Um dos mais influentes pecuaristas brasileiros, referência entre os criadores da raça Angus, Wilson Brochmann, fala com entusiasmo do programa de carne certificada da raça, que cresceu 260% em exportações no ano passado.
“Queremos trazer mais produtores porque a tendência é de aumento na demanda, para poder atender. Em 2025 já faltou”, disse ele, em entrevista exclusiva ao AgFeed, ao saborear um churrasco, durante um almoço em São Paulo.
Esta “falta” que se refere o empresário é pelo fato de o Brasil ter sido ainda mais demandado em 2025 como fornecedor de carne de qualidade, certificada, o chamado produto premium, bastante procurado no mercado internacional.
Segundo os dados do programa Carne Angus Certificada, foram embarcadas mais de 11 mil toneladas, quase o triplo do ano anterior.
A produção foi superior a 53 mil toneladas, um crescimento de 4,3% em relação a 2024. Deste total 22% teve como destino a exportação, um percentual maior que o ano anterior, quando o mercado externo representou 8%.
Os criadores de Angus dizem que no mercado interno também está havendo um aumento nas vendas de carne certificada da raça. O AgFeed apurou que o salto seria de cerca de 39 mil para 42 mil toneladas.
Para receber o selo de carne certificada da raça Angus é necessário atingir metas que são verificadas na hora do abate, como ser um animal jovem com boa “terminação”, o que, na prática, se refere a uma quantidade de gordura necessária para carne de alta qualidade.
Brochmann, que atualmente é o diretor do programa, diz que se houvesse 20% a mais de produção desta carne em 2025, o volume teria sido exportado, porque a demanda estava presente.
Se para o consumidor a vantagem é a garantia de um padrão de qualidade, para o pecuarista, segundo o diretor, é garantido um bônus no valor pago pela arroba do bovino.
O valor adicional fica entre 10% e 15%. Só podem participar do programa animais com no mínimo 50% de genética Angus.
O balanço de 2025 mostra que 35 países compraram o produto, cinco a mais em relação ao ano anterior. O principal mercado foi a China, com 53%, seguida por Israel, com 21%.
O total de animais abatidos subiu 20% no ano, atingindo mais de 612 mil cabeças.
Previsão otimista para 2026
Se o volume exportado triplicou, a receita com a exportação da carne certificada Angus cresceu ainda mais. A alta foi de 380%, porque os preços internacionais também subiram.
O gerente Nacional do Programa Carne Angus, Maychel Borges, afirma que os compradores de carne de qualidade do mundo estão “desabastecidos”.
“Estados Unidos estão com o menor rebanho da história. A Austrália, com déficit de rebanho. Uruguai e Argentina, também déficit de rebanho. Quando se fala carne de qualidade, são esses países que tomam a frente. E que vendem, colocam no prato de quem não quer saber o preço. Eles são muito exigentes”, explicou.
Neste cenário, na visão dele, o Brasil estaria agora aproveitando uma oportunidade, para mostrar que não é apenas um fornecedor daquela carne “commodity”, de menor qualidade, usada geralmente para fazer hamburger.
“Vieram no Brasil e perguntaram: vocês podem produzir esse produto? Nós já temos um programa aqui de carne de qualidade que tem mais de 20 anos. Então sim, carne Angus foi a porta de entrada para o mundo vir comprar carne aqui, brasileira, de alta qualidade. Não é um aumento, e sim uma tendência”, ressaltou.
Com essas premissas, ele prevê que em 2026 será possível atingir um novo recorde na exportação de carne certificada Angus. Só não arrisca um percentual, admitindo que talvez seja difícil repetir um crescimento tão expressivo quanto o registrado em 2025.
Como eles não estão abastecidos em outros lugares, quando eles não estão abastecidos por outros, nós aqui podemos fazer em qualidade e em quantidade.
“Não tem outro país no mundo que pode fazer em qualidade e em quantidade como o nosso. Então agora é a hora do Brasil buscar a qualidade internacional no quesito de carne. A nossa carne costumava ser vendida como barata, como de baixa qualidade”.
Nem mesmo o tarifaço de Donald Trump, que encareceu as exportações durante um período de 2025, modificou essa tendência, segundo ele, porque os Estados Unidos não são um grande mercado para carne de qualidade de outros países.
O setor agora observa as salvaguardas impostas pela China e as cotas que serão estabelecidas para a carne no acordo entre Mercosul e União Europeia.
Borges defende que o Brasil busque trabalhar o mercado “de forma mais inteligente”. A carne de maior valor agregado poderá ajudar ao País a manter o mesmo faturamento, mesmo que os volumes fiquem limitados. “Isso pode ser positivo para o programa”.
Em 2025, segundo o gerente, a média de exportação da carne brasileira comum foi de US$ 5,5 mil. Na certificada Angus, chegou a US$ 8,5 mil. “É mais de 50% de valorização exportando para os mesmos países”.
O crescimento da produção e exportação de carne certificado também depende do avanço da inseminação com genética da raça nas fazendas.
Borges explicou ao AgFeed que o resultado da inseminação de agora só vai se refletir em alta na exportação daqui a alguns anos, em função do ciclo da pecuária.
“Esse ano nós estamos com baixa nesse volume de animais porque você colhe hoje o que você plantou três anos atrás. Mas nós vamos superar 40% de aumento de venda de sêmen, isso é fazer matéria-prima para frente”.
Do Rio Grande do Sul ao Oeste da Bahia
A genética da raça é usada, principalmente no cruzamento industrial, em todos os estados do País, segundo os dirigentes, mas para ter o selo é preciso ter frigorífico habilitado e volume suficiente de produtores dispostos a produzir com foco em atingir as metas exigidas.
Por isso, o programa da carne, especificamente, está presente em 13 estados brasileiros, até mesmo em regiões ao Norte, como Pará, Rondônia e Acre.
Nestes estados, o programa conta com 75 técnicos que atuam dentro das unidades, para verificar o cumprimento dos requisitos. “Eles verificam animal por animal, para conseguir construir essa carne que, consequentemente”, o produtor vai receber bônus depois, afirmou Borges.
Tradicionalmente, há um maior rebanho Angus, especialmente de alta genética, no Rio Grande do Sul, em função do clima subtropical, mais semelhante às regiões do mundo onde a raça começou a se desenvolver.
Ao longo do tempo, porém, o número de criadores de animais puros ou que utilizam o sêmen do Angus no melhoramento do rebanho – as raças zebuínas, especialmente o Nelore, predominam nas regiões tropicais – foi aumentando cada vez mais.
Mato Grosso, que tem o maior rebanho bovino do País, está crescendo mais rápido que os demais. Já ocupa a segunda posição nos abates de carne certificada Angus, com 24%. O primeiro é o Rio Grande do Sul com 28%. A expectativa é que MT passe a ocupar a primeira posição já em 2026, avaliam os dirigentes, em função do forte crescimento.
No caso do produto certificado, a última “bandeirinha”, como disse o gerente, Maychel Borges, foi fincada no estado da Bahia, marcando a chegada da raça à região Nordeste.
“Tivemos uma surpresa no finalzinho do ano, de fazer o primeiro abate na Bahia. Chegamos à quinta região, a última que faltava. Fizemos uma certificação de Angus lá em Luís Eduardo Magalhães”, contou.
Embora o abate tenha sido feito na Bahia, a desossa foi realizada em São Paulo.
“Nós tivemos 99% do índice de certificação lá. Então, foram quase todos os animais aprovados, muito bem terminados, muito jovens, do jeito que precisa ser. Daí, isso contagia a região, gerando interesse na inseminação”, reforçou Borges.
A meta da Angus é seguir buscando mais produtores interessados para participar do programa, mas há alguns obstáculos difíceis de vencer.
Um deles é o fato de que, para produzir carne de qualidade, o macho precisa ser castrado. No Brasil, onde predominam os grandes confinamentos, os animais são sempre “inteiros”, ou seja, não castrados.
Os técnicos explicam que o animal castrado perde 15% de eficiência, algo que o confinamento não deseja, em função da dieta muito cara. Por outro lado, o animal inteiro, com mais testosterona, acaba inibindo a gordura e gerando uma carne sem marmoreio, que é o quesito mais buscado no mercado de carne de qualidade, garantindo também a maciez.
Wilson Brochmann conta que só 25% dos machos são aproveitados, em função disso. A maior parte dos abates no País, dentro do programa, são fêmeas.
Ele diz que, em alguns casos, a longa distância do frigorífico habilitado para este tipo de abate também afasta alguns produtores. “Há também falta de conhecimento. Tem muito produtor que não conhece a premiação, aa bonificação do programa”.
Para facilitar, o programa não exige que o produtor participante seja sócio da Associação dos Criadores de Angus.
Há ainda o desafio de reduzir o percentual de animais que, na hora do abate, não são aprovados pelo programa, o que hoje estaria em 25%.
“Precisamos tentar ajudar o produtor rural com assistência técnica, com ideias e organização da cadeia de fato mesmo, para tentar perder menos animais no programa”.
Um cruzamento comum que também tem sido visto no Centro-Oeste é aquele que envolve Angus, Wagyu e Nelore. As duas primeiras raças são as mais reconhecidas no mundo pela qualidade da carne. Mas segundo os criadores há diferenças na produtividade, por isso é necessário misturar a genética das três, em alguns casos.
O desafio, segundo Borges, é seguir mostrando ao mundo que o Angus brasileiro é tão bom quanto aquele criado nos EUA, na Austrália e no Uruguai.