Imagine se fosse possível para os produtores rurais se comunicarem com as plantas. Pois uma startup da Califórnia não só descobriu que as plantas “falam” como encontrou uma maneira de traduzir essas mensagens no campo.

Shely Aronov é cofundadora e CEO da Inner Plant, empresa que desenvolveu a tecnologia embarcada nas sementes de soja, que permite à planta emitir “sinais” caso algo esteja errado.

Pode ser desde a falta ou excesso de água, déficit de nutrientes ou até mesmo alguma doença ou problema causado por fungos.

Shely conta que as sementes desenvolvidas com engenharia genética adicionam uma linha de código no DNA da planta, que as ensina a produzir uma proteína que emite sinais ópticos fluorescentes para “avisar” aos produtores que há um problema.

“Essa proteína é produzida nas folhas, que ficam fluorescentes quando escaneadas com e essa luz pode ser identificada por câmeras, luzes, drones ou até mesmo satélites”, explica, em entrevista ao AgFeed.

Com isso, é possível fazer um controle preciso da necessidade de cada planta e até mesmo identificar uma única planta doente antes que o problema se espalhe.

Segundo a companhia, a tecnologia é capaz de mostrar os sinais de doenças até três semanas antes de outras soluções disponíveis no mercado.

“Entre dois e três dias após ser infectada a planta já começa a emitir esses sinais, que não podem ser vistos a olho nu, apenas com equipamentos ópticos. Isso permite ao produtor agir rápido, reduzindo as perdas e melhorando a eficiência do controle de fungos e doenças”, pondera Shely.

Agora, os cientistas da InnerPlant trabalham para criar um sistema em que os sinais emitidos pelas plantas terão cores diferentes para cada problema: verde para fungos, vermelho para insetos, amarelo para falta de nitrogênio e assim por diante.

“Assim, com uma mesma tecnologia, será possível identificar uma gama de problemas diferentes e atacá-los com maior eficiência”, afirma a executiva.

Na sede da companhia, em Davis, Califórnia, os pesquisadores também estão focados em desenvolver uma tecnologia semelhante para sementes de milho. Shely explica que o objetivo da companhia é desenvolver soluções apenas para essas duas culturas.

“São os dois maiores cultivos do planeta, são cerca de 90 milhões de hectares de soja no mundo e 60 milhões de acres de milho. E para cada uma dessas culturas podemos desenvolver uma série de soluções”, explica.

Segundo a companhia, estudos apontam que todos os anos agricultores perdem até 40% da produção, o equivalente a US$ 220 bilhões, causados por patógenos. Além disso, estima-se que cerca de 30% dos pesticidas aplicados são desperdiçados, por aplicações errôneas ou fora do período adequado, o que corresponde a gastos da ordem de US$ 250 bilhões.

Por enquanto a InnerPlant está presente apenas nos Estados Unidos. Para 2025, a meta da companhia é alcançar uma área de 20 mil hectares de lavouras cultivadas com a sua tecnologia, número que espera ver chegar perto de 800 mil hectares em 2027.

Para isso, a companhia foi ao mercado e captou US$ 30 milhões em uma rodada de investimentos série B. A ação foi liderada por um grupo de produtores dos EUA encabeçado pela Coutts Agro, uma operadora de investimentos agrícolas.

A Systemiq Capital também participou da rodada, além da Deere & Company, controladora da John Deere, e da Bison Ventures, que já investiram na primeira rodada.

A fabricante de máquinas agrícolas já é, ao lado da Syngenta, parceira da InnerPlant desde 2023, quando iniciaram os primeiros testes para viabilizar a integração do InnerSoy com os sistemas de máquinas da fabricante.

Atualmente, os produtores que possuem máquinas da marca John Deere conseguem fazer o mapeamento das plantas e a identificação das necessidades dela através do sistema My John Deere.

Para os demais produtores, são enviados alertas via mensagem de texto sempre que há a identificação de que algo não vai bem com as plantas.

Por meio de uma plataforma própria chamada de InnerVoice, os dados das plantas InnerSoy são cruzadas com modelos preditivos, o que auxilia na detecção precoce de infestações e outros problemas que possam comprometer o desenvolvimento das plantas.

“Nosso objetivo é tornar a comunicação com os produtores o mais simples possível. Justamente por isso decidimos não criar apps ou sistemas mais complexos por enquanto”, explica a executiva.

A partir das notificações, os produtores podem fazer o planejamento do manejo juntamente com sua equipe técnica e com os fornecedores de insumos, adaptando às necessidades de cada propriedade.

Shely revela que depois que a operação estiver bem estruturada nos Estados Unidos, incluindo o lançamento das primeiras soluções para o milho, o próximo passo da companhia será entrar no mercado brasileiro.

“EUA e Brasil são os dois maiores produtores de grãos do mundo e queremos estar presentes majoritariamente nesses mercados”.

No entanto, ela revela que existem grandes diferenças entre os dois mercados e compreender essas nuances é fundamental para que a chegada ao Brasil seja bem-sucedida.

"Por aqui (EUA), a estimativa é de que os fungos afetem entre 20% e 40% das áreas cultivadas todos os anos. No Brasil é completamente diferente, a ameaça dos fungos é algo presente o tempo todo nas lavouras.”

Segundo Shely, a tecnologia é a mesma para ambos os mercados, o que muda é a estratégia de uso e de manejo, bem como acompanhamento das lavouras.

"No Brasil, por exemplo, há pessoas constantemente no campo, acompanhando de perto as lavouras. Isso não acontece nos EUA”, diz.

“O que nós pensamos é em como desenvolver tecnologias que tornem esse dia a dia mais fácil e prático para o produtor rural. E leva tempo para desenvolver soluções que gerem esse impacto", pondera.

Shely Aronov, fundadora e CEO da InnerPlant

Mudança de planos

A trajetória da InnerPlant começou em 2017, quando Shely Aronov, uma empreendedora que cresceu em Israel e se mudou para os EUA para fazer um MBA em Stanford, na Califórnia, decidiu encerrar as operações da Yamba Hummus, uma pequena marca de alimentos fundada por ela.

“A empresa ia bem, atendíamos várias redes varejistas dos Estados Unidos, incluindo Whole Foods e Safeway, mas entendi que não era isso que eu queria fazer, eu não estava feliz”, relembra.

Após encerrar o negócio, ela conta que a oportunidade de criar a InnerPlant nasceu de uma conversa com o sogro, que era professor da Universidade de Tel Aviv. “Ele veio nos visitar e me disse que tinham encontrado uma maneira de se comunicarem com as plantas", relembra.

Ela se interessou pela história e embarcou para Israel, onde passou dois meses junto da equipe que estava desenvolvendo a pesquisa, a fim de entender a fundo os resultados e mecanismos.

“Eles haviam descoberto algo muito importante e revolucionário, mas do ponto de vista comercial precisávamos fazer alguns ajustes", conta.

Foi aí que Shely foi a campo conversar diretamente com os agricultores, para entender quais eram as necessidades deles e de que forma a tecnologia poderia se adaptar às fazendas.

“Entendemos que precisava ser algo simples e prático, que se adaptasse bem à rotina deles sem que eles fizessem grandes mudanças ou ajustes no dia a dia.”

Após cerca de oito meses trabalhando para entender o mercado e como os resultados das pesquisas poderiam ser adaptados a um produto comercial, Shely conta que conheceu o microbiologista Rod Kumimoto. E juntos eles criaram a companhia.

"Quando decidi mudar de negócio, eu não sabia bem o que queria fazer, mas eu sabia que queria trabalhar com alimentos e criar algo que fizesse a diferença no mundo, causasse um impacto positivo".