O ano de 2025 foi um daqueles em que o planejamento do setor cafeeiro precisou ser refeito mais de uma vez. Primeiro veio uma safra menor do que o esperado por conta do clima. Depois, o tarifaço dos Estados Unidos para embaralhar o fluxo do principal mercado consumidor do café brasileiro.

Mesmo diante disso, aExpocacer, cooperativa dos cafeicultores do Cerrado Mineiro, encerrou o ano crescendo: registrou faturamento próximo de R$ 3,2 bilhões, uma alta de mais de 50% em relação a 2024, recorde histórico da entidade, que ainda conseguiu aumentar suas exportações abrindo novos mercados na Ásia e Europa.

Agora, encara 2026 diante de um cenário diferente: a safra volta ao ciclo positivo da bienalidade tradicional da cultura, mas com novas (ou velhas) variáveis - desta vez climáticas - voltando a testar o setor cafeeiro.

"Conseguimos cumprir nossos objetivos no ano passado, apesar de dificuldades não programadas, que chamo de 'variáveis independentes", disse ao AgFeed o presidente da Expocacer, Simão Pedro de Lima. "Primeiro tivemos o clima afetando a produção. Depois, o tarifaço americano impactando a comercialização. Uma variável mexeu com a safra e outra com o fluxo internacional", explicou.

A quebra de safra apareceu primeiro nos armazéns da cooperativa. Em 2025, a Expocacer recebeu 1,1 milhão de sacas de café, queda de 10,7% em relação às 1,23 milhão registradas no ano anterior, reflexo justamente da bienalidade negativa do café arábica e dos problemas climáticos enfrentados ao longo do ciclo.

Ao mesmo tempo, o comportamento do produtor também mudou. O presidente da cooperativa explicou que, com os preços do café em patamares historicamente elevados, muitos cooperados optaram por vender apenas o necessário para fazer caixa e carregaram uma parcela maior da produção para os meses seguintes. O resultado foi uma redução expressiva na movimentação física dos armazéns da cooperativa.

"Foi um ano de menor produção, mas também de menor comercialização por parte do produtor. Como o café estava mais valorizado, ele precisava vender menos para gerar o mesmo recurso financeiro. Foi um ano em que o mercado se manteve aquecido pela oferta menor do produtor e não só pela safra menor", afirmou Lima.

O volume embarcado pela Expocacer caiu de 1,57 milhão para 1,01 milhão de sacas entre 2024 e 2025. Para compensar a menor disponibilidade de café na região do Cerrado Mineiro, a cooperativa intensificou a originação de grãos em outras praças produtoras, como a Mogiana Paulista e o Sul de Minas.

Mesmo assim, o volume comercializado permaneceu praticamente estável em relação ao ano anterior, próximo de 1,4 milhão de sacas. Segundo a cooperativa, parte dos embarques previstos para dezembro acabou sendo transferida para janeiro de 2026 por limitações logísticas, como a falta de contêineres e escalas de navios.

Como se a menor oferta não bastasse, um segundo fator passou a pressionar a cooperativa no meio do ano: o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, principal destino do café brasileiro.

Durante cerca de dois meses, explicou Lima, o mercado americano reduziu o ritmo das compras enquanto importadores aguardavam definições sobre as tarifas. A apreensão afetou o fluxo internacional justamente em um momento de menor disponibilidade de café no Brasil. "Foi uma situação inusitada. O tarifaço afetou o fluxo, mas conseguimos controlar esse período", disse.

O segredo, segundo ele, está nos hubs internacionais da cooperativa. Antes mesmo do anúncio das tarifas, a Expocacer já havia embarcado volumes relevantes para sua estrutura nos Estados Unidos, o que permitiu manter o abastecimento dos clientes durante o período. Paralelamente, a cooperativa acelerou a abertura de mercados na Europa e na Ásia, além de iniciar as operações de seu hub em Londres.

O resultado foi um crescimento de 41% nas exportações da cooperativa em 2025. As vendas externas passaram a representar 55% de todo o volume comercializado, com avanço principalmente na Europa, Japão, Coreia do Sul e China, mercado que passou a ser atendido diretamente pela Expocacer.

"O tarifaço afetou, mas também acelerou um movimento que já estávamos fazendo de ampliar nossa presença em outros mercados. Europa e Ásia ganharam importância e conseguimos cumprir nossa programação comercial", afirmou.

"Efetivamente o tarifaço afetou uns 60 dias. Nos afetou, mas conseguimos 'driblar' essa situação com estoques que já estavam por lá. E quando ele foi suspenso, já voltamos rapidamente a operar por conta do hub", continuou.

Os hubs no exterior servem para que a cooperativa atinja pequenos clientes de outros países, como pequenas torrefadoras e  cafeterias. Diferente de filiais tradicionais, essas operações funcionam como empresas locais, que recebem o café em contêineres e o distribuem de forma fracionada.

Toda a operação é controlada a partir do Brasil e a Expocacer apenas contrata armazéns nesses países, que ficam responsáveis pela entrega da mercadoria. Sem o hub, a venda para fora fica restrita à grandes importadores, que compram sozinhos um container com 230 sacas, por exemplo. A possibilidade de fracionar as vendas faz com que o café dos cooperados da Expocacer chegue em mais locais e com cargas de 10 sacas.

O faturamento no ano passado foi recorde, segundo Lima, e se deve, além do aumento das exportações, ao preço do café. O resultado da Cooperativa também avançou: saiu de R$ 33 milhões para R$ 53 milhões em 2025.

A Expocacer reúne quase 800 cafeicultores no Cerrado Mineiro, que cultivam aproximadamente 85 mil hectares de café, dos quais 72 mil estão atualmente em produção. A área representa cerca de um terço de toda a região cafeeira do Cerrado, segundo estimativas da cooperativa com base em dados da Conab, e está distribuída por municípios como Araguari, Monte Carmelo, Carmo do Paranaíba, Campos Altos e São Gotardo.

Preço recorde não significa lucro recorde

A valorização histórica do café nos últimos anos poderia sugerir um produtor mais capitalizado e confortável financeiramente. Simão Pedro de Lima concorda, mas apenas em parte.

Questionado se a menor pressão para vender café decorre justamente de um caixa reforçado após sucessivas altas da commodity, o presidente da Expocacer respondeu que o cenário é mais complexo.

Segundo ele, parte dos produtores de fato melhorou sua condição financeira, mas muitos sequer conseguiram capturar integralmente a disparada das cotações registrada desde 2021.

Isso porque boa parte da produção já havia sido negociada antecipadamente a preços muito inferiores aos que o mercado passou a praticar após as geadas históricas e, posteriormente, diante das sucessivas quebras de safra.

"Quando o mercado chegou a R$ 1,5 mil por saca, havia produtor vendido a R$ 450 ou R$ 500. E pior: muitos ainda tiveram quebra de produção. Quem tinha vendido 40% da safra e colheu apenas metade acabou comprometendo praticamente todo o café a preços muito abaixo do mercado", afirmou.

Somado a isso, ainda houve, no caso de quem teve quebra na produção, uma "rolagem da entrega", que causou cenários em que um cafeicultor travou um preço, viu ele subir, quebrou, não conseguiu entregar naquele ano, postergou essa entrega e vendeu, na prática, um café com preço de dois anos antes.

Segundo Lima, esse movimento gerou uma espécie de "trauma" entre os cafeicultores e ajuda a explicar por que a comercialização antecipada da safra 2026 está muito abaixo da média histórica.

Normalmente, entre 30% e 35% da produção é vendida antes mesmo da colheita. Neste ano, a Expocacer estima que menos de 20% da safra tenha sido negociada antecipadamente.

"Isso até gerou um receio no produtor para fazer novos contratos com preços futuros. Além do receio de não ter a quantidade para entregar, tem o do preço alto, o 'vai que sobe mais'", contou.

Outro fator que desestimulou as vendas futuras foi a própria estrutura do mercado. Ele relembra que desde 2022, o café passou a operar com spread negativo entre os contratos físicos e futuros, reduzindo o incentivo para travar preços antecipadamente.

"Para comprar a mesma quantidade de insumos vendendo café futuro, o produtor precisava vender mais sacas do que venderia no mercado físico. Isso fez muita gente optar por comercializar apenas o café disponível", afirmou.

"O produtor está melhor capitalizado do que antes? Na média sim, o que permite que, com menos café, se venda menos para cobrir os custos, mas também houve aumento nesses gastos para produção", continuou.

A volta da bienalidade positiva

Se 2025 foi marcado por problemas comerciais, 2026 recoloca o clima no centro das atenções. Favorecida pelo retorno da bienalidade positiva do café arábica e por um regime de chuvas considerado adequado durante boa parte do desenvolvimento das lavouras, a Expocacer projeta uma produção de 2,85 milhões de sacas na região do Cerrado Mineiro, acima da temporada passada.

"O clima foi bastante favorável durante praticamente todo o ciclo. Tivemos chuvas em momentos importantes e isso trouxe uma produtividade até um pouco superior ao que imaginávamos inicialmente", afirmou Lima.

O problema surge agora, com chuvas registradas durante a colheita atrasando os trabalhos e levantando preocupações quanto à qualidade da safra. Até o início de julho, cerca de 32% da produção havia sido colhida na área de atuação da cooperativa, contra 42% no mesmo período do ano passado.

Segundo o presidente da Expocacer, parte dos frutos caiu ao solo durante esse período, aumentando os riscos de fermentação e reduzindo o potencial para cafés especiais.

"A gente estima que essas perdas possam chegar perto de 20% do que estava previsto inicialmente. No fim das contas, parte do ganho quantitativo acaba sendo compensado por uma perda de qualidade", disse.

O atraso na colheita, porém, não preocupa tanto. Além do maior volume de café neste ciclo, a cooperativa atribui o ritmo mais lento às floradas mais tardias registradas ao longo do desenvolvimento da safra e às interrupções provocadas pela chuva.

Apesar da recuperação da produção e pensando em preços, Lima afirma que uma safra maior ainda não será suficiente para recompor os estoques globais de café arábica. "Desde 2021 nós não temos uma sequência de grandes safras. Uma produção maior ajuda, mas sozinha não resolve o problema da oferta".

Por isso, a expectativa da cooperativa é de que os preços permaneçam sustentados ao longo do ciclo, ainda que sujeitos às oscilações provocadas pelo ambiente macroeconômico e pelas condições climáticas.

Para a Expocacer, a perspectiva é de aumento de aproximadamente 15% na movimentação de café em 2026. Mantido o atual patamar de preços, a cooperativa espera registrar novo crescimento tanto em faturamento, que nas palavras de Lima, deve vir "ou em linha ou um pouco acima" neste ano.

Resumo

  • Expocacer faturou R$ 3,2 bilhões em 2025, alta de mais de 50%, mesmo com safra menor e tarifaço dos EUA
  • Exportações da cooperativa cresceram 41% em 2025, com avanço na Europa e Ásia. Com isso, vendas externas subiram para 55% do volume comercializado
  • Cooperativa projeta alta de 15% na movimentação de café em 2026, impulsionada pela volta da bienalidade positiva