A abertura do mercado para que fundos comprem CPRs diretamente parecia, há pouco tempo, uma ameaça ao modelo tradicional dos CRAs.

Mais barato, mais simples e sem a necessidade de uma securitizadora no meio do caminho. Na prática, o movimento ilustrou alguns limites. Foi nesse contexto que a securitizadora Canal estruturou uma operação que, apesar de técnica, ajuda a explicar para onde o mercado pode caminhar.

A casa criada pelas sócias Amanda Martins e Nathalia Machado montou um CRA de R$ 50 milhões ligado a uma CPR da Itaueira Agropecuária. Mas o ponto não está no instrumento, que já existe, e sim na forma como ele foi organizado.

Quando os fundos passaram a poder comprar CPR diretamente, a promessa era cortar custos, já que sem a securitizadora no meio, a operação ficaria mais barata. O problema é que, junto com o custo, também saía uma peça importante da engrenagem.

“O gestor quer gerir o fundo. Quando ele compra uma CPR direta, ele passa a ter que monitorar o ativo, calcular preço, cobrar documentos, acompanhar garantias. Isso dá trabalho”, disse Amanda Ribeiro, sócia da Canal, ao AgFeed.

Num momento em que o agro passou a conviver com mais inadimplência e necessidade de controle mais próximo das operações, a simplicidade ficou complexa.

A operação estruturada pela Canal tenta equilibrar essa equação porque, de um lado, mantém a CPR como ativo do crédito. Mas do outro, “recoloca” a securitizadora dentro da história - com governança exigida por investidores maiores.

A Canal conectou a estrutura da CPR emitida pela Itaueira, lastreada em um imóvel e adquirido por bancos a uma nova emissão. Dessa forma, os investidores do CRA passaram a compartilhar a garantia.

Na prática, dois grupos diferentes de credores (da CPR e do CRA) passaram a ter direito sobre o mesmo ativo. Isso exigiu um acordo para definir como as decisões seriam tomadas. A solução foi dividir o poder igualmente.

“Nosso papel foi estruturar esse acordo entre credores e garantir que a governança funcionasse. O desafio foi colocar dois bancos grandes para dividir uma mesma garantia com regras claras”, explicou Ribeiro.

Cada lado ficou com 50% dos votos nas decisões sobre a garantia. Em vez de um único credor com controle total, criou-se uma espécie de “condomínio” sobre o ativo, algo incomum em operações públicas desse tipo.

É esse desenho que permite que investidores institucionais entrem na operação. Isso porque muitos desses fundos não podem, por regulamento, comprar CPRs diretamente, mas podem investir em CRAs.

A emissora das CPRs, a Itaueira, é um grupo nordestino dedicado à produção de frutas. Dona da marca Rei Alimentos e famosa pela Melancia da Magali, faturou mais de R$ 500 milhões em 2025 e vinha de uma sequência de captações para alongar o perfil da dívida. Antes da CPR (que “virou” CRA), a companhia já havia levantado R$ 100 milhões via notas promissórias.

O CRA tem prazo até 2030 e remuneração de CDI mais 1,70% ao ano. A companhia detém mais de 20 mil hectares de terras próprias, com 3 mil hectares de melão e melancia.

No ano passado, ultrapassou 85 mil toneladas em vendas dessas frutas. A empresa ainda produz pimentões entre o Ceará e Piauí e possui viveiros de camarão no Rio Grande do Norte.

Outros produtos da Itaueira envolvem mel, sucos, polpas e frutas processadas. A leitura da Canal é que esse tipo de estrutura tende a ganhar espaço em um mercado mais seletivo.

“Quando existe algum default, começa uma cobrança grande de documentos e obrigações financeiras. Só parece mais barato e fácil controlar a CPR por ter menos players envolvidos”, disse.

“Achei que seria ruim pra gente essa possibilidade dos fundos comprarem CPR diretamente, mas foi bom para valorizar o trabalho da securitizadora. Claro que defaults de má fé não conseguimos mitigar, mas evitamos problemas”, completou.

Fundada em 2021, a Canal acumulou mais de R$ 10 bilhões em emissões em quatro anos e tem apostado justamente nesse posicionamento: atuar como estruturadora e também como responsável pelo acompanhamento das operações.

Depois de um período mais travado para o crédito rural, a expectativa é de retomada nas emissões de CRA, acompanhando a volta das captações dos fundos dedicados ao agro. A projeção, segundo a sócia, é de cerca de 10 emissões de CRA em 2026.

A maior parte das emissões da securitizadora é feita para produtores rurais, mas a Canal já estruturou emissões para empresas como a Agronorte, a revenda Ponto Rural e a Binatural. Até hoje foram 46 CRAs estruturados.

“Fizemos mais CRIs nos últimos arque vimos muitos defaults no agro e atuamos no middle market. Projetamos mais emissões esse ano, venho falando com gestoras e Fiagros que voltaram a captar, e eles vão precisar de mais operações”, disse.

Ribeiro conta que fundou a Canal para atuar como uma “securitizadora que presta serviços sem conflito de interesse”, já que não possui uma asset, gestora para encarteirar os próprios papéis ou algum outro sócio.

Resumo

  • Canal cria CRA com CPR da Itaueira Agropecuaria e monta estrutura com garantia compartilhada entre credores
  • Compra direta de CPR reduz custos para o fundo, mas transfere ao gestor tarefas como monitorar risco e garantias
  • Canal acumula mais de R$ 10 bi em emissões e aposta em estruturar e monitorar operações de crédito