Quando o Programa Nacional de Biodiesel foi lançado em há 20 anos, a Agropalma, agroindústria especializada na produção e processamento de óleo de palma, foi a primeira empresa no Brasil a investir no biocombustível, no estado do Pará.

Na época, havia a promessa de compra garantida por parte da Petrobras, que valorizava especialmente matéria-prima produzida pela agricultura familiar, e a expectativa de que houvesse uma adoção acelerada do biodiesel no País.

Ao longo do tempo, não foi tão fácil quanto se imaginava. Empresas que começaram quase na mesma época que a Agropalma, como a Brasil Ecodiesel, que usava óleo de mamona para fazer o biodiesel, acabaram saindo do mercado.

Em 2010 a empresa pertencente ao empresário Aloysio Faria, ex-dono dos bancos Real e Alfa, falecido há 4 anos, acabou interrompendo a produção de biodiesel em sua planta de Belém. Isso porque a rota tecnológica utilizada na época para produzir o biocombustível não era eficaz o suficiente para garantir uma margem mínima de lucros com preços competitivos nos
leilões da Petrobras.

Neste cenário, a Agropalma seguiu avançando com os negócios que eram a principal atividade até então: o cultivo da palma ou dendê, como é conhecido na região e o processamento do óleo, para atender os mercados interno e externo.

O AgFeed conversou, com exclusividade, com o atual diretor Comercial, de Marketing e P&D da Agropalma, André Gasparini. Ele revelou que, depois de 14 anos paralisada, a produção de biodiesel da empresa deve ser retomada em junho, assim que saírem algumas certificações.

“A tecnologia evoluiu muito de lá pra cá e, como já tínhamos a planta, fizemos apenas uma mudança no processo, ajustando para outro tipo de matéria-prima e a fábrica fica pronta agora em maio”, explicou o executivo.

Ele garante que o objetivo não é competir com os grandes do setor de biodiesel, mas sim abastecer a demanda do próprio estado e, talvez, futuramente, utilizar até mesmo nos tratores da empresa.

A capacidade de produção será de 18 mil metros cúbicos de biodiesel. Para isso, podem ser processadas 17 mil toneladas de subprodutos das fábricas da Agropalma, o que inclui óleos de baixo valor, por exemplo, que sobravam durante o processo. “Usaremos todo o tipo de resíduo, desde o óleo na lagoa de efluente, ou o óleo com qualidade inferior, ácido graxo que sobrou do processo, basicamente os resíduos”, explicou.

O diretor da Agropalma não revela quanto está investindo para retomar a produção e também não divulga qual o faturamento atual da empresa. A última informação divulgada por ex-executivos é de 2021, quando a receita chegou a R$ 2,1 bilhões.

Gasparini disse apenas que “2022 foi um ano muito bom” e que 2023 foi de uma certa estabilidade, o que indica que, possivelmente o faturamento da companhia não tenha registrado queda significativa, apesar dos preços internacionais mais baixos do óleo de palma nos últimos tempos.

As áreas de plantio ficam na região do município de Tailândia, no Pará, a 270km de Belém. Na capital paraense, a Agropalma possui uma refinaria e a planta de biodiesel. Em Limeira, no interior de São Paulo, a empresa tem outra refinaria, que processa o óleo bruto e origina produtos de maior valor agregado.

O executivo diz que a fábrica paulista é importante para atender as indústrias das regiões Sul e Sudeste. “É uma logística mais simples, o cliente quer just in time, não quer ter estoque”.

O único produto que a Agropalma ainda exporta, segundo ele, é o óleo orgânico. No restante, o foco é 100% nacional, atendendo a demanda de produtos que antes eram importados. “Se ficar vendendo só óleo de palma refinado, estaremos fora daqui a alguns anos. Fomos focando cada vez mais em produtos de maior valor agregado”, explicou.

A Agropalma já foi considerada a maior do segmento no Brasil. Hoje, prefere dizer que “é a maior produtora de óleo de palma sustentável das Américas”. Criada em 1982, atualmente conta com seis indústrias de extração de óleo bruto, um terminal de exportação alfandegado, duas refinarias e emprega cerca de 5 mil colaboradores.

Preocupações em 2024

A Agropalma diz que o clima está prejudicando a produtividade neste início de ano, que ficou mais baixa em relação ao ano passado. “Mas 2024 será desafiador na fazenda. Já nas refinarias isso não é um limitador, podemos comprar a matéria-prima de outros fornecedores”, afirmou Gasparini, que espera uma melhora na produção já a partir do segundo semestre.

Segundo ele, há produtores que plantam 50 mil hectares de palma. Recentemente, um dos principais players de biocombustíveis do Norte do País, a BBF (Brasil Biofuels, de Roraima), também com foco em óleo de palma, pediu a suspensão do pagamento de suas dívidas por 60 dias e deixou em aberto uma possível recuperação judicial.

Na Agropalma, o executivo garante que as perspectivas são otimistas e a empresa vê grande espaço para crescer atendendo à demanda nacional. “Estamos mantendo planos de expansão porque acreditamos no mercado e na sustentabilidade do negócio”, reforçou.

Com a morte do empresário Aloysio Faria, em 2020, alguns negócios do grupo foram vendidos pelos herdeiros. O Banco Alfa, por exemplo, foi negociado em 2022 por R$ 1 bilhão com o Banco Safra. Antes disso, foi comercializado o terreno onde estavam o Hotel Transamérica e o Teatro Alfa.

Para a Agropalma, já houve rumores de que o futuro poderia ser um IPO da empresa, devido ao faturamento elevado e boas perspectivas no setor. André Gasparini não quis comentar o assunto.

Projeto de expansão

O diretor da Agropalma gosta de repetir que “o óleo de palma é o mais produzido e o mais consumido no mundo, o que muitas pessoas até duvidam, mas ele representa 32% de toda a produção global de óleo”. Mundialmente são produzidas 83 milhões de toneladas de óleo de palma. Os maiores produtores estão no Sudeste Asiático, sendo que 85% vêm da Indonésia, Malásia e Tailândia.

As áreas propícias para o cultivo da palma estão “10 graus acima e 10 graus baixo da linha do Equador, onde tem muita chuva e muito sol, onde plantação responde com produtividade”, diz ele.

Na América Latina, estima-se que há grande potencial de crescimento em função da disponibilidade de área e condições climáticas favoráveis. A Colômbia, por exemplo, é a quarta maior produtora do mundo, com 1,8 milhão de toneladas.

Já o Brasil, segundo dados da Abrapalma, que representa o setor, te, 240 mil hectares plantados e estaria produzindo entre 600 mil e 620 mil toneladas de óleo de palma. A maior parte da produção fica no mercado interno. “Temos uma aptidão gigante e o consumo local é muito maior que isso”, afirmou Gasparini. “O Brasil importou no ano passado quase 300 mil toneladas de óleo de palma”.

Em função desta oportunidade de crescimento no mercado interno, a Agropalma divulgou em 2021 um plano para expandir em 50% sua produção. Gasparini disse ao AgFeed que a empresa já conseguiu ampliar em 20% até agora e que acredita ser possível atingir a meta anunciada até 2027.

De qualquer forma, ponderou que o projeto de expansão prevê o replantio de áreas muito antigas e que são necessários alguns anos até que as árvores estejam mais maduras, no auge da produtividade.

Depois de plantada, uma palmeira nova leva de 2 a 5 anos para começar a produzir e só atinge a produtividade ideal a partir dos 8 anos. As árvores garantem boa produção até 25 anos, geralmente, explicou Gasparini.

O executivo ressaltou que o plano não é crescer em área, mas sim em produtividade. Os avanços em área cultivada ocorrem apenas via parcerias com agricultores familiares da região.

Refinaria da Agropalma em Limeira (SP)

A Agropalma produziu em 2023 um total de 160 mil toneladas de óleo. São 330 agricultores parceiros, sendo 60 em formato de integração (com mais de 10 hectares cada) e o restante familiares. A empresa contabiliza 107 mil hectares, sendo 64 mil hectares de reserva legal, 39 mil hectares plantados em área própria e cerca de 11 mil hectares com agricultores parceiros.

“A ideia é crescer com eles, neste ano de 2024 devemos ter mais 3 mil hectares com os parceiros”, disse o diretor.

Os planos futuros da Agropalma também passam pelo SAF, sigla em inglês para o combustível sustentável de aviação, que vem movimentando investimentos no mundo inteiro. “Estamos acompanhando essa onda de desenvolvimento de SAF e conduzindo um estudo em parceria com algumas instituições para avaliar as possibilidades sobre como isso pode ser desenvolvido de maneira realmente sustentável não apenas para o produtor e para as empresas, mas também para quem compra o produto final”, avaliou Gasparini.

O óleo de palma é usado principalmente na indústria de alimentos, como em frituras, chocolate, mas também em cosméticos e até para produzir o combustível de aviação. “É o óleo mais versátil do mundo, por isso não vejo redução de demanda. Pelo contrário, entendo que para atingir níveis necessários de produção de óleo para o SAF, vai ter que crescer a produção de óleos em geral. E a resposta mais rápida e com área disponível é a palma.”

O especialista diz que enquanto a palma produz 3,6 toneladas de óleo por hectare, a soja, por exemplo, produz 0,4. Além disso, ele destaca que um estudo feito pela Embrapa identificou 7 milhões de hectares no Brasil que são aptos ao cultivo de palma, sem a necessidade de desmatar.

“Digamos que fossem utilizados 1 milhão de hectares para isso, imagina o tamanho que o Brasil teria na produção mundial?”, ressaltou.

Desafios socioambientais

A cadeia do óleo de palma, historicamente, é alvo de controvérsias e críticas, em todo o mundo, especialmente por parte de ambientalistas. No Brasil, um dos desafios é o fato de as áreas de cultivo ficarem na região amazônica, onde, pelo Código Florestal, somente 20% das propriedades podem ser utilizadas e o restante deve ser destinado à preservação da floresta.

Mesmo empresas e produtores que cumprem a lei muitas vezes têm dificuldade de provar que estão regularizados porque ainda há questões pendentes envolvendo a titulação de terras, por exemplo.

No início do ano passado, a Agropalma teve suspenso um importante certificado internacional, RSPO (Mesa Redonda do Óleo de Palma Sustentável, na sigla em inglês), que havia sido concedido pelo IBD. Os motivos não foram detalhados na época, mas estariam relacionados aos conflitos envolvendo a posse de terras na região.

Na conversa com o AgFeed, André Gasparini disse estar confiante de que a suspensão será revista, já que a empresa possui outros certificados e vem investindo cada vez mais em atender as necessidades das comunidades da região. Segundo ele, o IBD “decidiu não mais certificar palma no Brasil” e o processo de recertificação precisou ser feito por outra empresa, a certificadora SCS Global Services, que já emite o RSPO em diversos países. “É só uma questão de tempo para que entendam a legislação brasileira”.

Para evitar novos incidentes, o executivo diz que a Agropalma tem trabalhado em conjunto com as comunidades da região. “Ficamos próximos pra entender o que está acontecendo. O Brasil tem muita insegurança jurídica no agro. Por isso monitoramos muito e certificamos com parceiros importantes”.

Ele diz que a produção é 100% certificada e que há parcerias com organismos como a Conservation International e o Instituto Ipê, para monitorar a fauna e flora da região, e evitar que pessoas entrem nas áreas de reserva.

“Usamos satélite, blockchain, a tecnologia ajuda bem para que o S e G sigam crescendo”, afirmou, se referindo a sigla ESG, que indica o comprometimento com a governança em questões sociais e ambientais.

Gasparini diz que estes estudos mostram que há 1030 espécies da fauna brasileira na área da Agropalma, sendo 40 em extinção, por isso é necessário ter a parceria com as ONGs. Ele destacou ainda o trabalho que vem sendo feito por alguns agricultores parceiros com aptidão para produzir outras culturas, como cacau, mandioca e pimenta do reino. “Estão adotando técnicas baseadas em agricultura regenerativa e sistemas agroflorestais com o nosso apoio e assistência técnica”.

Para seguir avançando na produtividade, a Agropalma também vem investindo em clones de variedades mais produtivas. Antes a maioria das mudas vinham de outros países. A produtividade média brasileira está abaixo da global, segundo Gasparini, mas na Agropalma estaria em linha com os padrões mundiais.

De olho na COP

A empresa diz que já trabalha em parceria com os governos, especialmente nos projetos de assistência técnica aos agricultores familiares. Com a realização da COP 30 em Belém, no próximo ano, a Agropalma também espera ter
espaço para mostrar o que vem fazendo em relação a sustentabilidade.

“Estamos acompanhando as discussões, poderemos fornecedor biodiesel, ou alimentos da agricultura familiar, nossa ideia é contribuir com o estado”, disse o diretor. As articulações estão sendo lideradas pela Abrapalma, segundo ele, o que envolve temas como mensuração da pegada de carbono e um pacote de serviços que a empresa pode prestar.

Um dos projetos recentes, relacionados com a busca de uma melhor pegada de carbono, foi a construção de um galpão de compostagem, onde a matéria orgânica é convertida em adubo.