A luta contra o greening segue sem grandes vitórias no Brasil à medida que a doença causa prejuízos de pelo menos US$ 120 milhões ao ano na citricultura, segundo algumas estimativas do setor.
A boa notícia é que iniciativas que parecem isoladas, com empresas de pequeno porte e pesquisadores brasileiros, começam a dar alguns resultados.
Um dos exemplos deste cenário é fabricante de fertilizantes especiais Amazon AgroSciences, com sede em São Carlos (SP), especializada em produtos líquidos.
Como não pode competir com gigantes multinacionais, que investem bilhões em pesquisa e desenvolvimento, a empresa tem optado por trabalhar em conjunto com pesquisadores de instituições como a Universidade de São Carlos (UFSCar) e o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, ligado ao IAC, do governo paulista.
A mais recente aposta que deu certo foi uma parceria com a startup CiaCamp para aprimorar o uso da N-Acetilcisteína (NAC) na agricultura e desenvolver um produto capaz de ser aliado no combate ao greening.
Este ingrediente ativo já era amplamente utilizando nos medicamentos para a saúde humana. Mas uma pesquisadora do Centro de Citricultura do IAC, de Cordeirópolis, Alessandra Alves de Souza, passou a se dedicar ao tema, há quase 20 anos.
Em setembro do ano passado, foi reconhecida como a “inventora do uso na agricultura da molécula N-acetilcisteína e seus análogos” não apenas pela ciência brasileira, mas também alcançando um prêmio concedido pelo Instituto de Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO, na sigla em inglês).
Na prática, conseguiu comprovar que a substância era eficaz no Brasil para o tratamento e a prevenção de doenças bacterianas em plantas de citros, que produzem frutas como laranja, tangerina e limão.
“Nós somos uma empresa familiar. Para sobreviver num cenário como esse, bucamos fazer coisas diferenciadas, vamos entender um pouco a dor do produtor e em cima disso desenvolver soluções para curar essa dor”, afirmou o diretor comercial da Amazon AgroSciences, Felipe Palma, em entrevista ao AgFeed.
Para encontrar e desenvolver a solução, eles contam com os pesquisadores. A descoberta de Alessandra Alves de Souza foi licenciada para outra pesquisadora, Simone Cristina Picchi, que fundou a startup CiaCamp.
Após um acordo envolvendo a Amazon Agrosciences, o IAC e a startup, foi lançado o primeiro produto comercial para citricultura à base de N-acetilcisteína.
“Nós lançamos um produto chamado GranBlack, que foi o primeiro da linha NAC, com essa tecnologia que ajuda no manejo do HLB (greening). É algo diferenciado porque hoje muito se fala de indutor de resistência, de bactericidas ou de antibióticos que nem pode ainda aqui no Brasil. Mas nós temos uma molécula que é totalmente saudável. Ela é usada na medicina humana, é de consumo humano, é um aminoácido”, explicou Palma.
Segundo ele, a principal ação seria liberar o fluxo de seiva na planta, evitando o “bloqueio” que costuma ser causado pelo greening, impedindo a chegada dos nutrientes. Há uma promessa de mais produtividade e longevidade para os pomares, com a tecnologia. No terceiro ano de uso, a queda de frutos cai pela metade, de acordo os estudos realizados em campo.
Atualmente, 60% do faturamento da empresa vem das vendas para produtores de citros. A linha “NAC” é o destaque, respondendo por 40% da receita total, que não é divulgada.
Felipe Palma diz que a inovação tem ajudado a empresa a não ter queda nas vendas nos últimos anos, marcados por investimentos menores na agricultura. No setor de laranja, inclusive, os preços caíram drasticamente desde o ano passado, o que acabou impactando os negócios.
Em 2025, as vendas aumentaram 2% em relação ao ano anterior e a previsão é manter uma certa estabilidade também este ano, que tem sido descrito como um momento “ainda muito desafiador”, segundo Palma.
A Amazon AgroSciences diz também ter sido afetada pelas recuperações judiciais de revendas e ainda sofrer impactos da inadimplência, que agora estaria “controlada” em 3%.
A aposta para voltar a crescer nos níveis vistos até 2023 (20% ao ano) passa pela oferta de produtos a base da NAC para outras culturas, em associação com outros aminoácidos, além da entrada no segmento de biológicos.
“Não queremos depender de uma só cultura, estamos entrando nos cereais também, principalmente com o milho e um pouco de HF”, revelou.
O empresário diz que a N-acetilcisteína também tem mostrado bons resultados no manejo do enfezamento do milho. “É semelhante ao greening, no milho é a cigarrinha, mas o problema é o mesmo, entope o floema”.
Resumo
- Pesquisadores brasileiros e a Amazon AgroSciences lançaram o primeiro produto comercial à base de N-acetilcisteína (NAC) para auxiliar no manejo do greening
- A tecnologia nasceu de uma parceria entre a empresa, o Instituto Agronômico (IAC), a UFSCar e a startup CiaCamp
- Com 60% da receita concentrada nos citros, a Amazon agora busca expandir o uso da NAC para culturas como milho e hortifrúti