Rio Verde (GO) - Na esteira de um mercado de máquinas e implementos agrícolas mais fraco, a paulista Piccin deve enfrentar mais um ano de queda na receita em 2026.

Enquanto acompanha o recuo do setor e a crescente na inadimplência rural, a empresa tenta se reposicionar com um avanço das exportações e uma aposta ainda incipiente na agricultura digital.

Depois de um 2025 que já terminou abaixo do esperado e com queda nas vendas, o cenário neste ano não mudou, e, na leitura do CEO da Piccin, Camilo Ramos, segue bastante alinhado ao restante da indústria.

“2025 começou com boas perspectivas, mas depois do primeiro trimestre já não seguiu como planejado. E agora é a mesma curva. Uma nova queda”, disse ao AgFeed, durante a edição de 2026 da Tecnoshow Comigo, em Rio Verde (GO).

A percepção de Ramos reflete a projeção setorial. Nesta semana, a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), projetou queda de 8% no faturamento das vendas de máquinas e implementos agrícolas no Brasil em 2026.

No pano de fundo, margens menores por parte dos produtores, juros altos, crédito restrito e os impactos do conflito no Oriente Médio. Segundo a entidade, só no primeiro bimestre de 2026, as vendas recuaram 17%.

Criada como Irmãos Piccin na década de 1960 em São Carlos (SP), a empresa sempre teve seu negócio focado em equipamentos para preparo de solo. Nos últimos anos, no entanto, a Piccin diversificou suas atividades. Em 2023, por meio de uma joint-venture com a Crucianelli, entrou no segmento de plantio, e mais recentemente, junto da Quanticum, passou a atuar com tecnologias de agricultura de precisão.

Camilo Ramos citou que apesar da diversificação, quase todo faturamento da empresa ainda é ancorado na venda dos implementos agrícolas.

Para o CEO da Piccin, a queda do faturamento da empresa costuma acompanhar de perto os números da Abimaq, mas com um agravante: no caso dos implementos, a queda costuma ser mais acentuada.

“O implemento normalmente cai um pouco mais do que a média, porque o trator ainda tem aquele movimento de estoque na revenda. O nosso produto está mais ligado ao uso direto”, afirmou.

Para agravar a situação, a Piccin hoje está mais exposta ao mundo dos grãos como soja, milho e algodão, setores que convivem com preços mais baixos e margens mais apertadas.

Esse cenário tem sido pressionado por um ambiente de crédito mais restritivo e aumento da inadimplência no campo - citando os dados do Banco Central - um movimento que, segundo Ramos, acendeu um alerta dentro da companhia.

O Banco Central registrou, ao final de março, 7,3% a 7,4% de operações de crédito rural com mais de 90 dias de atraso entre fevereiro e março de 2026.

“O número de inadimplência é assustador. A gente está vendo um cenário em que mesmo hoje, já em abril, ainda existe recurso do Plano Safra do ano passado. Não acredito que seja só produtor que não esteja buscando, mas o banco está um cenário de risco maior, exigindo mais garantias”, disse.

Diante disso, a estratégia da empresa tem se portado menos em uma posição de espera de recuperação e entendendo como atravessar o ciclo. “Não dá para ficar esperando o mercado voltar ou a taxa de juros cair. A venda está acontecendo em algum lugar, e o nosso trabalho é encontrar onde ela ocorre”, afirmou.

Na prática, isso tem significado uma mudança de postura comercial, com maior proximidade tanto das revendas quanto dos produtores, além de ajustes internos para ganhar eficiência.

“A palavra de ordem é eficiência máxima, do portão para dentro e do portão para fora”, disse.

Uma das principais válvulas de escape tem sido o mercado externo. A empresa intensificou os investimentos na área e começou a colher resultados. Em 2025, as exportações da Piccin cresceram 80% em relação ao ano anterior.

Em 2026, o ritmo segue acelerado: só no primeiro trimestre, as vendas para o exterior já superam o volume planejado.“A gente projetava crescer 35% e já está 40% acima disso”, afirmou Ramos.

Hoje o principal destino está na América do Sul e Central, mas a Piccin também tem uma atuação menor no Canadá. No ano passado, a exportação representou cerca de 10% do faturamento.

Para este ano, a expectativa é que essas remessas cheguem a 25% das vendas do grupo, ou até mais, a depender da performance do mercado interno.

Se por um lado a exportação ajuda a compensar a queda, por outro, as apostas mais recentes da empresa em diversificar para além de “vender ferro” ainda não ajudam a compensar a queda do mercado de máquinas.

A Piccin vem crescendo suas soluções de agricultura digital como a plataforma Green X. Os projetos foram colocados de pé, mas a adoção de tecnologia ainda está aquém do previsto.

“A tração foi muito menor do que a gente imaginava. O produtor olha e fala: ‘é interessante, mas não é o momento’”, disse. Segundo ele, a resistência não está necessariamente na tecnologia em si, mas no contexto.

“É algo disruptivo. A gente entrega desde análise de solo até predição, mas existe uma combinação de fatores: momento de margem apertada, desconfiança com tecnologia e até uma questão cultural”, acrescentou.

Hoje, essa vertical de agricultura digital, na qual ele chama de “Família Terrus” - nome do spin-off feito junto com a Quantium, representa cerca de 2% da receita da empresa. Atualmente são 2 milhões de hectares que já contrataram esses serviços, segundo a Piccin.

A atuação vai para além dos grãos, e tem forte presença no café e setor florestal. Mesmo assim, a leitura interna é de que a adoção pode acontecer ao longo do tempo, especialmente à medida que a pressão por eficiência aumenta no campo. “A eficiência virou a palavra de ordem para todo mundo. É difícil o produtor não caminhar para isso em algum momento”, afirmou.

No curto prazo, porém, o foco segue mais básico: caixa, venda e sobrevivência em um mercado que ainda não dá sinais claros de reação.

O movimento das feiras ajuda a ilustrar essa dificuldade que ainda insiste em persistir. Segundo Ramos, a performance de vendas na Show Rural Coopavel e na Expodireto foram “terríveis”.

Apesar disso, a manhã do primeiro dia da Tecnoshow já animava mais o executivo, que conversou com o AgFeed após o horário do almoço e relatou que os vendedores o contaram animados que já havia sido vendido cerca de 50% do exposto no estande em apenas poucas horas.

“Aqui está melhor, já vendemos cerca de metade das máquinas expostas. Mas o cenário geral ainda é difícil. A Tecnoshow e a Agrishow geralmente são melhores para a gente em negócios”, disse o CEO.

Resumo

  • Piccin projeta nova queda no faturamento em 2026 com produtor com margens baixas e cauteloso
  • Apesar disso, receita com exportação cresceu 80% ano passado, com equipamentos chegando principalmente na América do Sul
  • Vertical de agricultura de precisão ainda não decolou, com dificuldade na adesão de tecnologia no campo