Quem analisa o ano de 2025 da Boa Safra Sementes pela ótica do ganho de receita e market share tende a imaginar executivos da empresa com sorriso no rosto.

A companhia terminou o ano com uma receita líquida de R$ 2,6 bilhões, uma alta de 42% em um ano. O share nas sementes de soja atingiu 10%, um avanço de 2 pontos percentuais frente a 2024 e dobrando o tamanho do mercado que possuía antes do IPO, há cinco anos.

Apesar disso, Marino Colpo, CEO da Boa Safra, abriu uma entrevista coletiva com jornalistas para apresentar o resultado mostrando uma insatisfação com o que foi apresentado.

"É um resultado decepcionante para a gente. O nosso setor tem passado por uma forte crise, e vimos um excesso de oferta de sementes de soja em 2025. Junto a isso, temos visto uma dificuldade grande das sementeiras, inclusive com RJs no setor", disse o executivo.

A empresa encerrou 2025 no azul, com um lucro líquido de R$ 101 milhões e um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado de R$ 154 milhões. Os números, contudo, mostram recuos de 37% e 16%, respectivamente, em um ano.

O cenário apresentado por Colpo, que ainda conta com uma queda nos preços da soja e uma piora nas condições de crédito no agronegócio, dificultou a captura de margens pela empresa, mesmo vendendo mais. A margem Ebitda, por exemplo, caiu de 10% para 5% em um ano, enquanto a margem líquida saiu de 5% para 1% de 2024 para 2025.

“Foi o ano que mais crescemos em termos percentuais e volume. Tem um pouco a ver com a dificuldade do setor, que traz mais gente para comprar de nós. O produtor tem tido vontade de comprar de uma empresa mais sólida”, disse o CEO, Marino Colpo.

Em volumes, a empresa comercializou 215 mil big bags de soja, alta de 34% em relação a 2024. “Num ano de crise, eles diminuem de tamanho e nós crescemos como nunca antes. Antes do IPO tínhamos 5,7% de market share e agora temos 10% cinco anos depois", acrescentou o CFO, Felipe Marques.

Segundo a companhia, o cenário é resultado de um ciclo de investimentos elevado nos últimos anos no setor de sementeiras, que ampliou a capacidade produtiva e levou a um excesso de oferta em 2025.

Fora da soja, a receita também cresceu. O segmento de novas culturas (que englobam milho, forrageira, trigo e feijão, por exemplo) e serviços registrou receita de R$ 292 milhões, ante R$ 155 milhões em 2024, um crescimento de 88%, passando a representar 13% da receita do negócio de sementes e novas iniciativas.

Apesar do avanço, essas operações ainda não contribuíram positivamente para o resultado líquido da companhia. Marques cita uma "dificuldade até maior" para essas culturas que, diferente da soja, ainda não trazem a escala necessária para diluição de custos.

"São culturas de tamanhos ainda pequeno, e que fizemos aquisições e andamos para um caminho de crescimento orgânico, o que é ainda mais lento para ganho de escala. Ainda não estão no tamanho mínimo de breakeven, então em 2025 foram áreas que não contribuíram positivamente para os resultados da empresa", explicou o CFO.

Segundo ele, essa lógica começa a se inverter em 2026, tanto pelo tamanho de receita que essas culturas estão trazendo quanto pela perspectiva de carteira de pedidos. No balanço, a Boa Safra cita que a carteira de pedidos para essas culturas encerrou dezembro em R$ 128 milhões. No final de 2024, essa carteira somava R$ 22 milhões, patamar quase seis vezes menor.

Nesta terça-feira, 24 de março, a empresa ainda anunciou que arrendou uma unidade industrial da Syngenta em Ituiutaba (MG) para reforçar a operação das sementes de milho.

O negócio foi feito por meio de sua subsidiária Bestway Seeds, focada no setor, e soma 1,2 milhão de sacas por ano de capacidade - número que deve dobrar a estrutura operacional da Boa Safra no segmento. A projeção é, com a nova unidade, chegar aos 10% de market share também no milho.

Para além de uma perspectiva positiva para outros negócios, a soja deve ter um ano melhor em 2026. Projetando um aumento quase irrelevante na área de soja, Colpo acredita em um cenário de redução de oferta de sementes neste ano, tanto por uma dificuldade de mercado dos concorrentes maior do que a da Boa Safra quanto por um excesso de chuvas no Mato Grosso - que prejudica a qualidade das sementes.

"Muitos concorrentes saíram do ramo, alguns mudaram a forma de negócio, e com isso vejo menos oferta de sementes. Temos mais de R$ 1 bilhão em caixa, e mesmo nesse cenário abaixo das expectativas nós crescemos", disse o CEO.

Marques, CFO, completou dizendo que a companhia cresceu sua capacidade produtiva em 54 mil big bags em um ano, número que chega perto da capacidade total do "segundo colocado do mercado".

Desde o final do ano passado que a Boa Safra vem apostando em mais eficiência operacional para ajudar a driblar o momento ruim do mercado. Em dezembro passado, extinguiu algumas diretorias e realizou um corte de pessoal, além de revisar seus investimentos e reconhecer que cometeu excessos na estratégia de aquisições.

Parte da melhora da eficiência está numa conversão melhor de vendas. Enquanto produziu 280 mil big bags, vendeu 215 mil big bags, tendo um "gap" superior a 25% de perdas. A meta é fazer esse indicador ser menor que 20% em 2026.

“2026 é um ano com preço da saca de soja ainda baixo, mas mostra que atingiu o bottom e agora tem chance de ter alta”, acrescentou o CFO, Felipe Marques.

Inadimplência aumenta, mas não preocupa

A empresa também sentiu os efeitos do ambiente mais pressionado no campo do crédito. A provisão para devedores duvidosos (PDD) saltou de R$ 600 mil em 2024 para R$ 13 milhões em 2025, equivalente a 1,7% da carteira.

A carteira de contas a receber acompanhou o crescimento das vendas e passou de R$ 578 milhões para R$ 773 milhões no período. Apesar da alta na provisão, a companhia afirma que não houve deterioração relevante da qualidade de crédito.

“É o maior PDD da nossa história, mas ainda são apenas R$ 13 milhões. Fizemos o dever de casa nas garantias. Nada na nossa carteira de crédito nos preocupa hoje”, afirmou Marques.

O CFO explicou que, pelo tamanho do mercado atingido pela empresa, a Boa Safra acaba tendo preferência nas compras. "Se eu deixo de fornecer uma certa demanda, o cliente precisa buscar três ou quatro empresas para repor esse portfólio. Não existe outra Boa Safra para preencher essa demanda, e isso se traduz na carteira e garantias que temos", prosseguiu.

Colpo ainda cita que a empresa "escapou" de todas as grandes recuperações judiciais do setor nos últimos anos, e nos poucos casos, são dívidas abaixo de R$ 1 milhão, pequeno dentro da carteira.

A dívida líquida da Boa Safra encerrou o ano em R$ 151 milhões, sendo pouco mais de R$ 60 milhões com vencimentos neste ano. A dívida bruta soma R$ 1,3 bilhão, mas a companhia possui R$ 1,16 bi em caixa.

"Olhando desde o IPO, passando pelo follow-on feito há dois anos e as emissões de CRA, preparamos uma boa estrutura de capital. Nenhuma empresa de sementes tem algo parecido com essa combinação de dívida, estrutura e equity", diz Marques.

Resumo

  • Em 2025, Boa Safra registrou receita líquida de R$ 2,6 bilhões (+42%), Ebitda de R$ 154 milhões (-16%) e lucro líquido de R$ 101 milhões (-37%), com forte compressão de margens mesmo em ano de crescimento
  • Empresa ganhou market share (10%) e cresceu em volume, mas enfrentou excesso de oferta de sementes, queda no preço da soja e crédito mais restrito, o que limitou a captura de rentabilidade
  • Companhia mantém posição de caixa robusta (R$ 1,16 bi) e dívida líquida controlada (R$ 151 mi), apesar do aumento da inadimplência, com PDD subindo para R$ 13 milhões sem deterioração relevante da carteira