A indústria brasileira de fertilizantes adicionou uma camada de urgência à negociação com o governo federal pela subvenção de até R$ 2 bilhões para compra de enxofre.
Em reunião da chamada “sala de situação” — o grupo criado pela Casa Civil para acompanhar o abastecimento de insumos desde o agravamento da crise provocada no setor após o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, em abril passado —, realizada na terça-feira, 1 de setembro, em Brasília, o Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) reforçou o pleito e apresentou novos dados de um estudo que mostra o impacto da redução da produção de fosfatados em cadeias que vão muito além do agro, como mineração, saneamento e a arrecadação de municípios.
“A impressão que nos passa é que essa situação estava contida apenas numa cadeia de fertilizante, quando não é o caso. Muito mais amplo e muito mais profundo do que apenas o elo de fertilizante”, disse ao AgFeed o diretor executivo do Sinprifert, Bernardo Silva.
A proposta de subsídios ao setor, apresentada na semana passada, prevê uma subvenção temporária de três meses para compensar parte da diferença entre o preço atual do enxofre, insumo fundamental para a produção de fertilizantes fosfatados, e o patamar considerado viável para a indústria nacional.
Segundo o setor, o enxofre, que custava cerca de US$ 80 a tonelada em 2024, chegou a US$ 1,2 mil durante a crise agravada pelo conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz, recuando recentemente para perto de US$ 800.
No teto da crise, o subsídio implicaria desembolso de R$ 2 bilhões. Se o patamar de US$ 800 se confirmar, o custo cairia para cerca de R$ 900 milhões.
Bernardo Silva confirmou que a proposta entregue ao governo não sofreu alterações e que, até agora, não houve avanço concreto. “Da proposta de subvenção em si não houve nenhum avanço. Até onde nós soubemos, não recebemos uma resposta oficial no nível político, mas no nível técnico o entendimento é que o governo ainda não acatou a medida”, afirmou.
Foi nesse cenário que o setor decidiu ampliar a base de argumentos. O estudo de impacto, cujos números preliminares foram divulgados na semana passada durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes, da ANDA, estima perdas de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões apenas no elo agrícola.
A novidade apresentada na mais recente reunião da sala de situação foram os efeitos fora da porteira. Um dos exemplos citados por Bernardo Silva é a mineração de rocha fosfática, que para quando a cadeia química do ácido sulfúrico e do ácido fosfórico é interrompida.
O reflexo, segundo ele, já aparece na arrecadação da Cefem, a contribuição sobre a exploração mineral. “Nos municípios em que a gente tem essa mineração, vimos neste ano uma queda de mais de 50% na arrecadação, o que indica que há uma paralisação efetiva não apenas da mina em si, mas na receita com tributos que essa atividade pagava anteriormente.”
O impacto é sentido diretamente no caixa das prefeituras dos municípios onde as jazidas estão localizadas – 60% da Cefem é direcionada a eles. Silva citou, como exemplo, a perda de receita corrente em Tapira (MG), onde está a principal mina de fosfato da América Latina, que já “ultrapassa 20%”, comprometendo recursos usados inclusive para a folha de pagamento.
“A de Cefem é um termômetro e mostra claramente que o dano já está sendo sentido no nível de município”, completou.
Saneamento e saúde pública na conta
Outro efeito colateral destacado pelo Sinprifert está na cadeia de saneamento. O ácido fluossilícico, subproduto da produção de ácido fosfórico usado na fluoretação da água potável, deixou de ser produzido no País com a paralisação das fábricas — 100% do insumo era originado da cadeia nacional.
Sem estoque, o setor de tratamento de água tem sido, segundo Silva, forçado busca o flúor no exterior. “É um custo cinco vezes maior, com um prazo de concretização que não ocorre antes de outubro”, disse, acrescentando que o Ministério da Saúde recusou o pedido de flexibilização da regra que obriga a fluoretação.
“Já há um dano real por essa indisponibilidade. E coloca o Brasil com mais uma dependência externa crítica, agora no elo de saúde pública”, afirmou.
Assim, para o Sinprifert, a crise deixou de ser um problema restrito a uma empresa ou a um elo da cadeia. Além do fechamento de Ormuz e da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o setor aponta um terceiro vetor: a competição por enxofre com a cadeia de transição energética e minerais críticos.
“A Indonésia em 2024 e 2025, puxou a demanda de enxofre para a cadeia de níquel. No Brasil está ocorrendo já a mesma coisa", explicou. "Ainda que haja uma restauração de fluxos em Ormuz, a destruição de capacidade instalada na Rússia, no Oriente Médio, principalmente Irã, e o aumento da demanda por outros segmentos vão criar para o ano que vem um cenário ainda mais desafiador do que a gente vê este ano.”
Outubro é o limite
O argumento central do setor, porém, é o calendário. Como o ciclo entre a contratação do enxofre e a chegada do produto ao Brasil leva de 60 a 90 dias, a indústria precisa de uma definição agora para produzir a tempo do início da próxima safra.
“A gente precisa comprar agora o enxofre para chegar aqui no Brasil, produzir o fertilizante e disponibilizar a tempo para a safra, o início da safra do ano que vem", disse Bernardo Silva.
Na visão do Sinprifert, a janela para uma resposta do governo à demanda do setor se fecha neste mês. “Este mês é o prazo, porque a partir de outubro o nosso entendimento e projeções é que já haja quase que a paralisação completa por falta de estoque de enxofre pelas empresas no país.”
Enquanto isso, o governo tem adotado medidas que o setor considera insuficientes. As tentativas de buscar novos fornecedores de enxofre e ácido sulfúrico, via Itamaraty e Ministério da Agricultura, "não resultaram em nada concreto", segundo o executivo.
Já a oferta de crédito e capital de giro via BNDES, no âmbito do Plano Brasil Soberano, não ataca o problema. “O problema é de margem e não de liquidez, de financiamento. Então, é um remédio para um outro problema, e não é esse que a gente está discutindo via a proposta de subvenção.”
O setor lembra ainda que o Brasil não está sozinho na busca por mecanismos de apoio. “A Índia, por exemplo, já está cogitando aplicar a mesma proposta que nós para os produtores indianos de sulfúrico e de fosfórico.”
Para o agro, o risco, caso a produção nacional de fosfatados não seja viabilizada, é duplo: além das perdas de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões estimadas para a economia, o país pode perder de US$ 2,5 bilhões a US$ 3,5 bilhões em divisas com a queda de produção e exportação de soja em um único ciclo, segundo documento do sindicato entregue ao poder público.
A demanda brasileira por fertilizantes deve cair 7,6% neste ano, para 45,3 milhões de toneladas, conforme projeção da Agroconsult divulgada no congresso do setor.
"É importante a gente mostrar a urgência e o impacto real na economia, porque na nossa visão os nossos interlocutores ainda não estão convencidos da urgência que a situação impõe", resumiu Bernardo Silva.
Resumo
- Setor reforça pedido de subsídio de até R$ 2 bilhões para reduzir o impacto do alto custo do enxofre na produção nacional
- Estudo aponta efeitos da crise sobre agricultura, mineração, saneamento e arrecadação de municípios
- Sinprifert alerta que outubro é o limite para uma resposta do governo antes de uma possível paralisação da produção