Brasília (DF) - Pelo menos por enquanto, o mercado tem conspirado positivamente aos produtores brasileiros, e os preços do açúcar seguem remuneradores há quase quatro anos.
Restrição de oferta dos concorrentes asiáticos, estoques em queda e consumo em alta mantiveram a cotação da commodity em torno de 20 cents por libra-peso na Bolsa de Nova York, acima do nosso custo de produção, entre 15 cents e 16 cents.
Com isso, usinas processadoras de cana-de-açúcar investiram para aumentar a capacidade de produção do adoçante, o que possibilitou o aumento do destino da matéria-prima para a fabricação do açúcar em detrimento do etanol.
Por outro lado, a queda na oferta do biocombustível de cana coincidiu com a disparada na oferta do etanol de milho no Centro-Oeste.
Assim, a safra 2025/2026, iniciada esta semana, não vai ser diferente das passadas. Foi esse o discurso de analistas e produtores presentes no Cana Summit, realizado em Brasília (DF) pela Organização de Produtores de Cana-de-Açúcar do Brasil (Orplana) esta semana.
Projeções da Consultoria e Projetos Pecege apontam que a moagem na atual safra de cana-de-açúcar deve ficar em 596,963 milhões de toneladas, queda de 3,45% sobre os 618,313 mi de toneladas em 2024/2025.
Mesmo assim, a oferta de açúcar deve crescer 3,32%, de 39,95 milhões de toneladas para 41,27 milhões de toneladas.
Da cana processada, 51,88% devem ir para a produção de açúcar e 48,12% para a de etanol. “É o maior da história para o açúcar, que está remunerando muito mais e com as usinas aumentando a capacidade instalada”, disse João Rosa, sócio-diretor da consultoria.
A Organização Internacional do Açúcar (ISO) estima que a oferta da commodity deve ficar em 175,5 milhões de toneladas, queda de 5,8 milhões de toneladas, na safra global 2024/2025, que termina em setembro deste ano. Quebras na produção de Índia, Paquistão e Tailândia, além da exportação menor do Brasil limitam a oferta.
“A produção aparentemente estagnou por problemas climáticos e, além disso, no período pós-Covid o consumo cresceu 4 milhões de toneladas ao ano”, disse José Orive, diretor executivo da ISO.
Para 2024/2025, a oferta crescerá apenas 0,5% para 180,4 milhões de toneladas, o que não impedirá um déficit de 4,88 milhões de toneladas de açúcar no período, o que mantém os preços sustentados.
“Em termos de preço, tem tudo para ser uma ótima safra como nas últimas quatro ou cinco últimas”, concluiu Orive.
Etanol
Com menos cana, a oferta de etanol a partir dessa matéria-prima pode ficar em 23,54 bilhões de litros na atual safra brasileira, queda de 11,60% sobre os 26,63 bilhões de litros do período anterior, segundo a Pecege.
Para suprir uma demanda total de 33,1 bilhões de litros, a salvação tem sido a consolidação do etanol de milho, cuja maior parte da produção está no Centro-Oeste.
Dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) apontam uma oferta de 9,89 bilhões de litros na safra 2025/2026 do biocombustível a partir do cereal, 20% maior que os 8,25 bilhões de litros de 2024/2025.
O Brasil tem 25 biorrefinarias de etanol de milho e a moagem de 14,29 milhões de toneladas do grão.
Com a saca de milho até R$ 75,00 é mais barato produzir o biocombustível do cereal do que de cana. O preço pago ao produtor da matéria-prima está em R$ 1,20 o quilo do Açúcar Total Recuperável (ATR) no processamento da cana, que dá vantagem competitiva ao açúcar.
“Muitas usinas estão nesse movimento, investindo para aumentar o mix para o açúcar por causa do preço, mas você imagina na hora que o preço do açúcar cair?”, indagou o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira.
Para Nogueira, a saída segue sendo as campanhas de incentivo ao consumidor brasileiro para aumentar a demanda pelo etanol em vez da gasolina nos veículos flex.
“Infelizmente, a cada dez carros três somente são abastecidos com etanol puro e sete são com gasolina, quando o ideal seria o inverso. Reverter esse cenário é fundamental para se prevenir caso o cenário se inverta”, concluiu o CEO da Orplana.