O ano de 2026 começa com um grande desafio para a cadeia de carne bovina brasileira. A China resolveu impor restrições às importações, o que deve diminuir em cerca de 600 mil toneladas o embarque do produto local para o país asiático.
Mesmo assim, o presidente da Associação Brasileira de Exportadores de Carne (Abiec), Roberto Perosa, projeta que as exportações em 2026 fiquem no mesmo patamar de 2025, classificado como “o melhor ano da história” para o segmento.
“Aumentamos em 20% o volume de carne bovina exportada, para 3,5 milhões, e em 40% o faturamento, que chegou a US$ 18 bilhões. Acreditamos que podemos repetir esse volume em 2026”, afirma Perosa.
Isso mesmo com as restrições chinesas, que devem levar as exportações brasileiras para aquele país de 1,7 milhão de toneladas no ano passado para pouco mais de 1,1 milhão de toneladas em 2026.
“Já estamos indo para a quinta reunião com representantes do governo nesse início de ano para discutir soluções, inclusive linhas de crédito especiais no modelo adotado para mitigar os efeitos do tarifaço”, conta o presidente da Abiec.
Algumas informações dão conta de que o vice-presidente, Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Comércio e Indústria, vai se encontrar com seu par chinês essa semana. A carne brasileira estará na pauta do encontro.
Com o mercado chinês mais limitado, Perosa espera que o governo elabore uma regulação para evitar uma “corrida” das empresas para exportar o mais rápido possível para a China e não perder mercado.
“Claro que existe esse risco de haver uma corrida no primeiro semestre e só o governo pode regular essa questão para que o mercado permaneça equilibrado e ninguém saia prejudicado”.
Perosa afirma que a medida adotada pelo governo chinês tem origem numa reclamação dos pecuaristas do país. “Acontece que não haverá queda da demanda. Tem aquele ditado: quem coloca bife no prato, não tira mais. Acho que essa medida não vai se sustentar por muito tempo, como aconteceu com o açúcar”.
A questão é que o Brasil, maior vendedor global de carne para a China, não ficará parado esperando, segundo o executivo. “E o ciclo do gado é longo. Nós provavelmente estaremos atendendo outros mercados com esse excedente e aí a China terá que esperar”.
A Ásia tem um grande potencial a ser explorado, diz Perosa. “Temos a missão oficial japonesa que vem ao Brasil em março. Devemos ampliar o mercado no Vietnã, o governo vai iniciar conversas com a Coreia do Sul”, conta.
Para ele, a Indonésia pode se tornar uma parceira muito relevante. “Deve sair nos próximos dias a habilitação para 18 unidades brasileiras. Nós exportamos miúdos para lá, eles consomem muita carne de búfalo. Mas estão antecipando o cenário de déficit global de oferta de carne”.
O presidente da Abiec afirma que esse déficit pode ser uma oportunidade para o Brasil. “Aqui, as estimativas são de estabilidade na produção de carne, em 40 milhões de cabeças para abate”, diz.
EUA e UE
Outro mercado que é prioritário para os exportadores de carnes é o norte-americano. A Abiec esperava um volume de 400 mil toneladas vendidas para os Estados Unidos em 2025, mas com as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, as exportações ficaram pouco acima de 270 mil toneladas.
“Esse ano, com o cenário mais favorável, esperamos voltar às 400 mil toneladas. Estudos mostram que o mercado dos EUA tem um déficit de 1,5 milhão de toneladas de oferta em relação à demanda. Ainda é um mercado muito promissor”, diz Perosa.
Ainda na América do Norte, o México virou um destino consolidado da carne brasileira, chegando a quase 120 mil toneladas em 2025.
“Nos beneficiamos de um programa do governo mexicano de combate à inflação, que zerou as tarifas para a carne brasileira. Esse ano, temos uma cota de 70 mil toneladas, e acima disso, haverá uma taxa de 20%. Mas ainda assim, somos competitivos lá”.
Sobre o Canadá, a expectativa é pelo reconhecimento de que o Brasil é um país livre da febre aftosa, dentro do compromisso firmado pelo governo local.
Sobre a Europa, Perosa afirma que o acordo entre União Europeia e Mercosul é importante, mas que os efeitos serão sentidos mas a médio prazo.
“A cota Hilton (volume determinado de importação permitida de carne produzida fora da UE) vai aumentar gradativamente para 99 mil toneladas por ano, e o Brasil tem hoje 42% desse volume garantido dentro do acordo do Mercosul”, lembra o presidente da Abiec.
Ele acredita que o acordo tem potencial para aumentar o volume de vendas de carne brasileira em 5% a 7% ao ano para o Velho Continente.
“No entanto, nós estimamos que o acordo não será aprovado nos parlamentos europeus antes do fim do ano. Para nós, é um mercado importante porque consome cortes de maior valor agregado”.
Resumo
- China impõe restrições e reduz suas compras em 600 mil toneladas, mas Abiec prevê manter 3,5 milhões de toneladas exportadas
- Associação aposta em déficit global e diversificação de mercados nos EUA, México e Ásia, com abertura de mercados no Japão, Coreia do Sul e Indonésia
- Exportações aos EUA devem se recuperar aos nívies pré-tarifaço e acordo Mercosul-UE é visto como vetor de médio prazo