Desvendar a tabela do presidente Donald Trump com a série de tarifas lineares, globais e segmentadas sobre todos os produtos importados pelos Estados Unidos também foi o exercício mental de vários representantes do agronegócio desde o final da tarde desta quarta-feira, 2 de abril.
A conclusão, por enquanto, é que o fato de o Brasil ficar no piso das medidas do norte-americano, com uma tarifa de 10%, junto com outras nações agrícolas, aparentemente pode beneficiar o País no comércio com os norte-americanos. Pode ainda ampliar mercados com o “desvio de comércio” que as medidas podem causar para outras nações com taxações maiores.
“É uma medida muito maluca, porque não sabemos se ele (Trump) pegou a tarifa consolidada ou aplicada. Tem alguns números que, acho, não são verdade, mas pelo que foi mostrado o Brasil ficou na faixa mais baixa, vai ter a carga igual ou menor que a dos outros países”, disse Marcos Jank professor de agronegócio global do Insper.
Ele lembra que vários países agrícolas, como Tailândia, Austrália e Argentina também foram taxados em 10% pelos Estados Unidos.
Para Jank, o fato de ter condições mais favoráveis do que China e países da Europa e a depender da reação dessas nações, com mais tarifas sobre os Estados Unidos, pode abrir mais mercado para o Brasil.
“Em princípio, a condição é neutra ou até favorável para o Brasil, o que pode criar também um desvio de comércio, com novos laços comerciais diferentes do que existem hoje”, explicou Jank. “Mas a notícia é bastante preliminar, e é preciso entender qual reação dos países, se vai pegar todos os produtos”.
Para o professor de agronegócio global do Insper, outra coisa que não está clara é se o tarifaço de Trump é adicional às tarifas já existentes sobre os produtos. Ele cita etanol e açúcar como exemplos.
No caso do biocombustível, a tarifa é, em média, de 2,5% e, no adoçante, chega a 160% para todos os países exportadores acima de uma cota de 1,17 milhão de toneladas com zero de tarifa.
“Se eu te der uma resposta, estaria mentindo”, disse José Orive, diretor executivo da Organização Internacional de Açúcar (ISO), sobre se as tarifas seriam complementares, no caso do etanol, ou se cairiam, no caso do açúcar, após o anúncio de hoje.
Ele lembra que, além da cota de 1,17 milhão de toneladas, os norte-americanos importaram 1,3 milhão de toneladas pagando a tarifa de 160% na safra passada. O preço no mercado interno local estava tão alto, que ainda compensou a compra do adoçante no exterior.
No geral, para o diretor executivo da ISO, o impacto do tarifaço de Trump sobre o açúcar não vai ser grande. Ele diz que normalmente os Estados Unidos compram o açúcar necessário dentro da cota de 1,17 milhão de toneladas até o início de abril de cada ano e, depois, ficam até três meses sem aquisições.
“No entanto, o impacto principal será com produtos com conteúdo açucareiro, mas ainda é muito prematuro para qualquer avaliação”, disse Orive, que participou do Cana Summit, em Brasília (DF).
O diretor executivo da ISO, disse ter conversado com um amigo, negociador bilateral em Washington (EUA), e que a impressão é de que no caso do Brasil, produtos como etanol e carne, terão a questão tarifária negociada bilateralmente.
Para o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, a expectativa era que o Brasil fosse taxado em até 18% pelos Estados Unidos. Portanto, houve alívio para o setor, de certa forma, apesar das indefinições sobre como as tarifas serão aplicadas.
Pressão extra e impactos futuros para o comércio devem vir, na avaliação dele, do comportamento do mercado consumidor norte-americano.
“O etanol, por exemplo, é um mercado muito pequeno para o Brasil, de 500 milhões de litros para os Estados Unidos, volume quase que totalmente ligado às metas de descarbonização da Califórnia. Um exemplo de impacto é se eles reduzirem essas metas com a queda de consumo”, explicou.
Já o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues classificou as medidas protecionistas e tarifárias adotadas desde o começo do governo Trump como “um processo que desmoraliza instituições globais”.
Para o ex-ministro e professor emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a reação do Brasil até agora, “sem bravatas e no diálogo” é correta e deve ser seguida nas negociações com os Estados Unidos.
Já o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (PP-PR) citou o projeto de reciprocidade que está em tramitação no Congresso como uma arma para o Brasil poder retaliar caso haja alguma distorção tarifária dos Estados Unidos.
O parlamentar avaliou ainda que o tarifaço de Trump “pode abrir um leque de oportunidades” para o Brasil ampliar o comércio com outros mercados que deixem de importar dos Estados Unidos.