A geopolítica é inerente ao setor de fertilizantes, globalmente. A cada guerra, a cada decisão unilateral de um grande detentor de matéria-prima para estes produtos, a alta de preços e a incerteza de abastecimento tiram o sono de empresas e produtores rurais no mundo inteiro.

Com a guerra no Irã, por exemplo, os preços do petróleo e derivados subiram, ao mesmo tempo em que a logística do setor virou um desafio, com o fechamento do Estreito de Ormuz.

Um dos efeitos foi a disparada no preço do enxofre, um insumo essencial para produzir o ácido fosfórico, que dá origem aos principais fertilizantes fosfatados utilizados na agricultura global, como MAP e SSP.

“O preço do enxofre que estava em US$ 100 (antes da guerra) chega a ser oferecido hoje a US$ 1,2 mil para indústria brasileira”, disse ao AgFeed, uma fonte do setor.

Dos três fertilizantes mais utilizados na agricultura – NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio), os fosfatados são o segmento onde a dependência do importado era um pouco menor, de aproximadamente 70%, enquanto nos nitrogenados por exemplo é superior a 90%.

As entregas de fosfatados - medidas pelo volume de nutrientes P2O5 - totalizaram 5,6 milhões de toneladas no ano passado.  Já a produção nacional foi estimada em 1,7 milhões de toneladas (30% da demanda nacional).

A tendência é que no cenário atual o Brasil fique quase que 100% dependente do importado. A produção destes produtos no primeiro trimestre deste ano já caiu 8% (período em que ainda não havia o maior efeito da guerra).

Empresas importantes do setor, como a Mosaic, interromperam a produção devido a inviabilidade econômica de comprar uma matéria-prima que chega a ficar mais cara do que o fertilizante, produto final, em função do desequilíbrio de oferta e demanda.

Neste cenário, o governo brasileiro instalou uma espécie de “gabinete de crise” ou “sala de situação” para discutir medidas que possam evitar uma eventual falta de fertilizantes para a safra 2026/2027.

O AgFeed apurou que um dos pleitos apresentados pela indústria à Casa Civil é que seja criado algum mecanismo que subsidie as fabricantes locais que compram o enxofre para fazer fertilizante fosfatado, evitando assim, o fechamento de mais unidades.

O setor entende que outras áreas, como combustíveis, por exemplo, receberam incentivos tributários para atenuar os efeitos da guerra.

A indústria de fertilizante já conta com razoável desoneração, por isso seria necessário encontrar outros meios de subsidiar as empresas neste momento.

Uma das possibilidades seria por meio do Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), projeto de lei que está tramitando no Congresso Nacional.

O programa prevê um fundo de incentivo à produção nacional. O temor da indústria é de que surjam novos impostos e taxas para alimentar este fundo, o que só pioraria o problema.

Segundo fontes do setor, um dos caminhos em discussão está relacionado ao AFRMM (Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante), um tributo federal incidente sobre o valor do frete marítimo. Atualmente, os recursos arrecadados vão para um fundo de suporte à infraestrutura da marinha.

Na situação atual, poderia se definir pela mudança no perfil desta contribuição e realocação do dinheiro em um fundo de apoio à produção nacional de fosfatados. Mas são apenas hipóteses que vem sendo levantadas pelo grupo.

Em outra frente, o grupo do governo vem sendo demandado para fazer uma varredura emergencial de fertilizantes como mostrou uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, recentemente.

As fontes ouvidas pelo AgFeed dizem que tem havido disposição do Itamarati, do BNDES, do Ministério de Minas e Energia e diferentes áreas do governo para buscar estes fornecedores globais. A resposta, no entanto, nos demais países, tem sido “não temos”, afinal há um descompasso entre oferta e demanda em todo mundo.

Pode faltar fertilizante para a safra 2026/2027 que começa a ser plantada em setembro? O risco existe, mas não é possível afirmar com certeza, segundo as principais fontes do segmento.

Isso porque o preço ficou tão alto que está levando a um desestímulo de compra por parte dos produtores, que estariam dispostos a reduzir a adubação. Por isso, ainda haveria estoque disponível.

Resumo

  • Disparada do preço enxofre está tornando inviável a fabricação de fertilizantes fosfatados no Brasil
  • Indústria negocia com integrantes do governo federal formas de subsidiar a compra de enxofre para manter a produção nacional do fertilizante
  • A criação de um fundo de apoio à indústria, redirecionando recursos de outros setores, é uma das propostas em discussão