Os tempos de incerteza geopolítica seguem impactando as exportações de café do Brasil, que voltaram a registrar queda no mês de março.
Dados divulgados nesta segunda-feira pelo Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) indicam que os embarques somaram 3,040 milhões de sacas de 60 kg em março, uma queda de 7,8% em relação ao mesmo período do ano passado.
A receita cambial atingiu US$ 1,125 bilhão, um recuo de 15,1%. Segundo o Cecafé, as exportações do produto chegaram a 29,093 milhões de sacas no acumulado dos nove primeiros meses do ano safra 2025/2026, volume que fica 21,2% abaixo do mesmo período da safra anterior.
Já em receita, as remessas renderam US$ 11,431 bilhões, registrando alta de 2,9% ante o apurado entre julho de 2024 e março de 2025.
“Basicamente nós estamos falando de um cenário de entressafra, com menor disponibilidade do produto e, esses cafés que estão disponíveis, o produtor aguarda algum momento para fazer a comercialização”, explicou Marcos Matos, diretor do Cecafé, ao AgFeed.
Segundo o executivo, a falta de café no mercado está fazendo com o que o Brasil perca market share no cenário internacional.
Os dados do ano civil também mostram um recuo. No primeiro trimestre deste ano, os embarques de café do Brasil totalizaram 8,465 milhões de sacas, o que representa uma queda 21,2% frente aos 10,739 milhões apurados de janeiro ao fim de março do ano passado.
A receita cambial foi de US$ 3,371 bilhões, 13,6% abaixo dos US$ 3,901 bilhões contabilizados nos três primeiros meses de 2025.
Até o ano passado o setor do café era apontado como uma das exceções à regra em meio ao cenário desafiador nos mercados de soja e milho. Com preços em alta e exportações crescentes, produtores de café eram os clientes que mais compravam máquinas agrícolas, por exemplo, uma realidade que começa a mudar.
Marcos Matos explicou que o cenário está sendo afetado pela geopolítica.
“Nós estamos vendo uma das maiores crises desde os anos 1970 no Oriente Médio, nós estamos vendo o custo de vida alto no mundo todo, nós estamos vendo custos logísticos crescentes, uma Europa com 49 meses de uma guerra da Ucrânia com a Rússia, e nós estamos vendo também aquele cenário de tensões bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, que resultou nas tarifas até no dia 20 de novembro do ano passado, mas que ainda temos outras ameaças em vista”, alertou ele.
O executivo lembra que a Conab está projetando uma safra recorde de café para 2026, “que começa a ser colhida para o café conilon e robusta a partir de abril e para o café Arábica a partir de maio”.
Por isso, ele acredita que o cenário poderá mudar de forma significativa, com a retomada da competitividade para o café brasileiro frente às demais origens.
“E esperamos obviamente que esse cenário geopolítico esteja melhor equacionado, mas ainda seguimos com muita imprevisibilidade”, afirmou.
Na nota divulgada pelo Cecafé, a entidade destaca que “a infraestrutura defasada nos portos do país, cujo avanço não acompanha a evolução do agronegócio, segue interferindo na capacidade de exportação, com centenas de contêineres ficando retidos nos portos aguardando embarque e gerando prejuízos milionários aos exportadores”.
A Alemanha permaneceu como o maior importador dos cafés do Brasil (14,1% dos embarques) no primeiro trimestre de 2026, com a compra de 1,192 milhão de sacas. Esse volume representa uma queda de 15,63% na comparação com o mesmo período de 2025.
Os EUA aparecem na sequência, com 936.617 sacas adquiridas, o que representa recuo de 48,3% ante o primeiro trimestre de 2025 e 11,1% do total. Fechando o top 5, vêm Itália, com 885.162 sacas e alta de 10,2%; Bélgica, com 527.456 sacas e avanço de 4,5%; e Japão, com 440.085 sacas e declínio de 35%, de acordo com o Cecafé.
Resumo
- Exportações de café caem em volume e receita em março e no trimestre, impactadas por entressafra e menor oferta
- Geopolítica, custos logísticos e tensões globais reduzem competitividade e market share do Brasil
- Safra recorde prevista para 2026 pode reverter cenário, mas incertezas seguem elevadas