Com o principal comprador histórico impondo taxas ao café brasileiro, era de se esperar que 2025 fosse um ano de retração nos embarques do grão nacional.
Dito e feito: segundo dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), o País encerrou 2025 com 40 milhões de sacas de 60 quilos exportadas, uma queda de 20,8% nos volumes frente a 2024, ano recorde nos embarques.
Apesar disso, a receita com as vendas cresceu 24% em dólares e atingiu US$ 15,5 bilhões. Em reais, a alta foi de 28,5%, e bateu R$ 87 bilhões.
"Se olhar o resultado de 2025, voltamos aos patamares de normalidade de anos anteriores antes de 2024, que foi recorde com embarques antecipados antes da data para a EUDR entrar em vigor", disse Eduardo Heron, diretor técnico do Cecafé, em entrevista coletiva da associação para apresentar os resultados do ano passado.
Segundo ele, a queda no volume decorre de uma safra mais fraca, que diminuiu a oferta nacional, uma base comparativa forte em 2024 e estoques baixos. E claro, sem esquecer do tarifaço americano.
Em 2024 o Brasil embarcou 50 milhões de sacas, um ano "fora da curva", como relembrou Marcos Matos, diretor geral da entidade na mesma coletiva. Nos últimos cinco anos, ele destacou, os números sempre ficaram próximo da faixa das 40 milhões de sacas, equivalente ao que foi exportado em 2025.
A menor disponibilidade de café mencionada pelos diretores se deu por uma safra mais fraca do café arábica, devido a problemas climáticos entre 2024 e 2025. O que sustentou a alta da receita foi o preço da cotação da saca no mercado.
O Cecafé cita que houve uma alta de 56,7% no preço médio da saca de janeiro a dezembro frente a 2024, patamar que ficou em US$ 389,17.
Marcos Matos relembra que mesmo com altas na inflação e nos juros em diversas geografias, o consumo continuou resiliente e ganhando novos consumidores em outros países que, historicamente, não consomem café.
"Quando o Vietnã teve problemas na safra em 2023, os preços subiram e ficaram em patamares elevados porque não há excesso de oferta no mundo. A estimativa é de um consumo de 175 milhões de sacas de consumo global, com produção de 177 milhões de sacas", acrescentou Eduardo Heron.
"Isso num mercado consumidor que cresce, qualquer faísca é motivo para se refletir na Bolsa, principalmente com impactos climáticos no Brasil e fora", prosseguiu.
Em relação aos destinos de 2025, a Alemanha encerrou o ano como o principal comprador, com 5,4 milhões de sacas, uma queda de 28% no volume.
Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 5,3 milhões de sacas, uma queda de 33,9%. O top 3 se encerra com a Itália, que comprou 3,14 milhões de sacas, queda de 19,6% nos volumes. O Cecafé estima que o tarifaço de Trump - que durou de agosto até novembro - fez as exportações para os EUA recuarem 55% no intervalo.
"Além disso, como a tributação sobre o café solúvel não foi retirada, o declínio nas exportações desse produto para os Estados Unidos continua se acentuando”, disse Márcio Ferreira, presidente do Cecafé.
A retomada, contudo, ainda não aconteceu mesmo com o fim das tarifas. Ferreira relembra que Considerando os 10 maiores compradores, Japão, Turquia e China foram aqueles que mostraram alta nas sacas compradas.
"O Japão cresceu 19% e é um país que vinha se retraindo nos últimos anos", relembrou Marcos Matos. A China figurou na décima posição, com crescimento de 19% nas compras, passando 1 milhão de sacas importadas.
O país asiático havia figurado nesse top 10 em 2023 e ficou de fora em 2024. Por bloco econômico, a União Europeia liderou as compras, representando 43% do total com 17 milhões de sacas.
"Pra nós, atentar ao que está sendo discutido por lá é de extrema relevância. Quando me perguntam a importância do acordo com o Mercosul eu mostro esses dados: só no café foram US$ 7,1 bilhões de dólares. Imagina o quanto isso pode ser impulsionado?", indagou Marcos Matos.
Nos 12 meses do ano passado, o café arábica foi o mais exportado, com 32,3 milhões de sacas enviadas ao exterior, cerca de 80,7% do total. O café canéfora (conilon + robusta) vem na sequência, com o embarque de 3,9 milhões de sacas (10% do total), seguida pelo setor de café solúvel, com 3,6 milhões de sacas (9,2%). Ainda foram vendidas pouco mais de 58 mil sacas de café já torrado e moído, 0,1% do total.
Os cafés diferenciados corresponderam por 20,3% das exportações, algo em torno de 8,1 sacas, um volume 10% menor em um ano.
O preço médio desses cafés especiais foi de US$ 432,78 por saca, o que traz um ágio de 11% frente aos cafés tradicionais.
A receita cambial com os embarques desse tpo de café foi de US$ 3,52 bilhões, o que corresponde a 22,6% do total obtido com os embarques de janeiro a dezembro no ano passado. Na comparação com o mesmo intervalo de 2024, o valor é 39,1% superior.
Os EUA lideraram o ranking dos principais destinos dos cafés diferenciados, com a importação de 1,3 milhão de sacas no acumulado de 2025, 16,2% do total exportado.
Para 2026, a perspectiva é de mais exportações, segundo Ferreira. Sem projeções numéricas, citou que a safra que se inicia esse ano tende a ser mais positiva que a anterior, o que pode aumentar a oferta, em especial no arábica. "Quando o Brasil tem uma safra boa a tendência é antecipar vendas", disse.
Resumo
- O Brasil exportou 40 milhões de sacas de café em 2025, queda de 20,8% em volume, mas a receita subiu 24% e chegou a US$ 15,5 bilhões com preços em alta, revela Cecafé
- Os EUA reduziram as compras em quase 34% após o tarifaço, enquanto Alemanha seguiu como principal destino e Japão e China ampliaram importações
- Cafés diferenciados responderam por 22,6% da receita, com preço médio 11% acima do tradicional, sustentando o caixa mesmo com safra menor