Há pouco mais de um ano, ao final de 2024, o mercado de crédito privado do agronegócio parecia viver um fundo do poço. Fiagros caíam em uníssono após a crise da RJ da Agrogalaxy e inadimplências em camadas diversas no setor, enquanto as emissões de CRA apontavam para uma queda frente o visto em 2023 e 2022.
Depois da tempestade, 2025 marcou uma reorganização no mercado. Ainda longe da euforia, é verdade, mas mostrando uma recuperação nas emissões e no humor dos investidores de fundos da cadeia.
Os números ajudam a contar essa história. As emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) somaram R$ 52,1 bilhões até o final de novembro de 2025, segundo dados da Quantum Finance. Em 2024, haviam sido emitidos R$ 42,8 bilhões, e em 2023, no pico, foram R$ 57,1 bilhões.
Ao final do penúltimo mês de 2025, o estoque total de instrumentos privados de financiamento do agro (CRAs, LCAs, CPRs e Fiagros) atingiu R$ 1,41 trilhão, com crescimento disseminado entre praticamente todas as modalidades, segundo o Boletim de Finanças Privadas do Agro, do Ministério da Agricultura.
A leitura predominante no mercado é que 2025 funcionou como um ano de “digestão” dos excessos anteriores. “O agro como um todo recuperou margens em relação aos últimos anos. Não foi um grande ano, mas foi melhor do que o período anterior, que vinha de quebra de safra, choque de custos e problemas pontuais”, afirmou Vitor Duarte, CIO da Suno Asset, em entrevista ao AgFeed.
O movimento ficou evidente na performance dos Fiagros ao longo de 2025. Após um 2024 difícil, os fundos agro listados na Bolsa voltaram a apresentar retornos expressivos, tanto em valorização quanto em dividendos.
Dados elaborados a partir de um levantamento da fintech Grana Capital mostraram que, até o dia 29 de dezembro, 11 dos Fiagros listados de maior liquidez no mercado viram suas cotas valorizarem dois dígitos.
No topo do ranking, o HGAG11, da High Asset, acumulou alta de 63,50% no ano até o fim de dezembro, enquanto XPCA11, da XP, e JGPX11, da gestora JGP, subiram 44% e 39%, respectivamente.
Mesmo fundos com estratégias mais conservadoras - que apostam em papéis de empresas maiores - como KNCA11, da Kinea, e CRAA11, da Sparta, fecharam o intervalo com ganhos próximos de 8%.
“O mercado estava completamente disfuncional um ano atrás”, diz Duarte. Segundo ele, o que aconteceu em 2025 foi uma volta à normalidade.
Olhando para 2026, a avaliação é de continuidade desse processo de normalização, com novas emissões e talvez novos fundos chegando ao mercado, como sinalizou a XP há alguns meses.
O ambiente macroeconômico ainda exige cautela, sobretudo em um cenário de juros elevados por mais tempo e com casos pontuais de estresse de crédito ainda em acompanhamento.
Só de novembro para cá, dois players do agro - Belagrícola e a cooperativa Cotribá - demonstraram problemas financeiros graves. A primeira entrou em recuperação extrajudicial e a segunda luta na justiça para manter uma proteção contra os credores.
Acontece que as duas possuem CRAs em Fiagros listados - a primeira no Fiagro da Valora (VGIA11), da JPG e da Capitânia (CPTR11) e a segunda no fundo da Ecoagro (EGAF11).
Para Vitor Duarte, da Suno Asset, a tendência é que o mercado siga fazendo uma distinção mais clara entre diferentes perfis de risco.
“As carteiras high grade estão se comportando muito bem, com adimplência elevada. Já quem foi postergando problemas acabou ficando mais fragilizado”, afirmou.
Na leitura do gestor, fundos com exposição a empresas mais alavancadas devem continuar operando com desconto, enquanto veículos com histórico de constância tendem a ser novamente precificados de forma mais justa.
No pano de fundo, permanece o debate regulatório. A discussão sobre possível tributação de instrumentos isentos e as mudanças nas regras de lastro e dispersão de risco seguem no radar, ainda que o consenso no mercado seja de que eventuais alterações devem ser graduais.
Especificamente nos Fiagros, entrou em vigor a regulamentação definitiva do setor, que permite que os fundos agro sejam multimercado, ou seja, que tenham arranjos personalizados como a compra de CRAs, de terras, participação de empresas e de outros fundos tudo dentro de um mesmo veículo.
O início do ciclo de corte da taxa Selic aparece no horizonte como um dos principais vetores para 2026. Embora os Fiagros sejam majoritariamente atrelados ao CDI, Duarte lembra que a queda da taxa básica pode, paradoxalmente, aumentar a atratividade relativa do produto.
“O spread de crédito é pré-fixado. Quando o CDI cai, esse diferencial passa a representar uma parcela maior do retorno”, explica.
Para o CIO da Suno Asset, esse mix de precificação mais equilibrada das cotas e a nova regulamentação pode fazer com que alguns fundos voltem a acessar capital, mas ainda sem mudança de estratégia.
“Não vejo follow-on como sinônimo de troca de perfil. A tendência é reforçar a mesma lógica de crédito, não reinventar o fundo”, afirma.
Esse arranjo da nova regulamentação poderá ser visto em novos fundos criados do zero, acredita.
Otávio Araújo, consultor sênior da corretora Zero Markets Brasil, cita que o rendimento em 2025, somado a um dividend yield acima de 15% é muito relevante para o investidor, e mesmo com casos de CRAs com problemas, não será suficiente para afugentar o investidor em 2026.
“Quando os juros começam a cair, os instrumentos financeiros que não são de renda fixa começam a ter mais relevância. A Selic deve começar a cair no segundo semestre e, com isso, trazer um pouco mais de olhar para os Fiagros”, disse Araújo.
Nos CRAs e LCAs, retomada deve continuar
Além do avanço nas emissões de CRAs, o estoque desses títulos cresceu 17% até o final de novembro, segundo dados do Mapa, chegando a R$ 173,71 bilhões. Nas LCAs, o avanço foi de 18% em um ano, para R$ 603,3 bilhões.
As emissões de 2025 recolocam os CRAs num patamar mais próximo da média recente, num movimento que, segundo analistas, reflete tanto uma reorganização do lado dos emissores quanto uma reprecificação do risco por parte dos investidores.
“2025 foi um período de ajuste, com o mercado digerindo um crescimento muito acelerado do estoque nos anos anteriores”, afirma Otávio Araújo, da Zero Markets Brasil.
Segundo ele, parte dessa dinâmica também esteve ligada ao ambiente macro. “A Selic deu sinais de que poderia cair, depois voltou a subir, o que gerou uma reavaliação de risco e trouxe volatilidade para os instrumentos isentos”, diz.
Ainda assim, em 2025, a retomada das emissões foi favorecida por uma “corrida” nas emissões diante de um receio novamente de mudanças tributárias a partir de 2026.
Essa corrida trouxe emissões multibilionárias no segundo semestre, como a Seara que emitiu R$ 3,75 bilhões numa emissão com vencimentos em até 50 anos. Além dela, a Minerva e a BRF captaram mais de R$ 2 bilhões cada ao longo do ano.
As LCAs, por sua vez, seguirão desempenhando um papel central na alocação de recursos ao agro em 2026, na avaliação de Otávio Araújo. Segundo ele, os juros elevados favorecendo títulos de renda fixa pode, impulsionar novamente esses títulos no ano que vem.
“Com Selic alta, o investidor encontrou nas LCAs um produto de risco muito baixo e retorno bastante competitivo”, disse Araújo. A discussão sobre eventual tributação de títulos isentos segue no radar, mas a avaliação majoritária no mercado é de que, se houver mudanças, elas devem ser graduais. “Uma eventual alíquota tende a ser mais baixa do que em outros produtos de renda fixa e dificilmente passaria de forma ampla”, afirma Araújo.
“A bancada agro é muito forte e nenhuma taxação deve seguir no Congresso. E se passar alguma, vai ser algo muito específica e com limitações de isenção”, acrescentou o consultor.
Resumo
- Após o tombo de 2024, Fiagros voltaram a entregar retorno em 2025, com 11 fundos do setor listados em Bolsa registrando valorização de dois dígitos
- Emissões de CRAs somaram R$ 52,1 bilhões até novembro, recuperando parte do terreno perdido, enquanto o estoque de LCAs cresceu 18% e segue como principal fonte privada de funding do agro
- Para 2026, o mercado projeta continuidade da normalização, com maior distinção entre risco high grade e crédito estressado, além de atenção ao ciclo de juros e ao debate regulatório