prima para as usinas.
Na “onda do etanol de milho”, estão surfando também empresas que fornecem “insumos” para estas indústrias e o primeiro deles, é claro, precisa ser o projeto de engenharia.
Os engenheiros Alessandro Salvador e André Oliveira eram colegas de trabalho em uma empresa de Blumenau, Santa Catarina, onde nasceu uma amizade, que depois se transformou em “parceria de milhões”. E tudo por causa do agronegócio.
Em 2014, quando Alessandro, que é engenheiro eletricista, decidiu pedir demissão porque queria “dar a volta ao mundo” para visitar 15 países, ele mandou um e-mail de despedida a alguns clientes.
“Um dos meus clientes retornou no meu e-mail particular e falou: ‘Olha, Alexandre, eu preciso de você aqui segunda-feira em Luziânia (GO) para resolver um problema’. Eu respondi: ‘Não estou mais fazendo isso’. Mas aí ele me ligou: ‘Não, eu quero você aqui segunda-feira’. Eu não tinha empresa, não tinha nada, eu não queria fazer mesmo, mas ele falou: ‘Arranja um amigo teu que tem uma empresa, faz um orçamento’”, contou Salvador, em entrevista ao AgFeed.
Foi assim que ele chamou o amigo André Oliveira, engenheiro mecânico, que também já não trabalhava na empresa anterior.
A empresa em questão era nada menos do que a Bunge, gigante multinacional do agronegócio. O trabalho era um “revamp” (modernização e ampliação) da esmagadora de soja da trading em Goiás.
“Entramos nisso sem empresa constituída, sem nada. Chamei o Oliveira para me ajudar nisso. Dois meses depois a gente constituiu a empresa e o negócio deslanchou. A Bunge, que foi o primeiro cliente que a gente teve, é muito grande no agro e a gente acabou ganhando vários projetos, dentro de várias unidades da Bunge, que começou a alavancar a nossa empresa”, lembrou.
O segundo grande salto da empresa, que foi batizada de Aplus, foi o momento em que foram procurados pela Inpasa, que pretendia construir sua primeira unidade de etanol de milho no Brasil.
A Aplus é uma empresa de engenharia que faz todos os projetos necessários para erguer do zero uma indústria ou reformar e ampliar plantas já existentes.
“A gente faz desde planos altimétricos, geotecnia, terraplanagem, drenagem, pavimentação, arquitetura, plano diretor, projeto estrutural civil, estrutural metálico, projeto de tubulações, elétrica, automação, ar-condicionado, nível sanitário, preventivo contra incêndio. A gente monta uma maquete virtual de toda a indústria para o cliente ir ao mercado construir”, explicou Salvador, que além de sócio é também diretor comercial da Aplus.
No caso das usinas de etanol, toda as etapas produtivas, desde o recebimento de grãos, cozimento, destilaria, entre outras, também são desenhadas no projeto.
Em 2018, quando foi procurada pela Inpasa, hoje uma gigante do etanol de milho, a Aplus tinha apenas 6 funcionários e faturava cerca de R$ 750 mil por ano.
“Falamos a eles (Inpasa): ‘A gente é novo, a gente consegue fazer, temos capacidade, mas a gente é muito pequeno ainda’. E eles confiaram na gente, sentiram confiança e decidiram acreditar”, conta Alessandro.
Com o primeiro sinal do contrato depositado na conta, eles aceleraram a contratação de pessoas. A Inpasa também teria contribuído, segundo os sócios, com reforço nos treinamentos, trazendo especialistas dos Estados Unidos e do Canadá, para dar reforço ao trabalho da Aplus.
O primeiro trabalho foi a fase 1 da planta de Sinop, Mato Grosso. Depois trabalharam nas unidades seguintes que foram sendo abertas pela Inpasa, como Nova Mutum, Dourados, Sidrolândia, Balsas (MA), Luís Eduardo Magalhães (BA), em diferentes fases.
“Ficamos muito bem falados no mercado porque, em termos de velocidade, a Inpasa coloca uma planta para funcionar em 12 meses, ninguém faz isso”. Cada nova usina da Inpasa tem envolvido, no mínimo, o investimento de R$ 1,2 bilhão.
Os sócios da Aplus dizem que, com isso, foram procurados por diversas outras empresas com planos de investir no etanol de milho e começaram a trabalhar, por exemplo, nos projetos da Cerradinho, da Coamo, da RRP (empresa de Joci Piccini) e da 3tentos.
Dobrando de tamanho
Atualmente, a Aplus conta com 183 funcionários e faturou, no ano passado, R$ 46 milhões, quase o dobro de 2024.
Para 2026, os sócios projetam uma receita de pelo menos R$ 85 milhões, o que seria um crescimento de 85%.
“O motivo principal (para o crescimento) são as usinas de etanol de milho. Então, hoje o nosso mercado, 80% são os biocombustíveis, não só etanol de milho. A gente também atende esmagadora de soja e biodiesel”, ressaltou Alessandro.
André Oliveira, que além de sócio fundador é diretor técnico da empresa, disse ao AgFeed que o plano da Aplus é alcançar R$ 200 milhões de faturamento em 2030.
Para chegar lá os empresários acreditam que ainda têm muito a surfar na onda do etanol de milho, que vem crescendo acima de 30% ao ano no Brasil.
“Hoje estamos chegando perto de 10 bilhões de litros de etanol. As projeções do mercado tendem a 2032 chegar a dobrar isso, em 20 bilhões”, disse Salvador.
“A gente tem muita segurança que pelo menos nos próximos 5 anos tenhamos muito a avançar no Brasil fazendo projetos ainda nessa área (de etanol de milho)”, afirmou Oliveira.
Eles admitem que depois de um tempo poderá haver uma maior estagnação em relação a novas usinas, porém acreditam que novas oportunidades virão nos projetos de expansão das já existentes e em outras frentes relacionadas aos biocombustíveis, como o SAF, de aviação.
Hoje a empresa trabalha, simultaneamente, em 11 projetos de usinas de etanol, não apenas em novas, mas também naquelas que, nos últimos anos, decidiram duplicar sua capacidade.
“Falando em volume de etanol de milho, hoje em torno de 75% do volume de etanol de milho produzido no Brasil é projeto da Aplus. Em algumas pequenas a gente acaba não entrando, mas nas maiores a gente está”, ressaltou o diretor comercial.
O diferencial da Aplus, segundo os fundadores, está na combinação entre capital humano, tecnologia própria e foco em execução rápida com qualidade, algo que estaria garantindo vantagem mesmo frente a concorrentes maiores.
A empresa diz que desenvolve internamente ferramentas digitais para os projetos, o que impacta em mais agilidade e também em custos menores.
Resumo
- A Aplus lidera projetos de engenharia das usinas que respondem por cerca de 75% do etanol de milho produzido no Brasil.
- Trabalhos para Bunge e Inpasa impulsionaram crescimento e expansão para os atuais 11 projetos simultâneos
- Empresa projeta faturamento de R$ 85 mi em 2026 e aposta na alta dos biocombustíveis no País