O El Niño do ano passado e o La Niña no ano anterior mostraram o quanto as alterações climáticas podem impactar a produção brasileira de soja. E os desafios não são temporários.

As transições climáticas podem restringir a expansão geográfica da soja entre 10% e 36% até 2050, além de gerar uma queda de mais de 15% nos preços, com perdas financeiras de até 60% para os produtores brasileiros.

É o que mostra a pesquisa “O Setor de Soja Brasileiro em Meio às Transições Climáticas”, da Orbitas, uma iniciativa da Climate Advisers, empresa especializada na produção de análises voltadas para fortalecer a ação climática.

O tamanho dos impactos, segundo o estudo, dependerá dos níveis de respostas do governo, do consumidor e do setor privado às mudanças climáticas, incluindo o tipo de manejo e investimentos para ampliação da produtividade.

“Todo esse impacto pode ser minimizado com investimento em tecnologia e programas de captura de carbono”, disse ao AgFeed Niamh McCarty, diretora da Orbitas e diretora de Riscos Relacionados ao Clima da Climate Advisers.

Segundo McCarty, os investimentos em melhorias tecnológicas sustentáveis, na redução da intensidade de emissões de gases do efeito estufa (GEE), além de planejamento para que se tenha receita diversificada baseada em projetos de bioeconomia serão essenciais para “blindar” os produtores do efeito da transição climática na rentabilidade dos seus negócios.

De acordo com a Orbitas, a disponibilidade de terras para plantio será menor à medida em que aumenta a restrição para avançar em áreas novas, em função de medidas de conservação ou a competição com setores da bioeconomia. Isso pode reduzir a oferta de terras agrícolas acessíveis em até 36% entre 2020 e 2050, segundo o estudo.

Por outro lado, um aumento projetado de 88% no investimento de capital agrícola poderia elevar em até 14% o rendimento médio por hectare dos produtores de soja do Brasil no mesmo período.

Esse cenário é viável por considerar o aumento da eficiência no uso da terra em substituição à maior produção baseada na expansão de áreas agrícolas mediante conversão de vegetação natural em fazendas.

Historicamente, a expansão do setor brasileiro de soja ocorreu por meio da supressão de vegetação natural, direta ou indiretamente, substituindo a produção de gado em pastagens já desmatadas.

Na visão da Orbitas, esse tipo de expansão não tem mais espaço, não apenas pela questão ambiental, mas também por não ser sustentável do ponto de vista econômico.

“A transição climática já mostrou o preço financeiro para os agricultores a partir dos fenômenos recentes que impactaram a produção no Brasil”, diz McCarty.

“Muitas empresas e grandes produtores já entenderam que é preciso olhar para isso para se manter não apenas produtivo, mas também viável financeira e comercialmente.”

O estudo cita como exemplo a seca que atingiu o Rio Grande do Sul em 2022, que causou um prejuízo recorde para os produtores, quando quase metade da safra foi perdida, resultando em perdas financeiras estimadas em mais de R$ 36 bilhões, segundo a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro - RS).

Além desse tipo de prejuízo, McCarty lembra que a Europa, por exemplo, vem endurecendo as regras de rastreabilidade de suas importações, o que se torna um fator de restrição de mercado para as exportações brasileiras – e que não se restringe à soja, mas também impacta a produção de carne, que utiliza grãos como a soja na composição da ração animal.

“O Brasil tem um papel essencial nas cadeias alimentares e, por isso, precisa estar atento e apoiar o desenvolvimento de processos que o protejam no mercado global”, afirma a diretora da Orbitas.

“Há produtores preocupados e que já atuam para atender essa nova realidade, mas ainda existem os que descumprem regras – e para esses, o governo precisa ampliar a fiscalização”, diz.

As perdas relacionadas ao clima são a principal preocupação de 72% dos produtores de soja no Brasil, segundo a Pesquisa de Cultura da Soja realizada pela Climate FieldView em 2022 e mencionada pela Orbitas no estudo de 2024.

Outro relatório, da EY e chamado “Os 10 principais Riscos e Oportunidades Para o Agronegócio”, de 2022, entrevistou executivos do Brasil, da Argentina e do Chile, que afirmam que os efeitos da mudança climática surgem como a preocupação empresarial mais significativa.

Já o trabalho da Orbitas mostra que os impactos da transição climática são mais significativos para os produtores menos eficientes – ou seja, aqueles com o menor nível de adoção de tecnologia e mais distantes da infraestrutura das cadeias de suprimentos, como áreas de processamento, portos, ferrovias e rodovias.

E, à medida que a transição climática se intensifica, esses produtores ficam mais vulneráveis, com maiores riscos de perdas financeiras já em 2030. Essas perdas podem ultrapassar 60% até 2050, caso a adaptação às transições climáticas não ocorra rapidamente.

De acordo com a Orbitas, 53% das terras agrícolas são ocupadas por 1,5% dos maiores proprietários rurais do Brasil. As pequenas propriedades familiares produzem cerca de 70% dos alimentos consumidos no Brasil, mas ocupam apenas 25% da terra.

“Para manter ou aumentar os lucros e desenvolver resiliência em um mundo em constante mudança, o setor de soja brasileiro terá que mitigar riscos e aproveitar as oportunidades da transição climática”, diz McCarty. “O Brasil precisa adaptar rapidamente sua produção de soja se quiser continuar na liderança global de fornecimento do grão.”

Oportunidade

Em sentido inverso aos riscos à produção, a demanda global por produtos de soja deve aumentar 14% até 2050, segundo a Orbitas. E o Brasil pode lucrar com esse mercado se os seus produtores puderem atender às crescentes expectativas internacionais sobre mudanças climáticas e sustentabilidade.

McCarty cita ainda o mercado regulamentado de créditos de carbono do Brasil e o mercado voluntário de carbono como oportunidades que podem ajudar a rentabilizar o agronegócio nacional a partir de projetos de reflorestamento e conservação.

“À medida que o custo das emissões de GEE se torna cada vez mais internalizado nas demonstrações financeiras com base em políticas, mecanismos comerciais, compromissos da cadeia de suprimentos e avaliações de risco dos investidores, produtores e comerciantes que reduzirem a intensidade das emissões da produção serão mais competitivos e lucrativos”, diz.

A Orbitas cita, no seu estudo, dados da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que mostram que, considerando um cenário de aumento do desmatamento na parte sul do bioma amazônico até 2050, as novas áreas abertas para a pecuária e a produção de grãos gerarão mais R$ 100 bilhões de renda, com a contrapartida de que o desmatamento resultará em perda de R$ 930 bilhões na produção já estabelecida na região.

Com isso, a Orbita busca demonstrar que avançar em áreas novas trará mais perdas do que lucro e que a os ganhos viriam ao se investir em tecnologia para ampliar produtividade nas lavouras já existentes.

“A falta de transparência nas cadeias produtivas de soja no Brasil resulta, com frequência, em caracterizações abrangentes de produtores em todo o setor, mas os fazendeiros envolvidos em práticas de produção mais sustentáveis sem vínculos com o desmatamento têm muito a perder financeiramente com o desmatamento causado por concorrentes menos sustentáveis”, diz o estudo.